sábado, 20 de junho de 2026

Um Casal do Fim do Mundo (Miniconto)

I. e I. não se gostavam. Mas não conseguiam se  separar. O motivo? E hoje em dia se precisa de motivo? Estavam juntos e pronto... Ele nem gostava só de mulheres, mas acabaram ficando juntos. Vivem de quê? Ah, isso é meio complicado... Vivem do que conseguem: uma vez dado, outra vez pedido, outra vez pelo pouco que trabalham. Moram aonde? Uma vez aqui, outra vez ali, alugam um local bem pobrinho e ficam lá enquanto podem pagar ou enquanto não podem, até serem expulsos e parar na rede social onde é exposta sua sujeira. Limpos? Nem pensar! O tempo que gastariam com a higiene do lar é aproveitado para suas bebidas e suas drogas. Bendita seja a internet que ela consegue uns trocados com seus nudes! Agora está grávida, é a segunda vez. Na primeira perdeu o que era não dele, mas do gay que já faleceu que pagava alguma bebida. Talvez esse venha, talvez seja dele e seja mais um vivendo de forma irregular, mais um infeliz nesta grande lista... 

Os Copos

A vida é uma charge que pinga sangue.

Onde estiverem dois ou três em meu nome

Pode acreditar que eu já fui embora.

Manoel para onde foi dispensa sapatos.

Aves modernas desconhecem gorgeios

Por receio de virarem o prato do dia.

A vida é uma sinuca de bico de pato.

Hoje as laranjas são de azul-marinho

E os cabides sabem dançar um frevo.

Escondi o remédio sob minhas axilas.

Vamos para a lua fazer aquele protesto

Porque nos faltam margaridas puladoras.

Em Cuzco agora estão distribuindo cuscuz.

Só ficaremos pelados se todos vestidos

E com anéis de plástico destas caixinhas.

Tem quem tenha domínio sobre o dominó.

A solidão vem vindo num trem muito lotado

E ninguém lembra de ter comprado bilhete.

Todo motivo agora poderá ser dispensado.

Caiu um cisco bem grande no olho do furação

E até escorreu dele aquela singela lágrima.

Eis os copos no balcão sujos de cerveja...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Serenamente

Onde chego. Onde vou.

O caminho é meu mesmo desconhecendo

Onde eu irei chegar...


A chuva cai. Isso faz parte.

O choro e o riso são dois irmãos

Que brincam em meu rosto...


Onde está o jardim? Aqui ou ali?

Sei que as flores são teimosas

E que nunca param de nascer...


Eu tenho medo. E tenho tanto.

Mas até o medo tem medo

Quando o amor chega sorrindo...


O sonho é tudo. O sonho é nada.

Qualquer ferida acaba

E tudo há de fechar um dia...


O sono chega. O sono chegou.

Só não sei se dormirei

Com tanto barulho em meu peito...


Desculpe aí. Desculpe mesmo.

Prometo serenamente

Tentar não errar de novo...

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Que Eu Não Comi Hoje Deixei Para Comer Ontem

Espadas e escudos vendidos na sucata

Versões em inglês de velhos hits lusitanos

Onde andaremos agora sem nossos pés?

Necrofagia deletada do nosso cardápio

Nada mais que o nada mesmo se apresenta

Posso colecionar imagens de mim mesmo?

Toda flexão verbal é um dilema estonteante

Todo nome proferido é um novo despertar

Onde estava a cárie que salvou o dente?

Minha memória se amasiou com a amnésia

Beber no gargalo pode ser uma maratona

Minha liberdade agora usa de correntes?

Biscoitos sabor bacon são tal uma heresia

O menino na verdade sempre foi um velho

O destino é um novo palavrão no vocabulário?

Travestis lutando na segunda guerra mundial

Jogamos boliches com novas bolas de cristal

O prato preferido da distância é a tortura?

Meu borderline apareceu ontem na televisão

É um novo golpe publicitário ser tão sincero

Posso agora queimar o ultrapassado bigode?

Ganhei uma lanterna de presente no natal

Só rezo de joelhos se for por cima das brasas

Quem garante que esse vinho é mais barato?

Eva e Lilith foram passear pelo shopping

Todo burguês acaba detestando o dinheiro

Qualquer dia vou na Bahia por apenas um dia?

Todo elogio acaba sendo como uma ofensa

Na fila dos míopes acho que fui o primeiro

Por que o açúcar está com preço tão salgado?

Vamos brincar de disparar mísseis atômicos

A indecifrável ladyboy masca apenas pedras

Estará na hora de que a hora será a hora?...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 13 de junho de 2026

Panis Et Panis

Se não tem pão, roam ossos

Se não tem razão, são nossos...


Viver é estar numa arena,

Viver é estar quase morrendo,

Com a alma tão pequena,

Com cada dia escurecendo...


Se não tem pão, façam jejum

Se é sem explicação, seja comum...


Viver é não resolver um problema,

Viver é estar sempre correndo,

Entrar de gaiato no esquema,

É sem preço estar se vendendo...


Se não tem pão, vá no que resta,

Se não é o fim, faça uma festa...


Viver não é escrever um poema,

Viver é não ver o que está vendo,

Viver é tentar comprovar um teorema

Com um cálculo que está batendo...


Se não tem pão, roam ossos,

Se não tem razão, são nossos...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Diálogo de Porra Nenhuma III

- Qui qui qui quá quá quá,

Hoje tem peixe podre pra mode a gente lanchá! -

Gritava Serapião Perna-de-Formiga

Enquanto tirava a mais nova meleca das fuças...

- Quá quá quá qui qui qui,

Misturei um monte de areia no meu açaí! -

Respondeu João Luxo do Lixo

Cheirando um par de meias que achou na rua...

E aí começou a conversa:

- Fala aí, boca de lata! -

Gritou Serapião arrancando um cílio -

Quando que tu vai morrer disgramado?

- Quando o corisco dar um nó! -

Respondeu o outro tranquilamente

Enquanto comia uma farinha com pinga.

- E que mais, seu zóio de corno? 

- Que mais o que seu seca-peste?

- Sei lá mais o que, seu bunda rachada...

- Ah, tá, agora entendi memória de leitão...

É assim mesmo esse mundo:

Um dia rasga a calça, noutro caga nela...

- Acertou no sol da lua!...

- Arrodeado de pudim quase seco...

- Vamo lá na birosca do Brecola?

Pra dar um peido e pedir esmola?...

- Ih, hoje não vai dar...

Tem meia dúzia de putrunco pra morrer...

- Ah, coisa boa! Boa demais!

Melhor que isso só pancada no coco

Com uma sexta-feira bem pesada...

- E tu tem visto o Índio?

- Que Índio?

- Aquele que mora na rua de trás

E que fuma maconha até pelo zóio...

- Nunca mais, desde ontem...

- Pois isso é deveras preocupante...

- Preocupante por que?

- Porque quem não aparece merece

Dois dedos de cana e uma prece...

- Pois que se foda!

- Fale esse não, cara de mamão...

- Pois eu falo e repito, cu de mosquito!

Meu nome é Name, entendeu? Name!

- Quase entendi, quase que não...

- Isso então, seu praga de madrinha...

- E você? Pesadelo de Satanás...

- Pois que tomara que tomara,

Gozaram na tua cara...

- Ontem nasceram e bateram as botas.

- Esticaram o pernil também.

- E não é que é, juro pelo Zé Mané!

- Pois bem, a conversa tá boa, mas vou-me...

- Pois então, seu fulaca de banda, vai que lá...

- Até o próximo milênio vindouro...

- Até dente-de-pedra choca...

E acabou a conversa...


(Extraído do livro "Maluqueci de Vez" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Um Dia A Terra Explode


Qualquer dia desses, qualquer dia desses,

A terra acaba se explodindo por inteira

Enquanto os tiranos comem empadinhas...

O noia sem querer bebeu água e morreu...

Há muita diferença entre toda indiferença

E Pascoal comeu acabou com a lata de feijão

Enquanto tomava sua cerveja pelo nariz...

O elefante está usando seu cabelo asa-delta...

Pois a apresentadora de programa infantil

Teve sua moderna crise pela milésima vez

E se masturbou com os seus dedos dos pés...

Tomarei mais um conhaque logo que dormir...

A maior fama que um desconhecido pode ter

É o mais belo chute no cu e uma porrada

Em que possam voar todos os dentes da boca...

Os gatos entraram em greve e são vegetarianos...

Hoje teremos pro almoço angu com angu

E aquele delicioso molho feito só de angu

Para todos aqueles que odeiam comer angu...

A lei do silêncio começou a gritar de madrugada...

Aquela roupa que eu sonhava em comprar

Toda suja e toda rasgada está em liquidação

Na exposição internacional de sapos empalhados...

Hoje em dia a nudez tem medo de ter uma gripe...

Qualquer dia desses, qualquer dia desses,

A terra acaba se explodindo por inteira

Enquanto os tiranos comem empadinhas...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Um Casal do Fim do Mundo (Miniconto)

I. e I. não se gostavam. Mas não conseguiam se  separar. O motivo? E hoje em dia se precisa de motivo? Estavam juntos e pronto... Ele nem go...