segunda-feira, 29 de junho de 2026

Nem Tudo

Nem tudo que dá certo está certo,

Nem tudo que dá errado está errado,

O peito poderá estar como um deserto

Enquanto a felicidade está ao lado.


Nem tudo o que é bonito lhe faz bem,

Nem todo remédio acaba nos curando,

A alegria não é mais uma nota de cem,

Mas pode ser mais um criança brincando.


Nem toda dor pode ser uma grande lição,

Nem todo o desvario pode ser insanidade,

Encontraremos solidão em meio à multidão,

Isto pode acontecer no centro da cidade.


Nem toda bondade poderá nos salvar,

Nem toda maldade acaba indo pela culatra,

Um grande romance pode ser sem se amar

E a maior loucura não precisa de psiquiatra.


Nem todo papel com o tempo amarela,

Nem toda riqueza traz junto só alegria,

Aquele sol que vem invadindo a janela

Não é o mesmo que vem trazendo poesia.


Nem sempre fazendo errado que se erra,

Nem sempre o que nos protege é escudo,

Às vezes o meu silêncio é aquilo que berra,

Nem tudo, nem tudo, nem tudo...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

ImaginaCão


Perfeito cidadão pisando em ovos

Querendo ser burguês que nunca foi 

Querendo enganar e sendo enganado

Achando que se deu bem e se deu mal

Sendo solidário apenas consigo mesmo...


Admirável cidadão pisando em brasas

Amando a figura que vê no espelho

Amando o amor que o tesão lhe trouxe

Entendendo tudo como um idiota

Seguindo ordens como um marionete...


Formidável cidadão dançando em vidro

Desejando coisas que nunca irá ter

Desejando viver eternamente e vai morrer

Gastando seu tempo em construir castelos

Enquantos os ventos acabam chegando...


Maravilhoso cidadão andando sobre as águas

Cumprindo o horário como manda o patrão

Cumprindo a sentença de não fazer nada

Como todo o ser humano que inútil que é

E apenas imagina que está enfim existindo...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

domingo, 28 de junho de 2026

Poema Estilhaçado

Pois esse poema está estilhaçado,

Acabou escapando da minha mão,

Foi num momento mal calculado,

Voou sem ter asas, caiu no chão...


Quase não vi a sua trajetória,

Haviam lágrimas no meu olhar,

É sempre assim, a mesma história,

Até o amor também faz chorar...


Não se preocupem, não há mais jeito,

Eu guardo os cacos, não jogo fora,

Nesse depósito que chamo de peito,

Tudo vai comigo quando for embora...


Pois esse poema está todo partido,

Está quebrado, para todo o sempre,

Mas quem sabe, seja enfim parido,

Em outra mente, em um outro ventre...

Nunquice

Brigo com a minha própria sombra. Quem irá separar?

Em dias frios e malvados como estes, estou só, como quem sobe no alto do arranha-céu para mergulhar de lá. Serei apenas mais um fato corriqueiro numa dessas redes sociais...

Reflito como foram meus dias. Como foram mesmo?

Travei muitas batalhas com os espelhos, perdi todas elas, o velho combatente riu da minha cara. As manchas do tempo eram assim e continuarão a ser...

Cada dia é um dia nenhum. Por que todos eles acabam?

Num livro achado no lixo, as histórias mais tristes, absurdas, descoloridas. Uma mistura entre o bem e o mal acaba sendo a mais indigesta que podemos engolir...

Daqui até lá é mais um passo. A realidade é a mais irreal?

Tudo aquilo que fizemos, fizemos, sejam erros ou sejam acertos. Cada rosto é um lago de águas tão turvas, mas a pele foi feita para esconder tal acontecimento...

Cada moeda é mais uma moeda. Para onde irão todas elas?

Nossas dificuldades são nossas dificuldades, sempre foi e será assim. Em jardins abandonados crescem algumas flores, mas somente algumas...

Nem todas as estrelas acabam brilhando. Isso se chama destino?

Façamos poemas estilhaçados, serão como cacos de vidro. O fogo sabe queimar com crueldade, mas também possui brilho pelas noites que existe...

Era mais uma das muitas brincadeiras. Posso isso de chamar caleidoscópio?

Não são apenas os olhos que são míopes, minha alma é até mais. Ela tateia por um mundo de grandes perigos, o maior deles sou eu mesmo...

Não se sabe qual a próxima parada. Isso por acaso é uma questão de importância?

Nossos mortos foram passear, não voltaram mais. Cada castelo de cartas vai cair, isso também é uma certeza...

Brigo com a minha própria sombra. Quem irá separar?...

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Ao Rei do Nada

Pois é, ele é o rei do nada, se chama homem...

Dizem que veio do macaco, 

Mas não quer só banana;

Dizem que habitou as cavernas,

Mas agora quer uma cobertura;

Dizem que é o herói da trama,

Mas não passa de um vilão...


Pois é, ele é o rei do nada, se chama homem...

Dizem que tem uma alma,

Mas a mata por qualquer moeda;

Dizem que é muito inteligente,

Mas foi ele quem inventou a guerra;

Dizem que ele sabe amar,

Mas faz do desamor sua companhia...


Pois é, ele é o rei do nada, se chama homem...

Dizem que ele é totalmente livre,

Mas é escravo do seu próprio sistema;

Dizem que é sabio em suas decisões,

Mas faz da tolice sua vestimenta;

Dizem que é belo na aparência,

Mas traz as rugas da tristeza...


Pois é, ele é o rei do nada, se chama homem...

Dizem que é muito corajoso,

Mas corre no primeiro tiro;

Dizem que tem plenas convicções,

Mas nem sabe qual o seu lado;

Dizem que possui respeito,

Acaba faltando todo e qualquer...


Pois é, ele é o rei do nada, se chama homem...

Dizem que é muito sincero,

Mas seus segredos estão atrás das portas;

Dizem que é auto-suficiente,

Mas está sempre com fome;

Dizem que conhece a moral,

Mas tem cio o ano inteiro...


Pois é, ele é o rei do nada, se chama homem...

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Teoria da Teoria


 Um copo cheio

Quase vazio,

Sou brasileiro

E americano,

Sou carioca

E quase mineiro.

Dou voltas sem sair do lugar,

Não preciso de asas e sei voar.


Eu amo tudo,

Não amo nada,

Acompanho a solidão

Por qualquer caminho.

Não tenho regras,

Essa é a regra.

Faço poemas em papel de pão.

Cadê o pão?

Já foi embora pela manhã.


Me irrito calmo,

Não sei mais nada,

Livre com minhas correntes.

Aqui tá frio,

No meio do fogo.

Ai quem me dera

Só mais uma quimera.

Vamos caprichar na mitologia.


Sem reticências.

Só interrogações 

E certamente pontos finais.

Tudo é procura,

Mesmo quando não é.

Ontem foi hoje,

Disso eu entendo feito louco.

Fico em silêncio,

Meus gritos acabaram de dormir.


Falo o que quero,

Foda-se a lógica.

Qualquer neologismo

É um filho que acaba de nascer,

Fora da maternidade.

Não escolho a bandeira

Que carrego

Mesmo em tempos idos.


Já chega disso,

Quero um cigarro

E se ele me matar será favor.

Sou um rio eletrônico

De cor mais indefinível.

Tudo é um bom dia.

Sou campeão de beijos

Mesmo faltando a boca

Para poder beijar.


Guarde pra você,

Os seus fracassos, suas vitórias,

Na gaveta da velha cômoda.

Chame logo esse Uber,

Preciso ir não sei aonde

Fazer não sei o quê

Só não sei quando.

Tudo é uma velha teoria.

Ruas de Miguel Couto (Miniconto)

Ruas de Miguel, de tempos idos, mortos ou matados. Quatro ou mais décadas, coisa que nem todos viveram, mastigaram, chicletes intermináveis. Cuja única perspectiva era o não existir, existindo só em fantasias. Passos sim, tecnologia não. Risos sem motivo alguma, mas risos. Quem te levou embora? Foi o vento ou foi o acaso mais que planejado? Quem te envelheceu? O tempo ou a maldade dos bons? Tantas covas ou agora nenhuma, nomes esquecidos ou lembrados de vez em quando. Adeus, até logo, até já. Aqui estou, continuo vivo... 

domingo, 21 de junho de 2026

O Mais Engraçado

O mais engraçado é que não

haja mais graça nenhuma

Nossos risos são choros disfarçados

enquanto somos registrados...


O homem é o mosquito do homem

Incomoda ou adoece

Mas também pode ser esmagado...


O mais engraçado é que todo dia

acontece mais um luto

Alguém nasce para o sofrimento

ou simplesmente morrerá...


O homem é o lobo do homem

Presa ou caçador

Mas sempre terá um final...


O mais engraçado é que a piada

pode dar outro efeito

Enquanto o palhaço ficou puto

e xingou toda a plateia...


O homem é o rato do homem

Dádiva ou armadilha

Tudo pode então acontecer...


O mais engraçado é que não

existe mais clown algum

Nossos risos são agora choro...

Palmas! Por, favor, palmas!

sábado, 20 de junho de 2026

Um Casal do Fim do Mundo (Miniconto)

I. e I. não se gostavam. Mas não conseguiam se  separar. O motivo? E hoje em dia se precisa de motivo? Estavam juntos e pronto... Ele nem gostava só de mulheres, mas acabaram ficando juntos. Vivem de quê? Ah, isso é meio complicado... Vivem do que conseguem: uma vez dado, outra vez pedido, outra vez pelo pouco que trabalham. Moram aonde? Uma vez aqui, outra vez ali, alugam um local bem pobrinho e ficam lá enquanto podem pagar ou enquanto não podem, até serem expulsos e parar na rede social onde é exposta sua sujeira. Limpos? Nem pensar! O tempo que gastariam com a higiene do lar é aproveitado para suas bebidas e suas drogas. Bendita seja a internet que ela consegue uns trocados com seus nudes! Agora está grávida, é a segunda vez. Na primeira perdeu o que era não dele, mas do gay que já faleceu que pagava alguma bebida. Talvez esse venha, talvez seja dele e seja mais um vivendo de forma irregular, mais um infeliz nesta grande lista... 

Os Copos

A vida é uma charge que pinga sangue.

Onde estiverem dois ou três em meu nome

Pode acreditar que eu já fui embora.

Manoel para onde foi dispensa sapatos.

Aves modernas desconhecem gorgeios

Por receio de virarem o prato do dia.

A vida é uma sinuca de bico de pato.

Hoje as laranjas são de azul-marinho

E os cabides sabem dançar um frevo.

Escondi o remédio sob minhas axilas.

Vamos para a lua fazer aquele protesto

Porque nos faltam margaridas puladoras.

Em Cuzco agora estão distribuindo cuscuz.

Só ficaremos pelados se todos vestidos

E com anéis de plástico destas caixinhas.

Tem quem tenha domínio sobre o dominó.

A solidão vem vindo num trem muito lotado

E ninguém lembra de ter comprado bilhete.

Todo motivo agora poderá ser dispensado.

Caiu um cisco bem grande no olho do furação

E até escorreu dele aquela singela lágrima.

Eis os copos no balcão sujos de cerveja...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Serenamente

Onde chego. Onde vou.

O caminho é meu mesmo desconhecendo

Onde eu irei chegar...


A chuva cai. Isso faz parte.

O choro e o riso são dois irmãos

Que brincam em meu rosto...


Onde está o jardim? Aqui ou ali?

Sei que as flores são teimosas

E que nunca param de nascer...


Eu tenho medo. E tenho tanto.

Mas até o medo tem medo

Quando o amor chega sorrindo...


O sonho é tudo. O sonho é nada.

Qualquer ferida acaba

E tudo há de fechar um dia...


O sono chega. O sono chegou.

Só não sei se dormirei

Com tanto barulho em meu peito...


Desculpe aí. Desculpe mesmo.

Prometo serenamente

Tentar não errar de novo...

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Que Eu Não Comi Hoje Deixei Para Comer Ontem

Espadas e escudos vendidos na sucata

Versões em inglês de velhos hits lusitanos

Onde andaremos agora sem nossos pés?

Necrofagia deletada do nosso cardápio

Nada mais que o nada mesmo se apresenta

Posso colecionar imagens de mim mesmo?

Toda flexão verbal é um dilema estonteante

Todo nome proferido é um novo despertar

Onde estava a cárie que salvou o dente?

Minha memória se amasiou com a amnésia

Beber no gargalo pode ser uma maratona

Minha liberdade agora usa de correntes?

Biscoitos sabor bacon são tal uma heresia

O menino na verdade sempre foi um velho

O destino é um novo palavrão no vocabulário?

Travestis lutando na segunda guerra mundial

Jogamos boliches com novas bolas de cristal

O prato preferido da distância é a tortura?

Meu borderline apareceu ontem na televisão

É um novo golpe publicitário ser tão sincero

Posso agora queimar o ultrapassado bigode?

Ganhei uma lanterna de presente no natal

Só rezo de joelhos se for por cima das brasas

Quem garante que esse vinho é mais barato?

Eva e Lilith foram passear pelo shopping

Todo burguês acaba detestando o dinheiro

Qualquer dia vou na Bahia por apenas um dia?

Todo elogio acaba sendo como uma ofensa

Na fila dos míopes acho que fui o primeiro

Por que o açúcar está com preço tão salgado?

Vamos brincar de disparar mísseis atômicos

A indecifrável ladyboy masca apenas pedras

Estará na hora de que a hora será a hora?...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 13 de junho de 2026

Panis Et Panis

Se não tem pão, roam ossos

Se não tem razão, são nossos...


Viver é estar numa arena,

Viver é estar quase morrendo,

Com a alma tão pequena,

Com cada dia escurecendo...


Se não tem pão, façam jejum

Se é sem explicação, seja comum...


Viver é não resolver um problema,

Viver é estar sempre correndo,

Entrar de gaiato no esquema,

É sem preço estar se vendendo...


Se não tem pão, vá no que resta,

Se não é o fim, faça uma festa...


Viver não é escrever um poema,

Viver é não ver o que está vendo,

Viver é tentar comprovar um teorema

Com um cálculo que está batendo...


Se não tem pão, roam ossos,

Se não tem razão, são nossos...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Diálogo de Porra Nenhuma III

- Qui qui qui quá quá quá,

Hoje tem peixe podre pra mode a gente lanchá! -

Gritava Serapião Perna-de-Formiga

Enquanto tirava a mais nova meleca das fuças...

- Quá quá quá qui qui qui,

Misturei um monte de areia no meu açaí! -

Respondeu João Luxo do Lixo

Cheirando um par de meias que achou na rua...

E aí começou a conversa:

- Fala aí, boca de lata! -

Gritou Serapião arrancando um cílio -

Quando que tu vai morrer disgramado?

- Quando o corisco dar um nó! -

Respondeu o outro tranquilamente

Enquanto comia uma farinha com pinga.

- E que mais, seu zóio de corno? 

- Que mais o que seu seca-peste?

- Sei lá mais o que, seu bunda rachada...

- Ah, tá, agora entendi memória de leitão...

É assim mesmo esse mundo:

Um dia rasga a calça, noutro caga nela...

- Acertou no sol da lua!...

- Arrodeado de pudim quase seco...

- Vamo lá na birosca do Brecola?

Pra dar um peido e pedir esmola?...

- Ih, hoje não vai dar...

Tem meia dúzia de putrunco pra morrer...

- Ah, coisa boa! Boa demais!

Melhor que isso só pancada no coco

Com uma sexta-feira bem pesada...

- E tu tem visto o Índio?

- Que Índio?

- Aquele que mora na rua de trás

E que fuma maconha até pelo zóio...

- Nunca mais, desde ontem...

- Pois isso é deveras preocupante...

- Preocupante por que?

- Porque quem não aparece merece

Dois dedos de cana e uma prece...

- Pois que se foda!

- Fale esse não, cara de mamão...

- Pois eu falo e repito, cu de mosquito!

Meu nome é Name, entendeu? Name!

- Quase entendi, quase que não...

- Isso então, seu praga de madrinha...

- E você? Pesadelo de Satanás...

- Pois que tomara que tomara,

Gozaram na tua cara...

- Ontem nasceram e bateram as botas.

- Esticaram o pernil também.

- E não é que é, juro pelo Zé Mané!

- Pois bem, a conversa tá boa, mas vou-me...

- Pois então, seu fulaca de banda, vai que lá...

- Até o próximo milênio vindouro...

- Até dente-de-pedra choca...

E acabou a conversa...


(Extraído do livro "Maluqueci de Vez" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Um Dia A Terra Explode


Qualquer dia desses, qualquer dia desses,

A terra acaba se explodindo por inteira

Enquanto os tiranos comem empadinhas...

O noia sem querer bebeu água e morreu...

Há muita diferença entre toda indiferença

E Pascoal comeu acabou com a lata de feijão

Enquanto tomava sua cerveja pelo nariz...

O elefante está usando seu cabelo asa-delta...

Pois a apresentadora de programa infantil

Teve sua moderna crise pela milésima vez

E se masturbou com os seus dedos dos pés...

Tomarei mais um conhaque logo que dormir...

A maior fama que um desconhecido pode ter

É o mais belo chute no cu e uma porrada

Em que possam voar todos os dentes da boca...

Os gatos entraram em greve e são vegetarianos...

Hoje teremos pro almoço angu com angu

E aquele delicioso molho feito só de angu

Para todos aqueles que odeiam comer angu...

A lei do silêncio começou a gritar de madrugada...

Aquela roupa que eu sonhava em comprar

Toda suja e toda rasgada está em liquidação

Na exposição internacional de sapos empalhados...

Hoje em dia a nudez tem medo de ter uma gripe...

Qualquer dia desses, qualquer dia desses,

A terra acaba se explodindo por inteira

Enquanto os tiranos comem empadinhas...


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 9 de junho de 2026

Marcha Forçada

Grande quantidade de sustos

Aquilo que eu nunca quis

Poderia ter dormido mais um pouco

Mas os sons do dia são implacáveis...


Enigmas sem explicações aparentes

Minhas mãos sempre tremem

A puta é a mais inocente de todas

É um cigarro atrás de outro cigarro

Enquanto o meu café não chega...


O açúcar deixa um amargo na boca

Enquanto nossa lógica claudica

E o tarot diz apenas coisa com coisa

Até que a água chegue lá nas nuvens...


O rótulo não indicava se era veneno

E a maré parecia estar calma

A onça aguardava paciente entre folhas

E os elefantes passeavam suavemente

Enquanto chupavam seus dropes de anis...


Minha musa platinou os seus cabelos

Enquanto a distância me dá tapas

O mar conhece mais esse meu rosto

E minhas asas estão tirando férias...


Não mais e nem menos que menos

Toda hora é a hora de jantar

Mesmo quando os mortos não jantam

E debaixo deste sol tão mais infame

Eu só possa fazer essa marcha forçada...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sapatos Quase Novos

São caminhos, senhor, são caminhos,

Nenhuma previsão acaba se realizando,

Aonde estavam as rosas, agora os espinhos,

Quem deveria rir, agora está chorando...


É o medo, é só este meu chamado medo,

Que faz existir sombras aonde não existem

E mesmo que a morte sempre venha cedo,

Aqueles meus sonhos, teimosos, persistem...


É só isso, é apenas aquele pequeno rio,

Que continua andando toda noite e todo dia,

Não se importando se está calor ou só frio,

Se estou sozinho ou se tenho uma companhia...


Eu nada invento, apenas ela e eu desprevinido,

Ando como sobre o vidro, ou pisando em ovos,

Tanto faz que o desenho esteja ou não colorido,

Os sapatos velhos ou então quase novos...

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Ofegantes

Quem fará o faraó na hora do chá das seis? Pois ela nunca mais comeu papel carbono em seus desvarios de virgem arrombada... Ah! Nunca mais fale isso que não seja em praça pública. O cigano queria me vender anéis de lata, mas faltou pix para que eu estudasse astronomia culinária...

Tem lata de manteiga aí? Ou então um latão de óleo? Estão mais difícieis que reservas para o Municipal em dias de chuvas secas. A cabeça do cangaceiro dançou xaxado sem os pés... Sanduíches de pistache são recomendados para os nervos. E as bolas para esse novo futebol serão de pedra...

Orgulho-me de minhas fraquezas. Assim como maritacas em silêncio sepucral acabam rindo de postulados filosóficos... Não adianta colocar camisas verdes brilhosas e nem sapatos de ladrilho de cores quase indeterminadas. Seu plano falhou, seu canalha! A minha antiga inocência é bem pior do que um soco na cara...

Nós merecemos muitas porradas na cara? Não sei, só que alguns memes perderam dentes em carreiras imprevísiveis... Esqueci as chaves nos bolsos da outra calça. E os pianos de calda de açúcar hoje estão com preguiça... Moço, me dá uma bala? Só uma...

A marmota só come de marmita... E eu estou tão cego pra poder te ver! Eu sou mais velho do que essa pedra e conheço camarões já faz tempo. Meu primeiro hot-dog foi ainda quando as figurinhas dos álbuns ainda valiam alguma coisa! Errei e coloquei o dedo no cinzeiro. Abraçarei meu filho com o mesmo desespero de uma mãe...

O coveiro bateu palmas pros mortos dançarem? Toda água is água. E eu masco pedras como fossem simples caramelos... Enfie sua virtude naquele lugar antes que o dia se acabe! Pobre de quem acredita num deus falso que escreve folhetins. Gaza é o maior exemplo de que a bondade falhou...

Que falhos argumentos essas preciosidades... A estética nunca compra camisas pros pobres. Eis aqui o talento dos porcos que estão como fome! Ele vende três e entrega um... A única novidade é que não há novidade mais nenhuma. Antes eu tivesse ainda agulhas sem pontas e antigos livros pra bordar. Tem algum por aí?

Lá vem o doceiro! Escondam logo suas dívidas! Eu sou do tempo em que as tartarugas ultrapassavam as lebres... E os bolinhos de massa ainda não tinham se espalhado pelas ruas de Bombaim, sacou? A esperança é a última que corre, é a última! Tem uma carne na minha gordura, dona, tem sim... Juro pela minha mãe vivinha!

Hoje fazem dez anos que aconteceu algo há dez anos. Escrevi isto em sei qual lá nuvem que fugiu no galope... Já virou chuva! Já virou chuva, my captain, my captain, faz tempo, faz muito tempo... E agora? Agora me esperam em qualquer beco que suicidamente eu for andando pela madrugada...

Imagens (Miniconto)

Tem gente que é só isso. Uma imagem pálida que um velho espelho às vezes reflete, às vezes não. Respiram por hábito, seu sangue corre nas veias como a eletricidade corre nos fios. Apenas. As palavras são simples imitações. Comem o que podem, vestem o que a sociedade lhes indica. Pensar? Nem pensar! E no fim - apenas mais uma lápide...

domingo, 31 de maio de 2026

O Grande Blá

Apenas conselhos digitais,

Palavras bonitas

Apenas isso e nada mais...


Onde está a esperança com a guerra?

De que serve o progresso para a pobreza?

Talvez uma bomba acabe engolindo a terra

Ou uma praga termine com a natureza...


Apenas ideias geniais

Saindo das bocas

Dos que são apenas boçais...


Onde está a fé que não move montanhas?

Será a dúvida proprietária de toda certeza?

Somos os marionetes de forças estranhas,

O que há de mais sujo em toda essa pureza...


Apenas velhos carnavais

De uma antiga alegria

Que agora não existe mais...


Parem de falar coisas bonitas,

Isso é apenas um grande blá...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 30 de maio de 2026

Água e Bitucas ou Revolta Muda de Um Poeta

Esqueçam toda e qualquer regra

- a vida não possui nenhuma -

apenas algumas circunstâncias.


Ninguém é aquilo que pensa que é,

Se fosse assim, não erraríamos nunca...


Para o vilão o herói que é o vilão,

A história sempre será mal-contada

E a vulgaridade acaba sempre vencendo.


A fé é uma brincadeira de mau-gosto,

Muitos ainda irão dormir com fome...


Não há beleza alguma que se sustente,

Até o sol pode matar alguns olhos

Assim como ele que mata as rosas.


Ninguém respeita os corpos mortos,

Apenas as lápides serão até lidas...


Hoje não dançaremos mais na chuva,

Não há mais fogueiras pelas noites

E todas as estão agora enlouqueceram.


Não espere riso de quem só pode chorar,

Agora até o espelho já me vira o rosto...


Até a esperança espera algo que não há,

Nem todos os barcos dormem no cais

E as borboletas sugam o sangue das flores.


Algumas lendas são apenas mentiras

Enquanto outras são erros de percurso...


Todas as estrelas são apenas uns átomos,

As nossas necessidades mais básicas

São demonstrativos da nossa pequenez.


Hoje só temos bitucas e um pouco d'água,

Alguém quer compartilhar disto conosco?


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Nada

Nada...

Na rua, na praça, na pista,

Na cabeça, que aqueça, na revista,

Mais um gole, mais um trago,

Na sorte, no dia aziago...


Nada...

No idiota, no patriota, concreto,

Na curva, na turva, grito discreto,

Na parede sem tinta, na cicatriz,

Na fome, na sede, medo de ser feliz...


Nada...

A dona, o senhor, a escrava,

A farinha, o feijão, a palavra,

O sexo, o nexo, final de inocência,

A multidão, o sim e o não, a carência...


Nada...

A necessidade, a qualidade, o tema,

A fama, a lama, o velho dilema,

O prato cheio, o meio, a senha,

O metal, o carnaval, que venha...


Nada...

O embalo, o falo, a nudez vitoriana,

O assunto, o defunto, sem Copacabana,

O país, o meu nariz, tesão repentino,

O trem, o amém, o andar sem destino...


Nada...

A balada, a safada, a sem-vergonha,

Sem salário, seu otário, sem maconha,

Almoço cancelado, tá ferrado, perdeu,

A culpa não é sua, é da rua, quase morreu...


Nada...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Deitados...

 

Estética da fome,

Apenas data, apenas nome

E eis que está tudo consumado

E o morto? Deitado...


Silêncio... Apenas dormindo,

O choro? Vem rindo,

A mais fatal das ironias...

Só anos, não mais dias...


Domínio do medo,

Nada na hora, tudo mais cedo

E uma canção feita de nada

E a morta? Deitada...


Silêncio... Vermes comendo,

O medo? Crescendo,

Sem poder escapar...

Ou morrer ou matar...


Estática new home,

Tudo quer, tudo consome...

E eis que os dias são consumados

E os mortos? Sempre deitados...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 23 de maio de 2026

O Grande Bá, Rato

Meu pato comprou um gato...

A vida? Bá! É um grande rato...


Come pão, rouba queijo,

Fala não, não dá beijo,

Escuridão sem ensejo...


Meu jato caiu no mato...

A vida? Bá! É um grande rato...


É agora, chorou Bebel,

É lá fora, "seu" coronel,

Dá esmola, põe no chapéu...


Meu fato é só boato...

A vida? Bá! É um grande rato...


Se bebo, perco a razão,

Se recebo, vem com um não,

Não percebo, só na escuridão...


Meu desacato é disparato...

A vida? Bá! É um grande rato...


Eu nunca uso, só meu terno,

Eu só abuso, lá no inferno,

Está concluso, tão moderno...


Eu sou grato por esse contrato...

A vida? Bá! É um grande rato...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Tem Uma Sopa Na Minha Mosca

 

... pois até Pessoa veio em pessoa

dizer que a minha pessoa

não era uma boa pessoa...


Amanhã tem pastel na feira

e antigos bordados no papel

com agulhas sem pontas...


... e Pedro, o grande candango

ficava nu dançando tango

enquanto chupava seu mango...


Aquele coelho que não era

não corre mais pra se esconder

na casinha no meio da festa...


... e a Graça veio sem graça

contar que a minha pirraça

estava chorando na praça...


Todos os fios agora brancos

e as rugas cantando em coro

mesmo que não queira tal coisa...


... e o Poeta da éterea mas concreta

poesia abandonada e discreta

recebia a seta de forma direta...


Tem uma sopa na mosca e acho que sou eu...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Nem Tudo

Nem tudo que dá certo está certo, Nem tudo que dá errado está errado, O peito poderá estar como um deserto Enquanto a felicidade está ao lad...