terça-feira, 4 de agosto de 2026

Nada Posso Naquele Que Me Enfraquece

Patos jogam bola com chuteiras novas

Enquanto disputam seus amendoins

Cavaleiros medievais usam celulares

Para cantar sambas-canções maneiros

A vida segue em frente de marcha-ré

Enquanto faço meus balões de jornal


Alguém chora dormindo por charutos

E as Índias Ocidentais fazem suas greves

O não é sim quase sempre e o sim é não


Uma notícia bombástica não explodiu

Ondas dos teus cabelos servem pra surf

São tantas letras para pandeiros mágicos

Por mar qualquer terra parece um doce

Alguns zumbis são alérgicos aos miolos

Somos mais tão diferentes de nós mesmos


Qualquer soldado treme de frio ou tesão

A nouvelle vague abriu suas novas vagas

Vamos repetir aquilo que nunca comemos


Meu pônei acabou fazendo curso de filosofia

Estão vendendo rodas de Sansara na feira

Mosquitos malandros agora usam fast-food

O rapaz da bicicleta pratica o vampirismo

Bela recepção no aeroporto com palavrões

Em Minas estão encenando uma nova novela


Toda culpa gosta de jogar sua roleta-russa

Quem sabe as teclas do piano são dentes

A puta velha ainda se acha uma novinha


Fui no cinema ainda no século passado

Queria ser um santo mas faltaram chifres

Só beberei água quando for para Marte

Quem mais dança a catira faz com as mãos

A nova língua oficial se chama solidão

Nem Pedros e nem Paulos no mapa-mundi


Frases perfeitas são proferidas por mudos

O pé de acerola testemunhou o seu crime

Minha poesia é apenas mais um rasgo d'alma


O monstro da lagoa agora habita desertos

Eu falo em mandarim toda vez que eu penso

Nossas lições de casa esqueci pelas ruas

Quem nunca fez macarrão quase não viveu

A arte sacra é um bandolim feito de chocolate

Minha batina esqueci na encarnação passada


Tudo que é verdadeiro tem cheiro de tangerina

Já fiz alongamentos com caneta esferográfica

Quando assinei minha sentença de morte tremi...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

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