sábado, 1 de agosto de 2026

Carliniana CXXIX (Sem Elefante)

A minha inocência foi embora e não foi...

Um díptero zuniu no meu ouvido a noite inteira...

A velhice fez em cacos qualquer vaidade...

Nem ervas aromáticas salvaram a vítima...

O pajé estava de folga em seus deleites vãos...

Vamos fazer um condomínio destes ninhos...

O vento de ontem acabou se cansando demais...

Luz lenta e cheia de manias excêntricas...

Toda fatalidade acaba querendo um disfarce...

Aqui e ali não percebemos nenhuma diferença...

Os burgueses defecam na praça de alimentação...

Todo comum sonha em ser o mais excepcional...

As palavras acabam entortando em seu trajeto...

O canibalismo é uma forma de paixão louca...

A sombra tem seus direitos legais adquiridos...

Quando surge meio século meio medo chega...

Qualquer som na madrugada é novo carnaval...

Vamos comer pedaços de vidro com molho...

O morto prometeu não contar mais anedotas...

Toda ruína ontem não foi e nem sabia se seria...

Jogaram a cultura no vaso e deram descarga...

O dandy ficou pelado e saiu passeando na rua...

Eu sou a própria contradição mais lógica...

Recentemente certas antiguidades deram certo...

Amido de milho um dia foi um nosso paraíso...

O poeta sabe tremer suas carnes e os ossos...

Agradeço por todos os socos que levei na cara...

Darei outros em troca logo assim que puder...

Nesta grande liquidação os preços aumentados...

Não temos relógio e nem o dinheiro da condução...

Nem tudo aquilo que é vai ser no dia seguinte...

A fama é apenas um erro que assim foi cometido...

Ela meteu a cara na latrina e nem viu isso...

A pobreza é apenas a riqueza que não deu certo...

Deu sono e a culpa não foi exatamente minha...

Eu já tive uma espada de plástico e me bastou...

Tive também muitas Espanhas e algumas flores...

A minha inocência foi embora e não foi...

Avis Rara XXXIV (Exageros Comedidos)

Nunca sei se sei de coisa alguma

Pedra ou pluma?


E neste eterno dilema

Faço ou não faço poema

É tudo apenas uma teima

E o frio me queima...


Nunca sei se sei de coisa alguma

Toda ou nenhuma?


E neste andar tropeço

Tenho ou não tenho apreço

É tudo questão de nome

E eu rio da fome...


Nunca seu se sei de coisa alguma

Apareça ou suma?


E neste vor suicida

Tenho morte ou tenho vida

É tudo ponto de vista

A derrota é conquista...


Não sei se sei de coisa alguma

Claridade ou bruma?...

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Alguns Poemetos Sem Nome N° 369 *

Há um poeta louco na praça

Mesmo com loucuras quase normais

E também quase normais também...

Há um sol diferente e quase igual

Iluminando as plantas (teimosas)

Que resistem mesmo que em vão...

Há uma fileira de passos na areia

Ou será naquela terra amarela

Que serve para jogos e passos...

Há um Poeta Louco na praça

Mesmo com a alma sem poesia

E apenas mais alguns enganos...


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Na última vez foi como a última dose

(Desceu queimando pela pobre garganta)

Há tantos eles e elas que sumiram

(Não sabemos se foi por ali ou por lá)

No último canto foi como fosse um grito

(Tantas notas dissonantes que passaram)

Parecia mesmo como uma brasa viva

(Que coloquei na mão de propósito)

Na última água acabei me afogando

(Façanha para algumas simples gotas)

Não precisam pesquisar quais águas

(Lágrimas são conhecidas por todos)...


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As vaias é que foram unânimes...

Mesmo assim minha teimosia teimosa...

Nunca me culparei pelos meus erros...

Coisas demais acabam atrapalhando...

Coisas de menos nem podemos ver...

As estrelas nem por isso param de brilhar...

As vaias é que foram unânimes...


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Nunca procure a beleza em velhos poemas

O tempo acaba levando (até a beleza se vai)

Procure algum resto de sentimento lá

Os sentimentos sim permanecem sempre

E tantos os choros quanto os risos

Acabam repetindo sua mesma tarefa...


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Não ficarão cinzas de mim, não ficarão

Ficarão os restos silenciosos de meus ossos

Brancos e gélidos como todos os outros

Fogueiras extintas de uma noite que passou

Não ficarão cinzas de mim, não ficarão

Serão mais um detalhe desapercebido

De algum canto por aí que será qualquer

Bem mais tranquilos que meu medo agora

Não ficarão cinzas de mim, não ficarão...


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Meu cão dorme no canto da cama

A tranquilidade do dia não o assusta

Meus cigarros malvados vão queimando

Tento contar os segundos que escorrem

Assim como as palavras que não disse...


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Palmas para as pequenas invenções

Que são pequenas e algumas imortais...

Palmas para quem também as inventou...

Palmas para os sorrisos que saem

Mesmo em ruas que são tão comuns...

Sorrisos sem maldade sempre criança...

Palmas para os passos de eterna dança

Que fazem a máquina da alma funcionar...

Até as almas precisam de combustível...

Palmas e palmas e muitas palmas...


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E eu nem notei o quão estava ferido...

A televisão não está mais na sala

E a minha sobrevivência gritou bem mais...

E eu nem notei o quanto estava magoado...

Certas feridas nem são mais notadas

Até que o meu sangue acabe esfriando...

O barco um dia não navegará mais...

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Alguns Poemetos Sem Nome N° 368 *

Eram todas as Marias

ou eram todas as Marys?...


Nunca se sabe

mesmo que se saiba

A dúvida de longe

(bem daqui de perto)

Qual cheiro bom

que nunca mais volta...


Eram todas as Marias

ou eram todas as Marys...


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Parece nome de novela.

E até é que é.

Parecida com assombração.

Das que dão até soluço.

Vamos pular?

Se não cair

É que não cai mesmo.

Mas se voar

Vai logo lá pra cima.

Parece nome de novela.

E não é que é?


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É que eu guardo enigmas no bolso

Feito as poucas moedinhas que tenho...

Vou andando na rua passo por passo

E até vou rezando pra nem cair...

É que eu coloco aqui no peito

Os amores que nem consegui amar...

Tenho muito ou algum medo

Que tudo se acabe num estalo de dedo...

É que eu guardava enigmas no bolso

Mas as moedinhas foram caindo...


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Não inventarei mais invenções tolas

Nem vou mais reverenciar amores perdidos

O fogo foi descoberto faz é tempo

A roda foi mais do que anteonte

Não dançarei mais na chuva pra não cair

Nem farei juras que não possa cumprir

O chinês é quem fez essa tal de pólvora

Contar palavras pode ser meio difícil...


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Ela tava feliz porque tava feliz

Com esses seus sapatos novos

E como o velho enfeite de cabelo...

Ele tava feliz porque tava feliz

Porque deu um chute na bola

E fez o gol no meio dessa rua...

Eu tava feliz porque tava feliz

Sem ter mais motivo nenhum

Por ver que a felicidade não precisa disso...


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Eu gasto meu tempo por pura lógica...

O ontem foi fruta madura do pé,

Caiu? Ah, que pena! Não serve mais...

Vamos agarrar o hoje, menino?

Se não pegar, acaba virando ontem...

Eu gasto meu tempo por pura lógica...

Quem me ensinou isso? Foi o tempo...


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Temo mais manhãs do que tempestades...

Muitas coisas nasceram para enganar...

As manhãs enganam e enganam demais...

São apenas histórias boas sem ter final...

Aquela frase ficou suspensa pelo ar...

Uma sentença foi dita e ninguém escutou...

Que tempo estava previsto e não aconteceu?

terça-feira, 28 de julho de 2026

Um Tempo


Um tempo que faz tempo

Um tempo aqui e um tempo lá

Tempo de paz e tempo de guerra

Tempo de ri e tempo desamar...


Não sei onde pararam as tuas tranças

Eram bonitas e trazem lembranças

A luz que traz e o vento que traz

Minha inquietação e a minha paz...


Um tempo que faz tempo

Um tempo aqui e um tempo lá

Não sei quem trouxe esse meu doce

Era tão doce chega a amargar...


Não sei onde foi parar a tua boca

Mas que lembrança mais que louca

Só sei que agora eu me desespero

E mesmo sem te esperar eu espero...


Um tempo que faz tempo

Um tempo aqui e um tempo lá

O nosso copo mesmo que vazio

Vamos erguer e vamos brindar...


Não sei onde foi parar a minh'alma

Só permaneceu esta minha velha calma

Como uma velha ruína que não some

Apesar de tanta tristeza e tanta fome...


Um tempo que faz tempo

Um tempo aqui e um tempo lá

Um tempo que tem tanto tempo

Que não dá nem para se contar...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Apenas Janela


Apenas um triste quadrilátero na parede

Onde alguma luminosidade invade

Mais um quarto desse velho solitário

Olhem! O sol vem chegando aos poucos

Mas não promete se alegria virá também...


Vejam! O tempo corre em sombras

E suas novidades só chegam escondidas...


Sons múltiplos chegam da rua

Por mais extraordinários que aparentem ser

São apenas mais alguns sons banais

E enquantos os veículos passam metálicos

Cada um anda para o seu próprio final...


Não! Eu sou apenas mais um vão sobrevivente

Que dança sem saber quais os seus passos...


Escondo todos os meus males de mim mesmo

Com a avareza típica dos desesperados

Enquanto alguns pássaros estão indiferentes

Mas servem para enfeitar o ar que está em torno

E os insetos vão cumprindo suas tarefas...


Ondas vêm vindo! Os barcos nem se importam

Eles sabem seu destino e nunca saberemos os nossos...


Apenas um triste quadrilátero na parede

Onde alguma treva mais tarde chegará

Mais um quarto desse velho solitário

Olhem! As estrelas vêm me dar boa-noite

Mas não esperam se eu irei responder...

Alguns Poemetos Sem Nome N° 367 *

 

Acabei de inventar agorinha mesmo:

Não é nenhum poemeto, é um poemico...

Algo tão pequeno que caiba na mão

E ao mesmo tempo maior que o espaço,

Mais velho que o próprio tempo...

Quantos versos ele tem? Sei lá...

Poetas não sabem quase nada, 

Apenas sabem sentir e sentir,

As palavras é que mandam sempre...


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Sinto falta, muita falta sim,

De velhos rostos que foram embora...

E dos amores que nunca tive?

Partiram e deixaram espinho em mim...

Tudo é o que é, simples nuvens,

Daquelas que acabaram caindo...

Sinto falta, muita falta sim,

Do velho menino que fui e sorria...


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Meus pés acabam fraquejando,

Eu sei que a culpa não é deles,

Foi esse malvado tempo viciado em andar...

Qualquer dia eu caio de vez,

Não conseguirei me levantar mais...

Nesse dia eu pego minhas asas de volta...


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Cantar é um nobre ofício,

Tocar um instrumento também,

Dançar é algo divino, eu sei...

Mas escutar é mais, muito mais...

Escutar com os olhos

Para que a alma possa entender...


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Aprofundei-me na arte de ser teimoso.

Pretendo viver cada segundo meu.

Se bom ou mal, isto é outra história.

Calado ou berrando, isto tanto faz.

Na escuridão ou no meio do fogo, simples opção.

Talvez até fique contando lendas antigas.

Carrego apenas uma verdade comigo:

Eu ainda amo a menina bonita que era...


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Meu pior inimigo? Eu mesmo...

Meu pior desacerto? Respirar...


Aquele amor que nunca existiu

Me trouxe medos imaginários

Que um dia hão de me matar...


Aquele choro que escutei

Mesmo sem barulho algum

Hão de me deixar doente de vez...


Meu maior erro? Essa estética louca...

Meu pior veneno? A esperança teimosa...


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Pelas manhãs,

Quase nunca as de setembro,

Mas as manhãs,

Faço perguntas 

Sem querer as respostas...

Ora, a curiosidade

Não tem tamanho,

Mas o gato permanece vivo...

Carliniana CXXIX (Sem Elefante)

A minha inocência foi embora e não foi... Um díptero zuniu no meu ouvido a noite inteira... A velhice fez em cacos qualquer vaidade... Nem e...