domingo, 6 de setembro de 2026

Absorto Em Mim

Não sei mais o que faço

(Se é que faço...)...

A chuva cai a cem por hora

Não sei se fico ou vou embora

Qualquer lugar será um lugar

Colocar os pés no chão e descansar...


Não sei mais o que bebo

(Se é que bebo...)...

Os bebâdos solitários em bando

Sem destino e sem um até quando

Como num sucídio quase coletivo

Para viver basta não estar mais vivo...


Não sei mais o que fumo

(Se é que fumo...)...

A minha expectativa é quase zero

Mas mesmo assim eu então espero

Brote ainda neste rosto talvez o riso

Nada mais que isso é o que eu preciso...


Não sei mais o que sinto

(Se é que sinto...)...

É algo assim como totalmente diferente

Que me faz sentir como se não fosse gente

O que seria no meio dessa tal multidão?

O que sente agora o que chamo coração?

Sou uma flor morta de um largado jardim

E eu só posso que ficar absorto em mim...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 5 de setembro de 2026

Síndrome de Judas

Nem sabemos se sabemos

Ou se temos...


Eis o mágico de araque

Num belo copo de conhaque

O conhaque que sobe à cabeça

E por incrível que pareça

Assina a nossa sentença

Uma sentença mais rude

Sem dinheiro e sem saúde...


Nem sabemos se sabemos

Ou se vemos...


Eis o soldado tão sozinho

Em qualquer copo de vinho

O vinho que nos faz vomitar

Enquanto a cabeça está a girar

Eu não tenho boca pra falar

Uma sentença estranha

Sem destino e sem manha...


Nem sabemos se sabemos

Ou se cremos...


Eis a vítima da trapaça

Numa dose qualquer de cachaça

A cachaça foi jogada pro santo

Foi jogada ali em qualquer canto

Foi motivo de riso idem de pranto

Nossas reclamações mais mudas

Na hora da ceia fomos só Judas...


Nem sabemos se sabemos

Ou se temos...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Sobra

 

Sobrou um resto de comida no prato

Sobrou um resto de vinho no copo

Sobrou um resto de poesia no coração...


E é o que temos para hoje

(Célebres desconhecidos andarilhos)

Até que o sol se ponha de uma vez...


Sobrou uma roupa pendurada no varal

Sobrou uma pergunta na sabatina

Sobrou um resto do sonho que destruíram...


E é tudo aquilo que me sobrou

(Se é que me sobrou alguma coisa)

Até que não nos sobre mais coisa alguma...


Sobrou um resto de comida no prato

Sobrou um resto de cana no copo

Sobrou um resto de vida guardado...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

E Quem Sabe?

E quem sabe (mesmo não sabendo) o que o destino nos aprontará amanhã de tarde madrugadamente em nuvens desenhadas num papel na tela do meu velho-novo celular?

Ah! Minha voz se calou em instante que durou mais de um século, ainda que meu tamanho caiba no oceano por inteiro ou na luz das estrelas. Eu me lembro bem que chorei por ver o outro lado do Atlântico...

E quem inventará (mesmo sem imaginação alguma) uma nova cor que iguale aos homens para que o sossego venha mesmo quando a morte se recuse à tirar algumas férias?

Sim! Escutem quem vem de longe, meu bloco de loucos que não se cansam nunca e brincam mais do que um só carnaval. A minha cara pintada ainda anda por todos os ares mostrando que até os mortos não morreram...

E qual droga poderá me vencer se a minha esperança invade os meus pulmões e a fantasia domina os meus neurônios mais do que qualquer uma que saiu da mão do vilão?

Oh! Talvez reste algum trocado neste pobre e largado bolso onde algumas coisas bem melhores andaram um dia em tempos em que minhas pernas não fraquejaram tanto como fraquejam agora e eu ainda espero por minhas asas...

E qual amor ainda me olha com bons olhos enquanto os meus já se fecharam para mais um sono medíocre daqueles que acorda com qualquer barulho possível? Quem sabe?...

Fumaça Sem Fogo

As folhas secas não acendem,

Não adianta fazer fogueirinha,

Nem aquelas do caminho que papai fazia...


Não há fogo para essa fumaça,

O coração se apagou de vez,

A fumaça é do meu pensamento...


As noites viraram certas manhãs,

O sol não precisa de mais nada,

Temos as cores mais que reais deste pintor...


Talvez o mais simples dos cigarros,

Nas mãos deste mais pobre louco,

Que pensa ainda sobre um vintage amor...


Os carros passam tão calados,

A maldade vai engolindo o mundo,

Não temos mais resposta para tais perguntas...


Quem pode decretar alguma sentença,

Ou ainda nos trazer algum vão consolo,

Se o único barulho que tenho é do meu choro?...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

O Golem de Todos Nós

 

Nunca mais pensaremos em sérias besteiras,

Besteiras essas compostas de tristes romances,

Tristes como velhos e abandonados jardins,

Jardins estes onde repousam os nossos mortos,

Mortos que se foram e deixaram saudades,

Saudades estas que nos deixam quase loucos,

Loucos como nunca antes podemos assim ser,

Já que o nosso ser perdeu suas próprias asas,

Próprias maneiras e próprias ideias sem gaiolas,

Gaiolas que não possuem portas mas não saímos,

Não há mais saída nem por um lado nem outro,

Um outro dia quem sabe eu tento novamente,

O novo que há ainda um pedaço de mim espera,

Esperança essa que me faz sobreviver e fere,

Uma ferida tão grande que não tem nem tamanho,

O tamanho das coisas é o mais relativo possível,

Essa possibilidade que nos faz tremer de medo,

Esse medo que sabe correr só pela noite escura,

Mas que por mais escura que seja morre no dia,

Esse dia que não conhecemos se será tudo ou nada,

Mesmo que nos esforcemos em pensar em tal,

Nunca mais pensaremos em sérias besteiras...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

SubVida (Miniconto)

Quem disse que ela vive ou sobrevive? Tudo que fez pode acabar de uma hora para outra... Casa tosca, vida tosca, puta barata (o velho canalha do ferro-velho que o diga..), bebida barata, maconha fumada na frente do filho... Já o futuro... Quem saberá? Porrada do cafetão que já comeu a mãe dela! Pra que um se ela pode três? Olho torto, peitos desiguais, tatuagens ridículas, sempre assim. Minimalismo da alma, esporro na escola... O amanhã pertence ao Cão. O prazo de validade não tem mais validade... Quem disse que ela vive ou sobrevive? Só subvive...

Absorto Em Mim

Não sei mais o que faço (Se é que faço...)... A chuva cai a cem por hora Não sei se fico ou vou embora Qualquer lugar será um lugar Colocar ...