domingo, 23 de agosto de 2026

Aquela Franja

Não precisa fazer mais o que quero

Já provei framboesa do pé e tem gosto ruim

Toda novidade para mim é apenas desagrado

Se ofendi alguém o problema nunca foi meu


Seria legal um tango tocando bem alto

Acordando o resto da putada que faço parte

Para previnir que a morte faz hora extra

Mas nunca deixa seus rastros na areia da praia


Sou um velho como qualquer um destes

Chorando pelas injustiças que nunca acabarão

Desde que o primeiro sangue correu nas veias

Deus e o Diabo caem na porrada e aplaudimos


O jardim sabe cobrar aquele preço bem alto

Pisar sobre as flores é uma tarefa mais banal

Uma sacanagem é apenas mais uma sacanagem

E o perdão só existe para aquele que pecou


Os abutres são os papagaios dos new pirates

Enquantos urubus são estes bichos de gaiola

E as aranhas não param de fazer suas teias

Um segundo de desespero nos é o suficiente


A minha calma é a irmã da minha revolta

O tempo em que eu era alguma coisa passou

Minha viagem não acabou em lugar nenhum

E aquela franja que você tinha não existe mais...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 22 de agosto de 2026

Carliniana CXXXI ( Como Se Fosse Poesia )

Como se fosse poesia...

Detalhes de um mundo banal assim

Lobos almoçando e jantando lobos

Num ritual disfarçado de normalidade

E todas fotografias revelam o oposto...


Como se fosse poesia...

E bailarinos enlouquecidos berram

Para que a música volte ao normal

Enquanto toda a fatalidade funciona

Como um disco quebrado na vitrola...


Como se fosse poesia...

Quem é famoso vai tremendo de medo

Porque o esquecimento bebe veneno

Para provar a cruel e real imortalidade

De passos que nunca mais serão dados...


Como se fosse poesia...

Eis o martírio dos que são mais tolos

Por mais um punhado de moedas velhas

Provido de uma morbidez saudável

Composta de palavras equivocadas...


Como se fosse poesia...

O engano mais bem planejado que há

Porque só há verdade no que está solto

As nuvens continuam mesmo desabando

Enquanto a fumaça morre por lá mesmo...


Como se fosse poesia...

Façamos um brinde com copos de areia

Lembrando de um tempo sem ter tempo

Com coisas mais estranhas e mais comuns

Onde a inocência é que dava as cartas...


Como se fosse poesia...

Playlist de todos os infalíveis que falharam

Estes célebres desconhecidos iguais à mim

Todos nós pensávamos que seria tão fácil

Como se tudo o que existe fosse poesia...

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Sopa Quente

Sopa quente para dias mais quentes ainda.

Milhares de tranças na memória do meu PC.

Eu amo as palavras e elas tanto me odeiam.

É cada ginástica mental que tira meu fôlego.

Somos amigos até que a terra nos engula.

Eu sou testemunha ocular do que não existe.

Inventar novas mentiras é nossa especialidade.

Vou para Vênus nas nossas próximas férias.

A insistência desistiu de toda e qualquer coisa.

Alguém infartou no dia do seu aniversário.

O chef faz bolinhos de pura carne artificial.

No aniversário lembramos que logo morreremos.

Faltaram milagres para preencher a tenda.

Nenhuma necessidade é maior do que o sonho.

Quero um remédio nulo para o mal que não tenho.

E uma dose veneno para injetar em minhas veias.

Toda beleza é um cão feroz na rua sem dono.

Minha vanguarda é a mais antiquada que há.

Não a chamo de vagabunda porque é um elogio.

Chá com porrada é a novidade mais maneira.

Estão sendo feitos os acordos mais substanciais.

É hora do banho para meus ratos de estimação.

Estamos morando em trincheiras sem nem saber.

Minha vontade é quem nem a carpideira que ri.

Sopa quente para dias mais quentes ainda...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Com Máscara

Em muitos lares milhares de tragédias gregas.

Em cada telefonema a preocupação ou a banalidade.

O fogo foi descoberto quase anteontem na esquina.

Só não mataram o cara porque não era a hora dele.

Você já contou quantas rugas tem na sua cara?

A satifação abre as pernas para qualquer mortal.

O que mais engana é o nome de todas as coisas.

Garantimos que nessa merda não há garantia alguma.

A certeza é a coisa mais incerta que inventaram.

Notou que tirar meleca do nariz virou mais um ritual?

Ficaremos embriagados quando não houver álcool.

Só nasce um filho-da-puta em cada minuto existente.

Estou precisando urgentemente de um novo par de asas.

A esperança é uma invenção nova que não resultou.

Em que ruínas estarão agora aqueles meus velhos sonhos?

Meus pulmões doem quando vejo antigas propagandas.

Tenho saudades de várias casas que não existem mais.

Junto coisas anormais para compor minha anormalidade.

No passado não distinguia entre as pedras e os metais.

Por que o óbvio nos incomoda de uma forma debochada?

A nossa imparcialidade está parcialmente machucada.

Ganhamos dores em uma promoção de belos presentes.

Qualquer faltalidade vem embrulhada em papel colorido.

Somos convidados para um balé e acabaram as nozes.

Em muitos lares milhares de traições iguais à Judas...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Sem Máscara

 


Ratos por todos os cantos da velha casa.

Procurando a comida que nem não existe.

Não escolhemos nem o nome para essa nossa infelicidade...

A coceira é o resto da dor que veio logo.

A cara da puta é a mais inocente que há.

Se atirar do alto da escada é a nossa maior brincadeira...

Todos nós somos os advogados do Diabo.

O perdão é aquilo que carregamos no bolso.

A morte é quem vence todas as disputas que temos por aí...

Tentar ser bom é o maior dos desperdícios.

A justiça é um cão que abana sempre a cauda.

Conhece-te a ti mesmo e assim verás quem é mais perigoso...

Temos entrada grátis para toda esta futilidade.

Ficando fora da geladeira acabou-se o sonho.

Toda a normalidade é um filme pornográfico não exibido...

A regra da sensatez é ser mais canalha que pode.

O rico e o pobre cagam do mesmo jeito sempre.

Só possuímos aquilo que iremos perder logo e sempre...

Água suja e água limpa: todas as duas são águas.

O tamanho da bunda é aquilo que decide o chute.

Milhões de borboletas estão procurando seus cadáveres...

Falar de boca fechada é sempre o que é melhor.

Cada mês apresenta suas desgraças com gosto.

Nem todas as coisas belas possuem a beleza exata...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Alguns Poemetos Sem Nome N° 377 *

Nada está no seu lugar, o cantor cantou errado, certamente embriagado em seu piano. Quem quiser agradecer por isso, agradeça, eu não. Tento fechar meus olhos para um sol que apenas veio conferir se sofro, depois de uma noite medíocre como tantas outras que já vivi... 


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Não tenhamos medo, nunca. Abismos existem para serem superados. Mares bravios para serem navegados. Sombrios enigmas para serem desvendados. Amores traiçoeiros para serem amansados. Abraços ternos para serem dados. Caminhos longos para serem caminhados. Nunca tenhamos medo, não...


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Foi um monte de coisas que não fiz, não aprendi como fazer. Seria muito bom andar de bicicleta, mas se não consegui, contento-me com aquelas duas rodas que existem no céu - o sol e a lua. Seria ótimo saber jogar gude, mas se não aprendi, basta pelo menos dar certas jogadas e conseguir vencer alguma coisa nesse mundo de armadilhas. Ótimo deve ser fazer acrobacias com a pipa pelo ar, mas como não sei, uso as asas da imaginação e vou voar perto delas. Há,enfim, muitas outras coisas simples, que não aprendi e nunca irei aprender. Mas sonhar com elas, é muito fácil, muito fácil mesmo...


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Eu comeria... Cada pedacinho do sol até não sobrar mais nada... É tão bom... Não tem o gosto aguado de tristes dias de chuva que mais se parecem com choros... Seu açúcar me lembra alguns carnavais tão bons que já passaram... Ele convida pássaros e nuvens para comporem uma aquarela bem suave de cores bem claras... Os meninos podem sair de casa e fazerem do quintal um mundo tão divertido... Os amantes poderiam ir para as praças darem seus suspiros mais apaixonados tendo a visão dos olhos de suas amadas... Eu comeria... Cada pedacinho do sol até não sobrar mais nada...


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Tudo que passou, passou. A moda é um grande cemitério de corpos sepultados em absoluto silêncio como qualquer outro. Não tenhamos medo... Esses são mortos diferentes. Poderão nos trazer saudades olhando velhas fotografias ou ainda, simples lembranças repetinas. Nada mais nos resta, tudo é assim mesmo, passa e nem se despede...


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Certos perigos passamos e, como a maioria deles, só notamos quando é tarde demais. A queda do alto nos arremessa ao chão, o mergulho mal dado acaba nos afogando, a canção cantada fora do tom recebe vaias da plateia, a cor escolhida errada tira a beleza da obra, o sucesso mal  utilizado nos conduz ao fracasso. Mas mesmo assim continuaremos, errando ou não.


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Cada dia uma ilusão, um erro bonito bem açucarado. O luto com cores que atenuam a dor. Um conselho terno para seguirmos ao tombo sem quem nos levante. Cada dia uma farsa, valores opostos ao que deveria pelo menos ser. Enquanto isso a morte continua sua tarefa, mesmo quando forçada por abomináveis guerras...

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Alguns Poemetos Sem Nome N° 376 *

Por que esperar o que não virá? A esperança é um dom ou um vício, depende de quem a tenha... Por que amar quem não nos ama? O amor tem dessas maldades, nos contentar e, ao mesmo tempo nos ferir... Por que sonharmos se amanhã acordaremos? Muitas vezes os pesadelos são aquilo que são, nem percebemos... Algumas vezes, mesmo sem nos darmos conta disso, o medo nos acompanha por todos os lugares...


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- Faz tempo que eu não choro...

- Secaram todas as lágrimas ou aprendeu a ser somente feliz?

- Aí que está, estou em dúvida...

- Já sofreu muito nesta vida ao ponto de se insensibilizar?

- Sou um cara normal. Quem nunca passou por isso?

Só sei de uma coisa: Faz tempo que eu não choro...


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Cada pedaço de mim segue adiante. Mesmo que não perceba, assim é. Não falo de pedaços do meu pobre corpo, ele terá a hora de sua consumação final. Também não me refiro aos pedaços de minha alma infeliz, os pedaços que vão, na verdade, não me fazem tanta falta assim. Falo de outra coisa, coisa que me fere ainda mais e mais, falo das lembranças de seres e de coisas que eu amei um dia. Seguiram adiante sem sequer um adeus...


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Se não puder se calar, fale o menos possível que conseguir. Das sombras que te seguem pela vida, trazendo o medo e a decepção. Da dor da derrota por tanta banalidade, somos feitos de pequenos contentamentos e de grandes decepções. Da maldade de todos os homens, somos alguns deles e também cometemos as nossas com o perdão já pronto. Tente sim, o máximo possível, mesmo que isso canse a tua voz, falar de coisas simples, as mais simples possíveis como o encanto de um jardim ou da brincadeira serena das nuvens lá em cima...


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Faz parte de nós mentirmos, dizermos que está tudo bem enquanto nada está. Encenarmos uma peça ou fazermos uma novela com um final feliz que não acontecerá. Dizermos que tudo é uma grande festa, mas o luto que cobre nossos dias. Na verdade, levamos toda nossa curta existência tentando aprender a mais difícil de todas as lições - a felicidade não nos pertence, mas podemos pegar os momentos felizes e guardá-los em nossos bolsos...


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Tudo acaba confundindo nosso juízo. Tudo o que acontece parece acontecer diante de um espelho. São duas faces parecidas, mas opostas. Aquilo que fazemos tem perdão, aquilo que nos fazem nunca será perdoado. A ferida que temos não será fechada, a que causamos deverá ter pronta cura. É por isso que somos humanos, os seres mais deploráveis desta tal de criação...


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Tenho certas manias, para que negar? Aprendi a dar socos em pedras, sou cheio da falsa esperança que uma hora elas quebrem... Aprendi geralmente a amar quem não me ame, isso faz parte de minha natureza que teima em me castigar por aquilo que nem fiz... Aprendi a esperar por certas estações que acabarão não vindo, nem sempre o sol quer nos obedecer... Aprendi a querer contar os dias, aflito para o próximo carnaval, ele poderá chegar atrasado ou se perder pelo caminho... Tenho certas manias, para que negar?

Aquela Franja

Não precisa fazer mais o que quero Já provei framboesa do pé e tem gosto ruim Toda novidade para mim é apenas desagrado Se ofendi alguém o p...