sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Sobra

 

Sobrou um resto de comida no prato

Sobrou um resto de vinho no copo

Sobrou um resto de poesia no coração...


E é o que temos para hoje

(Célebres desconhecidos andarilhos)

Até que o sol se ponha de uma vez...


Sobrou uma roupa pendurada no varal

Sobrou uma pergunta na sabatina

Sobrou um resto do sonho que destruíram...


E é tudo aquilo que me sobrou

(Se é que me sobrou alguma coisa)

Até que não nos sobre mais coisa alguma...


Sobrou um resto de comida no prato

Sobrou um resto de cana no copo

Sobrou um resto de vida guardado...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

E Quem Sabe?

E quem sabe (mesmo não sabendo) o que o destino nos aprontará amanhã de tarde madrugadamente em nuvens desenhadas num papel na tela do meu velho-novo celular?

Ah! Minha voz se calou em instante que durou mais de um século, ainda que meu tamanho caiba no oceano por inteiro ou na luz das estrelas. Eu me lembro bem que chorei por ver o outro lado do Atlântico...

E quem inventará (mesmo sem imaginação alguma) uma nova cor que iguale aos homens para que o sossego venha mesmo quando a morte se recuse à tirar algumas férias?

Sim! Escutem quem vem de longe, meu bloco de loucos que não se cansam nunca e brincam mais do que um só carnaval. A minha cara pintada ainda anda por todos os ares mostrando que até os mortos não morreram...

E qual droga poderá me vencer se a minha esperança invade os meus pulmões e a fantasia domina os meus neurônios mais do que qualquer uma que saiu da mão do vilão?

Oh! Talvez reste algum trocado neste pobre e largado bolso onde algumas coisas bem melhores andaram um dia em tempos em que minhas pernas não fraquejaram tanto como fraquejam agora e eu ainda espero por minhas asas...

E qual amor ainda me olha com bons olhos enquanto os meus já se fecharam para mais um sono medíocre daqueles que acorda com qualquer barulho possível? Quem sabe?...

Fumaça Sem Fogo

As folhas secas não acendem,

Não adianta fazer fogueirinha,

Nem aquelas do caminho que papai fazia...


Não há fogo para essa fumaça,

O coração se apagou de vez,

A fumaça é do meu pensamento...


As noites viraram certas manhãs,

O sol não precisa de mais nada,

Temos as cores mais que reais deste pintor...


Talvez o mais simples dos cigarros,

Nas mãos deste mais pobre louco,

Que pensa ainda sobre um vintage amor...


Os carros passam tão calados,

A maldade vai engolindo o mundo,

Não temos mais resposta para tais perguntas...


Quem pode decretar alguma sentença,

Ou ainda nos trazer algum vão consolo,

Se o único barulho que tenho é do meu choro?...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

O Golem de Todos Nós

 

Nunca mais pensaremos em sérias besteiras,

Besteiras essas compostas de tristes romances,

Tristes como velhos e abandonados jardins,

Jardins estes onde repousam os nossos mortos,

Mortos que se foram e deixaram saudades,

Saudades estas que nos deixam quase loucos,

Loucos como nunca antes podemos assim ser,

Já que o nosso ser perdeu suas próprias asas,

Próprias maneiras e próprias ideias sem gaiolas,

Gaiolas que não possuem portas mas não saímos,

Não há mais saída nem por um lado nem outro,

Um outro dia quem sabe eu tento novamente,

O novo que há ainda um pedaço de mim espera,

Esperança essa que me faz sobreviver e fere,

Uma ferida tão grande que não tem nem tamanho,

O tamanho das coisas é o mais relativo possível,

Essa possibilidade que nos faz tremer de medo,

Esse medo que sabe correr só pela noite escura,

Mas que por mais escura que seja morre no dia,

Esse dia que não conhecemos se será tudo ou nada,

Mesmo que nos esforcemos em pensar em tal,

Nunca mais pensaremos em sérias besteiras...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

SubVida (Miniconto)

Quem disse que ela vive ou sobrevive? Tudo que fez pode acabar de uma hora para outra... Casa tosca, vida tosca, puta barata (o velho canalha do ferro-velho que o diga..), bebida barata, maconha fumada na frente do filho... Já o futuro... Quem saberá? Porrada do cafetão que já comeu a mãe dela! Pra que um se ela pode três? Olho torto, peitos desiguais, tatuagens ridículas, sempre assim. Minimalismo da alma, esporro na escola... O amanhã pertence ao Cão. O prazo de validade não tem mais validade... Quem disse que ela vive ou sobrevive? Só subvive...

Tosco

Mendigos disputando um resto de comida...

Está boa... Não está... É o que se tem pra agora...

Camas feitas de papelão... De jornal...

Florestas nas calçadas... Cidade feita de ruínas...

Histórias mal-contadas... Não há mais...

Tudo se repete... Destino mau... Cachaça boa...

Outdoors comendo cérebros... Sempre hoje...

Zumbis desfilando na avenida... Sob cinzas...

Bloco de condenados sem ter nenhuma culpa...

O cara bebeu lama... Mata mais a tristeza...

Vamos todos orar porque sempre somos ateus...

Meu dinheiro... Não tenho trocado... Sua puta...

A raiva anda comigo... Fomos ao shopping...

A criatura mais linda... A pior... Nem se fala...

Ainda estou aqui... Não sei quando e nem aonde...

A fada dos dentes... Nada nas cáries... Sono...

Enterros latinos... Sexo americano... Dos bons...

Não se fala mais nisso agora ou talvez amanhã...

Meu vício amofina... Quase um estalo... Entre...

Algum dia será qualquer dia desses... Ou não...

Frutas espalhadas no CEASA... Quase comeremos...

I love Bangu... Suco de tomates idem... Mistério...

A usina explodiu... E os girassóis também até...

Ainda que eu falasse na língua das moscas...

Tudo tem utilidade... Até a inutilidade tem também...

Amargos bárbaros... Laranja sem China... Adeus...

Feitiçaria eletrônica... Suspeitos intestinos... 

Quase que eu morro amanhã e eu mesmo me sepulto...

Chope para as crianças... Maravilha sem voz...

Micareta de barro... Xaxado no samba... Naja pet...

Quem comeu morreu... Não tem importância...

Meus pés de sabão... Novidade quase nova...

Penicos na promoção... Cague um e coma três...

Ela faz um estrogonofe de pedra delicioso...

E assa maritacas rosas para o café da manhã...

Quem me conhece não me compra mesmo...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Carnaval de Ventos

Agora sim! Veio o não...

Quem me dera uma falha mecânica

Nesse meu coração...


E o vento rasgando tudo

Não deixando uma roupa no varal

Gritando e gritando mudo

Invadindo esse meu e nosso quintal...


Agora sim! Veio o não...

São séculos de fiel espera

Por essa minha paixão...


E o vento dançando balé

Trazendo o bem e trazendo o mal

Sem dizer ao menos que é

Dono de todo e qualquer temporal...


Agora sim! Veio o não...

Eu quase me peguei chorando

Era da mais pura emoção...


E o vento tremendo de frio

Mesmo assim dando um salto mortal

Mesmo que seja por um fio

Venha logo esse meu e nosso carnaval!


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

 

A Sobra

  Sobrou um resto de comida no prato Sobrou um resto de vinho no copo Sobrou um resto de poesia no coração... E é o que temos para hoje (Cél...