segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Blood On The Rocks

Camisas antiquadas com logotipo

De grandes e poderosas marcas,

Eis a colisão brusca e mais violenta

Entre carros brutos e imaginários,

Ritual de um canibalismo inventado

Para manhãs mais pálidas e insólitas...


Todos os sábios terão de ser humildes

Ou apenas serão petulantes solitários,

Eis a grande contestação de teoremas

Em momentos de lúcida embriaguez,

Nosso aparelho celular nos dará dicas

De como ser mais idiota sem nada fazer...


Cabelos azuis para louras estonteantes

Dormintes em meu pobre leito de doente,

Eis que vem surgindo entre estas ruínas

Gestos bondosos das putas mais vulgares,

Entre todos os churrascos gregos fatais

Sou o único sobrevivente que há no Guiness...


Lá vem o batalhão de miseráveis penitentes

Pagantes de seus pecados na primeira classe,

Show em praça pública de segredos mais vis

Da quebra de ídolos antes tão inquebráveis,

Dois reais de pão para estes pobre miseráveis

Que tateiam pelo mais claro escuro infinito...


Eu mesmo acabarei me martirizando suavemente

Entre remendos educados de solidão voluntária,

Nossa libido canta uma marchinha de carnaval

Com a obscenidade dos monstros do armário,

São alguns haicais que brotam como fossem ervas

Que apesar de serem daninhas também morrerão...


Vamos economizar esse pouco tempo que nos resta

Tentando não ser o último e nem o primeiro da fila,

É pura sandice crer que nos restou alguma crença

Assim como crer que a alegria irá nos perseguir,

Todo malefício terá por sua vez algum ponto fraco

Assim como as paredes dos castelos também caem...


Nesta grande avenida irão desfilar tantos e mais nadas

E vários corvos virão qualquer dia picar nossos olhos,

Os roteiros mais seguros acabaram se perdendo de vez

Enquanto labirintos não nos servem mais de abrigo,

Nesta meia-luz não encontrais mais algum meio-tom

E eu ainda quero algum sangue com bastante gelo...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

domingo, 14 de dezembro de 2025

De Clowns e Bunkers

Triste piada para todos poderem chorar.

Dias de mormaço queimando no escuro.

Versos bons que se atrasaram demais...


Tentar comer os frutos de uma terra estéril.

Fomos os últimos a chegar nesta vã festa.

A sorte está lançada desde outros tempos.

Tento me esconder mas nunca vou conseguir...


Quem não quer que não queira - simples assim.

Não escondo o ás na manga me faltou a manga.

Não fico mais de joelhos porque nem tenho mais...


Falo coisas tão absurdas com extrema calma.

Não sei o que é o amor porque não o conheço.

Envelheci mil anos em menos de que um dia.

Toda maldade depende apenas de circunstância...


Meus Demônios me beijam com extremo carinho.

E meus pesadelos desculpam-se pela falta de jeito.

A fumaça do cigarro é bem mais pesada que eu...


Não sabemos se há continuação ou sequer volta.

Os meus mortos permanecem em seus lugares.

A minha insensibilidade atinge todas notas e cores.

Sob essa pintura há enigmas cheios de mistério...


Caí do cavalo sem estar montado em cavalo algum.

Seria demais pedir alguma tábua evitando me afogar?

A bomba caiu sobre o bunker mas não aconteceu nada...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Bitter Dreams

Bitter dreams

O fundo do copo

O resto do prato

A desilusão que virá para não mais voltar

A cicatriz que vai ficar de vez em nossa pele...


Bitter dreams

A saliva seca

O olhar vago

A festa que acabou sem nem ter começado

A fogueira que se apagou com essa chuva...


Bitter dreams

A folha seca

A rosa morta

O ódio que se travestiu em amor por hábito

O beijo enjoativo com seu hálito mais bêbedo...


Bitter dreams

A saudade doída

O plano falho

A velhice que chegou da forma mais tristonha

A solidão que acaba sendo uma rota de fuga...


Bitter dreams

O show adiado

O parto arriscado

A janela que teve seu vidro quebrado com pedra

O despertar de uma manhã muito mais mal dormida...


Bitter dreams

O dano irreparável

A senha perdida

Os quatro tiros dados nas costas dela no jardim

O meu sonho que talvez seja apenas um pesadelo...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Paranoia Assintomática

Desejos disfarçados com qualquer lógica,

Lógica barata inserida em qualquer frase,

Frase aplaudida sem possuir motivo algum,

Motivo pra temer a morte que é inevitável,

Inevitável  coisa mais do que sempre natural,

Natural e histérica como multidão qualquer...


Qualquer invenção sobretudo a mais que barata,

Barata que é destruída com esse nosso tempo,

Tempo que nos traz apenas feias rugas de presente,

Presente invertido de troianos destruindo gregos,

Churrascos gregos vendidos em quaisquer esquinas,

Esquinas em que nos espera com a mesma violência...


Violência que nos espera com carnavalesca fantasia,

Fantasia de que nossa vitória inexistente será certa,

Certa ciranda que vai nos deixar mais que tontos,

Tontos com a droga que nós não sabemos se usamos,

Só usamos na mais precisa e desastrosa embriaguez

Embriaguez de tudo aquilo que há de forma inútil...


Inútil é todo aquele que só sabe viver junto ao medo,

O medo é apenas o que há de mais certo e inevitável,

Inevitável como nossas fiéis e traiçoeiras necessidades,

Necessidades construídas pela areia de qualquer ilusão,

Ilusão que não percebe que um dia tudo passará,

Passará como se fosse apenas mais aquele vento...


O vento estranho como qualquer macabro calafrio,

Calafrio que gera apenas os gritos mais que inúteis,

Inúteis é aquilo que também somos, apenas pacientes,

De um grande hospício que deve ser chamado de mundo,

Mundo feito apenas dos mais meros e paranoicos desejos,

Desejos disfarçados com qualquer inexistente lógica...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Aquela Casa Que Não Existe Mais (Miniconto)

Tem lugares que já passamos que continuam no mesmo lugar, estão lá, de pé. Mesmo que o tempo tenha maltratado, envelhecidos, assim como faz com as pessoas, ainda assim, estão lá. A casa que fui criado, por exemplo, depois de comprada, ninguém mais morou lá, mas continua existindo. Não sei como está, mas está lá. Mas aquela pequena, que existia no beco do beco, não. Como assim no beco do beco? Era assim, existia um beco na rua e depois do final, existia uma outra entrada, lá no final, para o lado direito e essa casa era a penúltima. Uma casa bem diferente, sabe? A fachada dela direta no beco, sem janela nem porta alguma, uma pequena entrada, que virando à esquerda dava pra outro corredor, com uma pequena varanda. Na varanda, a entrada da sala, a sala tinha uma janela antiga de madeira, caseira. Do lado direito, o único quarto com outra janela caseira. No lado esquerdo, a entrada pra cozinha que tinha um pequeno basculante para o corredor de entrada. Na cozinha uma pequena entrada que dava para um vão, onde havia o banheiro e uma outra saída para a varanda. Todas as portas também caseiras, menos o quarto, nele não havia porta alguma. Mas fomos felizes ali, sobretudo eu e mamãe, no tempo em que moramos sós. Depois que nos mudamos, fui até lá. A proprietária vendeu barato, poderíamos ter comprado. Quem comprou, colocou abaixo, uma pena, ela poderia continuar lá, mesmo não sendo mais ocupada. Tenho fotos do interior dela. Fomos tão felizes... 

Penguê-Penguá

Penguê-penguá 

espinha de peixe não dá pra fumar...

Fugi da escola

pra pedir esmola

ou fui jogar bola...


Penguê-penguá

matei o caboclo por um guaraná...

Cacei na cidade

fui pedir caridade

só achei maldade...


Penguê-penguá

pro lado de fora não dá pra entrar...

Comeu um chiclete

pagou um boquete

foi de patinete...


Penguê-penguá

quem tá duro não pode emprestar...

Fulano sicrano

é quase humano

debaixo do pano...


Penguê-penguá

aqui é daqui e de lá é de lá...

Fuma a bagana

essa semana

seu Zé Banana...


Penguê-penguá

se eu não paro não vou acabar...


(Extraído do livro "Maluqueci de Vez" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Contenda de Perguntas e Respostas Entre O Ser e Um Espelho

- Toma cuidado, muito cuidado. Nem sempre me farás perguntas e quando eu responder, minhas respostas te trarão satisfação alguma...

- Como assim?

- Mau começo este teu, não questione meus métodos, fui feito para permanecer em silêncio, sendo este malvado ou não. Nada depende de mim, não sou eu que faço tua tristeza ou tua alegria. Notaste que fico no canto em que me deixaram e que o tempo também há de acabar comigo aos poucos?

-...

- Eu aos poucos apresento manchas que acabarão tirando minha nitidez, assim como todos os seres acabam trazendo suas rugas tanto de velhice quanto do gasto, sendo este necessário ou desnecessário...

- Mas porque isso acontece?

- Bela pergunta! Se não fosse tão óbvia e por esse motivo, tão idiota... Por acaso não observaste o começo de todas as coisas? Tudo começa a acontecer da melhor forma possível e depois... Ah, depois, meu pobre amigo, transforma-se no que chamamos de final... Olhe em torno, talvez entenda melhor...

- Me dê um exemplo, por favor...

- Um exemplo? Poderia te dar dezenas, centenas, milhares deles, milhões até, já que tudo nesta roda é parecido, mas nada é igual. Imagine só, um breve passeio neste seu bairro... Imaginou?

- Sim...

- Pois bem, imagine que está passando na porta do boteco da esquina e por um motivo que não importa, ele está agora lotado. Esqueça para isso, qual o dia da semana ou o horário, pouco importa para o que eu quero dar como exemplo...

- Está lotado...

- Imagina agora que estão todos bebendo...

-  Estão todos bebendo...

- A maioria, senão todos, estão bebendo algo de algum teor alcoólico.

- Alguns, ficarão embriagados, outros um pouco tontos...

- Exato! E enquanto isso, alguns também se envenenarão, complementando sua bebida com tabaco... Continuando o que eu pedi para que notasse, imagina que alguns são do gênero masculino e outros do feminino. Imaginou?

- Sim. Mas e aí?

- Aí que está, meu caro amigo, aí que está!

- Não entendi...

- Pois bem, veja só, é um boteco, um bar, uma birosca, um botequim, uma barraca, seja o nome que seja dado. O que estão fazendo?

- Bebendo...

- Isso é bom ou é mau?

- Creio eu que mau...

- Mau por que?

- Porque o mau geralmente não traz nenhum benefício à saúde...

- Concordo plenamente, concordo plenamente... Mas se não faz bem, por que estão bebendo? Por que estão gastando seu dinheiro (que sabe-se lá como obtiveram), seu tempo e sua saúde?

- Talvez por vício ou ainda, por outro motivo...

- Boa resposta, boa resposta... Mas não totalmente exata...

- ?

- O vício, na verdade, pouco importa. Veja bem, não estou defendendo ninguém pelo motivo de beberem, quero apenas mostrar o porquê pedi para imaginar tal local e circunstância.

- Prossiga.

- Então. Agora façamos o inverso...

- Como assim?

- Pois bem, o boteco não existe mais, a pequena multidão não há também. Agora existe cada ser, seja qual formos imaginar, chegaremos no mesmo ponto...

- Ainda não entendi...

- É simples, muito simples mesmo. Por exemplo, vou escolher um deles, aquele ali mesmo serve. Está bem?

- Pois não...

- Olha seus cabelos brancos, sua barba malfeita, sua roupa não muito nova e nem muito limpa, seus dentes um pouco cariados, suas unhas já pedindo para serem cortadas e sujas também...

- Continue...

- Seus chinelos já um pouco desgastados, sujos como o resto do conjunto. Talvez tenho no bolso um celular que comprou de segunda mão, para ser igual à maioria que existe por aí. De vez em quando ele entra nas redes sociais para rir daquilo que tem que rir, mesmo que não ache tanta graça assim...

- E...

- Agora observemos mais um pouco. Suas mãos cheias de calos, por conta da profissão que possui - é um pedreiro, por exemplo.

- Um pedreiro...

- Sua idade pouco importa, se sabe ler e o que leu até agora, não interessa. Não interessa para quem ele fará alguma obra, só interessa o que vai construir e se por isso alguém pagará um preço quase justo e se não será sacaneado por ele, o que alguns pedreiros acabam fazendo...

-...

-  Hoje ele é só isso - um pedreiro. Que mora numa casa em alguma rua deste bairro, desta cidade, deste estado, desta região, deste país. deste continente, deste planetinha.

-...

- Que possivelmente foi traído pela mulher ou por um irmão ou por um amigo. Que já sofreu como a maioria na mão de políticos safados, corruptos, ladrões. Que até agora teve que ir algumas vezes ao cemitério levar algum parente, amigo ou até um desconhecido... Que sabe que um dia chegará sua vez, mas mesmo assim nem gosta de falar nesse assunto...

- Aonde quer chegar?

- Aonde quero? Simples, muito simples... Ao inverso...

- Como assim, o inverso?

- Veja bem, o que eu pedi para que fosse imaginado, é certamente o final. Olhemos o começo. Ele, todos os seres humanos, apenas crianças, que começaram sendo amparadas, cada uma ao seu modo. Algumas em barracos, outras em casas comuns, em casas mais suntuosas ou até em palácios. mas amparadas. Chorando quando queriam alguma coisa, queriam comer, estavam sujas queriam dormir ou sentiam algo desagradável...

- Crianças...

- Sim, crianças, apenas isso, crianças, nada mais do que crianças... E o tempo foi então passando, a maldade, a tristeza, a solidão, todas essas coisas acabaram vindo. Umas viraram assassinos, outras ladrões, outras miseráveis, outras inúteis, outras putas, a ralé do mundo. Enquanto isso outras conseguiram algo menos ruim. E preste atenção: não melhor, apenas menos ruim...

-...

- Um dia todos irão embora, seres e coisas. Para onde? Os homens tentam responder isso. Mas quem realmente o saberá?

- Triste, mas verdadeiro...

- Ah! Agora entendeste o porquê não gosto de responder perguntas? Mesmo assim entendeste a minha resposta?

- Acho que sim...

- Então, faz logo o que vieste fazer. O dia já veio, eles nem sempre são amigos...

Místico Ou Quase

  Termo básico. Olhar para o nada sem fazer nada. Enquanto o mangue invade sem parar. Onde estamos? Em nenhum lugar aqui por aí... Sem ter d...