quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Licores Subversivos

Cada pão é um não

Cada vão é um tão...


Eu não sou aparentado

Do cavalheiro ao lado

De rima mais enganosa

Nem da cachaça de rosa

Vendida lá na lagoa

Para se comer com broa...


Cada sim é um fim

Cada assim é um mim...


Eu não sou apimentado

Como esse feijão aguado

De rima mais horrorosa

Que não tem versiprosa

Vendida lá no sertão

Pra se comer com mão...


Cada pum é um boom

Cada zoom é um um...


Eu não sou apavorado

Nem andando de lado

De rima mais ingloriosa

Vereda mais pedregosa

Vendida lá na esquina

Mais do que a cafeína...


Cada grão é um bão

Cada são é um cão...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

No Sertão de Cai-Có

É pulejo, é pulejo, é pulejo

Quem olha tua bunda dá um beijo...


Eu bode cantador de palavra muda

Quem tem fé Deus não ajuda

Ando na feira assim me arrastando

E só com água é que vou temperando...


Siá Cota, siá Cota, siá Cota

Que saudade dessa tua xota...


Olha o Piteleco andando pelo boteco

Estômago vazio é que dá até eco

A margarida anteontem se escondeu

E se você não entendeu muito menos eu...


Peribambo, Peribambo, Peribambo

Toda vez que eu me peido eu sambo...


O xaxadeiro pegou no fuzil primeiro

Pobre comemora o natal em janeiro

Levei no ortopedista a mula manca

Olha que a esposa do funk é a funka...


É fatonice, é fatonice, é fatonice

Do jeito que Zé Mudinho sempre disse...


Já ouvi falar que em Brotas tudo brotas

Tem menino por aí que bateu as botas

Lolo com aquele cabelão parecia Lolita

E colocava em cada pentelho laço de fita...


É pulejo, é pulejo, é pulejo

Não quero mais e só tenho desejo...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

No Piriri, No Pirirá

No piriri, no pirirá

Pobre não toma café nem chá...


Pobre só anda de ré,

Que nem passarim andando à pé,

Sem sapato, mas com chulé!


No piriri, no pirirá

Cabei de comer e já vou cagá...


Vou me cagar até que doa,

Que não tenha mais roupa boa,

Sou um matuto que anda à toa!


No piriri, no pirirá

Essa mulé maluca qué me roubá...


Olha a sopa de pandeiro,

Custa muito e pouco dinheiro,

É o artificial mais que verdadeiro!


No piriri, no pirirá

Vou fazer uma festa só de cambucá!


(Extraído do livro "Maluqueci de Vez" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Cansado de Cansadeira

Cansei de me cansar de estar cansado...


Só acerto se eu erro

Só me calo se berro

Muito linda a Dama de ferro...


Cansei de me cansar de estar cansado...


Só quero se não quero

Só acalmo se desespero

Cada um com seu lero-lero...


Cansei de me cansar de estar cansado...


Só vou se ninguém foi

Só dou tchau se dão oi

Nem é a vaca e nem é o boi...


Cansei de me cansar de estar cansado...


Só rastejo se voando

Só acerto se errando

O meu ódio chega amando...


Cansei de me cansar de estar cansado...


Só peço se estou fodido

Só quero se for imerecido

Morrer ou não ter nascido...


Cansei de me cansar de estar cansado...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Carliniana CXXXII ( Mas Eu Estava Errado )

Mas eu estava errado...

De onde vem o vento

Como um cão sarnento

Como um lobo louco

Que teve tão pouco...


Mas eu estava errado...

Em contar as estrelas

Em cismar de vê-las

Como um imbecil

Que assim sorriu...


Mas eu estava errado...

Em ser seu amante

Em estar delirante

Como se amor valesse

E assim não sofresse...


Mas eu estava errado...

Em continuar mudo

Em acreditar em tudo

Tudo é apenas engano

Para quem é humano...


Mas eu estava errado...

Em temer a morte

Em contar com a sorte

Como quem joga

E por fim se logra...


Mas eu estava errado...

Redondamente enganado...

domingo, 23 de agosto de 2026

Aquela Franja

Não precisa fazer mais o que quero

Já provei framboesa do pé e tem gosto ruim

Toda novidade para mim é apenas desagrado

Se ofendi alguém o problema nunca foi meu


Seria legal um tango tocando bem alto

Acordando o resto da putada que faço parte

Para previnir que a morte faz hora extra

Mas nunca deixa seus rastros na areia da praia


Sou um velho como qualquer um destes

Chorando pelas injustiças que nunca acabarão

Desde que o primeiro sangue correu nas veias

Deus e o Diabo caem na porrada e aplaudimos


O jardim sabe cobrar aquele preço bem alto

Pisar sobre as flores é uma tarefa mais banal

Uma sacanagem é apenas mais uma sacanagem

E o perdão só existe para aquele que pecou


Os abutres são os papagaios dos new pirates

Enquantos urubus são estes bichos de gaiola

E as aranhas não param de fazer suas teias

Um segundo de desespero nos é o suficiente


A minha calma é a irmã da minha revolta

O tempo em que eu era alguma coisa passou

Minha viagem não acabou em lugar nenhum

E aquela franja que você tinha não existe mais...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 22 de agosto de 2026

Carliniana CXXXI ( Como Se Fosse Poesia )

Como se fosse poesia...

Detalhes de um mundo banal assim

Lobos almoçando e jantando lobos

Num ritual disfarçado de normalidade

E todas fotografias revelam o oposto...


Como se fosse poesia...

E bailarinos enlouquecidos berram

Para que a música volte ao normal

Enquanto toda a fatalidade funciona

Como um disco quebrado na vitrola...


Como se fosse poesia...

Quem é famoso vai tremendo de medo

Porque o esquecimento bebe veneno

Para provar a cruel e real imortalidade

De passos que nunca mais serão dados...


Como se fosse poesia...

Eis o martírio dos que são mais tolos

Por mais um punhado de moedas velhas

Provido de uma morbidez saudável

Composta de palavras equivocadas...


Como se fosse poesia...

O engano mais bem planejado que há

Porque só há verdade no que está solto

As nuvens continuam mesmo desabando

Enquanto a fumaça morre por lá mesmo...


Como se fosse poesia...

Façamos um brinde com copos de areia

Lembrando de um tempo sem ter tempo

Com coisas mais estranhas e mais comuns

Onde a inocência é que dava as cartas...


Como se fosse poesia...

Playlist de todos os infalíveis que falharam

Estes célebres desconhecidos iguais à mim

Todos nós pensávamos que seria tão fácil

Como se tudo o que existe fosse poesia...

Licores Subversivos

Cada pão é um não Cada vão é um tão... Eu não sou aparentado Do cavalheiro ao lado De rima mais enganosa Nem da cachaça de rosa Vendida lá n...