quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Alguns Seres (Miniconto)

Alguns seres (ou seriam muitos deles?) fazem exatamente o que sistema quer. Não possuem o hábito da leitura, não sabem o que os cerca, não tentam nem saber porque estão aqui! Comem o que está ao alcance da boca, nada produzem... São etílicos, viciados, lixos sociais para uma sociedade já suja. Não pensam, não raciocinam, obedecem o que veio escrito na bula, nada mais. Tentam disfarçar o que sempre foram - inúteis. Em suma, só sabem fazer três coisas, ocupar espaço no planeta, queimar oxigênio da atmosfera e cagar oito toneladas de bosta durante sua miserável vida...  

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Não Há, Não Há

Não há diferença 

entre um santo iogue

e um simples hot-dog

entre um poema

e o velho problema,

não há, não há...


Não há diferença

entre os teus lábios

e conselhos sábios

entre garotos de aluguel

e barcos de papel,

não há, não há...


Não há diferença

entre a comida boa

e o balanço da canoa

entre o susto do eco

e a cana no boteco,

não há, não há...


Não há diferença

entre essa inocência

e a nossa indecência

entre a sua entrepernas

e as penas eternas,

não há, não há...


Não há diferença

entre a cortina de aço

e a falta do abraço

entre vento do norte

e a fraqueza forte

não há, não há...


Não há diferença

entre o corpo de delito

e a pata do cabrito

entre a pata choca

e a cara do boboca

não há, não há...


Não há diferença

entre a bunda de pandeiro

e o saco de dinheiro

entre a ida para Marte

e a carta do descarte

não há, não há...


Não há diferença

não há, não há...


(Extraído do livro "Palavras Modernas" de autoria de Carlinhos de Almeida). 

Estética de Lobos

 

Espadas cor de prata

Dentes de ponta afiada

Uivos para a lua

Lua cheia insana...


Carinhos que ferem

Olhos cheios de medo

Reflexos na água

Água para sonhos...


Pêndulos intermináveis

Certeza da matilha

Malabarismo louco

 Louco na praça...


Inominável preço

Endereço errado

Acabou-se a festa

Era festa de mortos...


Inevitável choro

Presa inocente

Coroa de louros

Teus louros cabelos...


Nem sim nem não

Veneno indolor

Cheiro de ilusão

Ilusão sem olhos...


Faróis sem mira

Ossos sem lida

Estamos no jardim

Jardim sem delícia...


Vamos para o sempre...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Nada Posso Naquele Que Me Enfraquece 2

Ela goza enquanto fala seu inglês de internet...

Masca seu chicles enquanto faz serena seu anal...

Poderemos esconder o urso de pelúcia no cofre?

Eu tenho crises de labirintite naquele labirinto...

Sua bondade é composta da malícia mais pura...

Posso falar meu português com sotaque alemão?

Esta fome é mais eterna do que os rios são...

Me perdi numa multidão apenas de um só...

Será que biscoitos e bolachas vão combinar?

Assistam logo o livro e não deixem de ler o filme...

O alien tem um forte sotaque caipira sem dentes...

Posso me refrescar com um belo banho de fogo?

Minha fé só funciona quando existem milagres...

Se eu faço um círculo de carvão ganho prêmio...

Fico na dúvida se posso ter dúvida ou não?

O morto faz uma vaquinha para seu enterro...

Minha síndrome do pânico entrou em pânico...

Cadê o toucinho que o rato um dia pegou?

O malabarista nunca soube andar de bicicleta...

Chanel come suas torradas só com cerveja...

Será que um dia seremos avós dos nossos filhos?

O pai aqui sabe de tudo especialmente nada...

Esta minha modéstia me impede de ser modesto...

Uma crise de espirros pode ser um bom negócio?

Foi o santo que acabou subindo da porta-bandeira...

Eu nem sei mais o que irei comer no dia de hoje...

Quantos quintais são precisos para os carnavais?

Nossa urbanidade deveria ser um pouco mais rural...

Minha fraqueza amanheceu até mais forte hoje...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Nada Posso Naquele Que Me Enfraquece

Patos jogam bola com chuteiras novas

Enquanto disputam seus amendoins

Cavaleiros medievais usam celulares

Para cantar sambas-canções maneiros

A vida segue em frente de marcha-ré

Enquanto faço meus balões de jornal


Alguém chora dormindo por charutos

E as Índias Ocidentais fazem suas greves

O não é sim quase sempre e o sim é não


Uma notícia bombástica não explodiu

Ondas dos teus cabelos servem pra surf

São tantas letras para pandeiros mágicos

Por mar qualquer terra parece um doce

Alguns zumbis são alérgicos aos miolos

Somos mais tão diferentes de nós mesmos


Qualquer soldado treme de frio ou tesão

A nouvelle vague abriu suas novas vagas

Vamos repetir aquilo que nunca comemos


Meu pônei acabou fazendo curso de filosofia

Estão vendendo rodas de Sansara na feira

Mosquitos malandros agora usam fast-food

O rapaz da bicicleta pratica o vampirismo

Bela recepção no aeroporto com palavrões

Em Minas estão encenando uma nova novela


Toda culpa gosta de jogar sua roleta-russa

Quem sabe as teclas do piano são dentes

A puta velha ainda se acha uma novinha


Fui no cinema ainda no século passado

Queria ser um santo mas faltaram chifres

Só beberei água quando for para Marte

Quem mais dança a catira faz com as mãos

A nova língua oficial se chama solidão

Nem Pedros e nem Paulos no mapa-mundi


Frases perfeitas são proferidas por mudos

O pé de acerola testemunhou o seu crime

Minha poesia é apenas mais um rasgo d'alma


O monstro da lagoa agora habita desertos

Eu falo em mandarim toda vez que eu penso

Nossas lições de casa esqueci pelas ruas

Quem nunca fez macarrão quase não viveu

A arte sacra é um bandolim feito de chocolate

Minha batina esqueci na encarnação passada


Tudo que é verdadeiro tem cheiro de tangerina

Já fiz alongamentos com caneta esferográfica

Quando assinei minha sentença de morte tremi...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Quantas Vezes Já Morremos Juntos?

Quantas vezes já morremos juntos?

Quantas vezes já morremos juntos, meu amor?


Em cada rua, em cada praça, em cada esquina

Esses nossos corpos jazem sob o sol inertes

Enquanto as moscas pousam sobre nós...


Quantas vezes já morremos juntos?

Quantas vezes já morremos juntos, paixão minha?


Em cada hora, em cada minuto, em cada segundo

Estávamos sem relógio para prevermos isso

Mas a morte não tem culpa alguma...


Quantas vezes já morremos juntos?

Quantas vezes já morremos juntos, minha amada?


Em cada sorriso, em cada riso, em cada gargalhada

Fizemos a última e derradeira brincadeira

E ninguém acabou percebendo esta peça...


Quantas vezes já morremos juntos?

Quantas vezes já morremos juntos, minha linda?


Em cada gole, em cada tragada, em cada overdose

Fomos apenas mais um número estatístico

O fim de cada ritmo vivente e fisiológico

Como duas pedras que param de rolar...


Quantas vezes já morremos juntos?

Quantas vezes já morremos juntos, meu amor?

Talvez vidas futuras sejam nossa redenção...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Alguns Poemetos Sem Nome N° 371 *

O ventilador zune na sala

Os mosquitos zunem em meus ouvidos

Uma noite ternamente lúgubre

Sussura maldições para mim

O laço de fita que ela não usa mais

Jaz adormecido no canto da cama

Só posso pedir socorro às paredes...


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Nunca seremos mais os mesmos

Cada segundo dá sua contribuição

Normalmente não há nada normal

Eu engulo as notícias como saliva

Gostaria de não pensar em nada

Porque as estatísticas nos mostram

Que a encomenda da salvação

Acabou atrasando no correio...


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Cada destilado que bebi

Foi mais uma simples descoberta

Cada trago que dei no cigarro

Foi um simples pulo no abismo

Eu tenho cá certas manias

Que acabam fazendo história

Cada amor que tentei em vão

Foi prova de minha insanidade

Cada mentira que tentei contar

Enganou foi à mim mesmo

Nunca nada foi mais doce

Do que esse amargo na boca.


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Enquanto um estômago está cheio

O outro estômago está vazio

Enquanto um rosto ri demais

O outro é um pântano lacrimoso

Enquanto a bondade tenta andar

A maldade sobrevoa as casas

Não se trata de maniqueísmo

Se trata de olhar apenas o que há...


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Eu parei o ar! Congelei o tempo!

Os velhos decalques na geladeira 

Acabam partindo pra não sei onde...

Eu olhei tuas curvas! Queria mais!

Minha líbido gira pelo ar turvo

Como moscas que enlouquecem

E mergulham em direção às teias...

Eu não disse nada! Foi mais que tudo!

Certas revelações nos ferem

Mais que qualquer agulha imaginária...


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Tudo que vive, acaba morrendo

Até o inédito cheira à normal

Faltam novidades para ver

Faltam mentiras para ouvir

Carpideiras também folgam

Todos os passos acabm lentos

E os carnavais vão se repetindo...


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Eu não procuro a beleza

Eu procuro a arte

A beleza nunca foi

Atributo obrigatório dela

A arte é apenas cruel

Mas redentora

Mistura-se com o sonho

Feito café com leite...

Alguns Seres (Miniconto)

Alguns seres (ou seriam muitos deles?) fazem exatamente o que sistema quer. Não possuem o hábito da leitura, não sabem o que os cerca, não t...