quarta-feira, 25 de março de 2026

Babilôniaqui


 Água amarga. Ejaculação precoce.

Espelho de lata. Cabeça entre as pernas.

Uma cortina de lençol na porta do quarto.

Acabou o sol quase agora.

Piercing no olho. Quentinha azedada.

Riso histérico. Sensação de nuvens.

Inventei uma nova forma de desespero.

Uma fogueira sob as águas.

Chá das seis. Escrita inculta.

Tapa nas ventas. Arame farpado.

Os canhões um dia irão desmaiar.

Um gole de absinto para mim.

Moqueca de gelo. Fumaça etílica.

Fila da morte. Ovos velozes.

Só sou louco quando eu respiro.

Morri quinhentas vezes.

Palavras iletradas. Patos caçadores.

Transando de tênis. Barulho furtivo.

Agora só sabemos o que não sabemos.

O cientista desaprendeu tudo.

Fila baiana. Estepes furados.

Casacos esfriantes. Beleza horrível.

Não tenho grana nem pro cigarro.

Esqueço quem eu não fui.

Fotografia para cegos. Diversão triste.

Tensão indomável. Pombos belicosos.

Nunca mais seremos de novo felinos.

A improvável beleza do ter.

Cantoria solitária. Dia improvável.

Vitória esfacelada. CrÂnio rachado.

Nunca se sabe de onde vem o vento.

Toda Babilônia é aqui...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 24 de março de 2026

Ainda Não

Ainda não...

As mãos do poeta não ficaram imóveis

Desistindo de procurarem o verso ideal

Diferente dos que escrevi de forma inútil

Tentando mostrar as alegrias que não tive...


Ainda não...

Os olhos do poeta não estão fechados

Estão apenas arregalados na escuridão

Que eu teimo em chamar de vida

E que ela por maldade entortou um dia...


Ainda não...

A boca do poeta possui apenas um grito

Ou ainda um riso entre muitos gemidos

Como quem vem em passos firmes

Para colher rosas neste nosso jardim...


Ainda não...

A alma do poeta tem um rasgo de ternura

E esse pedaço que se fez de sobra

Mesmo que mais nada então reste

Poderá dançar pelas estrelas do céu...


Ainda não...

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pois O Desespero Só Sabe Rir

Não há mais sono.

Barulhos silenciosos cortam o ar.

Mas a lâmina está desamolada.

Eu não sei pra onde voar.

Não queremos liberdade de correntes.

E nem mais senhas invalidadas.

Todo adjetivo foi uma mentira.

Inventaram uma cor invisível.

Isto é naturalmente artificial.

Minhas asas são como um eclipse.

Assim foram aquelas noites europeias.

Um pouco de mitologia no café da manhã.

Agora eu sou o meu próprio abismo.

Em qualquer museu muitas espaços vazios.

Qualquer riqueza é tão pobre.

Sinos são dobrados como papel.

Só a brevidade pode durar algo.

Esqueci qual era a pergunta.

Um dedo de prosa sem qualquer mão.

Eu só não sabia que não sabia nada.

A esperança resiste até não poder mais.

A paixão é que nos acaba apaixonando.

Vento que venta aqui acaba lá.

Acabo tendo pressa com minha preguiça.

Temos versos para qualquer mediocridade.

Guerras também em cada esquina.

Há um frio glacial dentro desta fogueira.

Quero bem mais do que eu posso.

E não há mais sono...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

domingo, 22 de março de 2026

Infinitivos Alguns

Pois nasceram de ondas

Que não posso ver

Ou de vários milagres

Que não posso crer...


Ai, meus olhos!

Dois pirilampos e escuridão...

Nenhum amor

E apenas mais uma paixão...


A minha canção mais bonita

Não posso cantar

Ou é apenas mais um delírio

Que vem ao pensar...


Ai, meus pés! 

Como doem por este caminho...

Estou acompanhado

Mas a vida me faz um sozinho...


O tempo é apenas um acidente

Que veio me machucar...

E meu maior destes encantos

São tiros do seu olhar...


Ai, minhas mãos!

Fazem um gesto quase morto...

Eu sou apenas

Mais um viajante sem porto...

quarta-feira, 18 de março de 2026

Não Há Paredes

Não há paredes para minha liberdade

Nem há muros para meus sonhos sequer

Eu engoli o tristeza em um gole só

E fiz da minha sombra boa companhia...


Até o amor não me machuca mais

Com sua partida sem me dizer um adeus

A única realidade mais que possível

São os dedos frios da morte me acariciando...


Saio da frente desta mais cruel tela

Sendo apenas mais eu e nada mais

De tanto pensar acabei descobrindo segredos

E nenhuma crueldade será mais novidade...


Não há paredes para os meus versos

E eles me seguirão nos caminhos que for

Se serão lidos ou não não são problema meu

O último deles será como o fim da chuva...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 10 de março de 2026

Pois Na Cidade Também Há Solidão

Eu sei,

Você sabe,

Ele sabe,

Todos nós sabemos,

Que na cidade também há solidão,

Em cada mercado tão cheio,

Em cada praça mais lotada,

No meio do bloco no domingo,

Na hora do rush na Central,

Somos feito pombos disputando os grãos...


Eu quero,

Você quer,

Ele quer, 

Todos nós queremos,

Que a morte perca o último ônibus,

Que o amor se canse e não parta mais,

Que a maldade caia no chão e quebre,

Que a esperança venha que nem febre,

Que a dúvida sorria do canto da boca,

Somos como bêbados de alguma alegria...


Eu tenho,

Você tem,

Ele tem,

Todos nós temos,

Um mesmo medo no fundo da alma,

Uma mesma desunião entre seres queridos,

Enigmas que nunca podem ser resolvidos,

Desculpas esfarrapadas para qualquer erro,

Dores que não aparecem e nunca param,

Pedidos de esmolas quase disfarçados...


Eu sou,

Você é,

Ele é, 

Nós somos,

Apenas humanos nesta solitária cidade...


(Extraído do livro "Leonardo e O Chão" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 9 de março de 2026

Metamorfose em Anjos

Em pouco tempo

Não haverá mais tempo

Nem pra pensar...


Um vendaval invadiu as janelas

Trouxe poeira pros móveis

Quase rasgou as cortinas azuis...


Talvez amanhã

Todos os prédios desabem

E seremos ruínas...


A televisão acabou pegando fogo

E a fumaça resultante

Acabou transformando em nuvens...


Certamente hoje

Alguém de cara mais feia

Cantará um réquiem...


Pois eu envenenei o meu chá

E nada aconteceu

Pois temos vícios bem piores...


É tudo um hábito

Como a guerra para os malvados

Ou tristeza para pobres...


Eu só sei que nada mais sei

E agora meus demônios

Também cantam seus hinos...

Babilôniaqui

  Água amarga. Ejaculação precoce. Espelho de lata. Cabeça entre as pernas. Uma cortina de lençol na porta do quarto. Acabou o sol quase ago...