quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O Golem de Todos Nós

 

Nunca mais pensaremos em sérias besteiras,

Besteiras essas compostas de tristes romances,

Tristes como velhos e abandonados jardins,

Jardins estes onde repousam os nossos mortos,

Mortos que se foram e deixaram saudades,

Saudades estas que nos deixam quase loucos,

Loucos como nunca antes podemos assim ser,

Já que o nosso ser perdeu suas próprias asas,

Próprias maneiras e próprias ideias sem gaiolas,

Gaiolas que não possuem portas mas não saímos,

Não há mais saída nem por um lado nem outro,

Um outro dia quem sabe eu tento novamente,

O novo que há ainda um pedaço de mim espera,

Esperança essa que me faz sobreviver e fere,

Uma ferida tão grande que não tem nem tamanho,

O tamanho das coisas é o mais relativo possível,

Essa possibilidade que nos faz tremer de medo,

Esse medo que sabe correr só pela noite escura,

Mas que por mais escura que seja morre no dia,

Esse dia que não conhecemos se será tudo ou nada,

Mesmo que nos esforcemos em pensar em tal,

Nunca mais pensaremos em sérias besteiras...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

SubVida (Miniconto)

Quem disse que ela vive ou sobrevive? Tudo que fez pode acabar de uma hora para outra... Casa tosca, vida tosca, puta barata (o velho canalha do ferro-velho que o diga..), bebida barata, maconha fumada na frente do filho... Já o futuro... Quem saberá? Porrada do cafetão que já comeu a mãe dela! Pra que um se ela pode três? Olho torto, peitos desiguais, tatuagens ridículas, sempre assim. Minimalismo da alma, esporro na escola... O amanhã pertence ao Cão. O prazo de validade não tem mais validade... Quem disse que ela vive ou sobrevive? Só subvive...

Tosco

Mendigos disputando um resto de comida...

Está boa... Não está... É o que se tem pra agora...

Camas feitas de papelão... De jornal...

Florestas nas calçadas... Cidade feita de ruínas...

Histórias mal-contadas... Não há mais...

Tudo se repete... Destino mau... Cachaça boa...

Outdoors comendo cérebros... Sempre hoje...

Zumbis desfilando na avenida... Sob cinzas...

Bloco de condenados sem ter nenhuma culpa...

O cara bebeu lama... Mata mais a tristeza...

Vamos todos orar porque sempre somos ateus...

Meu dinheiro... Não tenho trocado... Sua puta...

A raiva anda comigo... Fomos ao shopping...

A criatura mais linda... A pior... Nem se fala...

Ainda estou aqui... Não sei quando e nem aonde...

A fada dos dentes... Nada nas cáries... Sono...

Enterros latinos... Sexo americano... Dos bons...

Não se fala mais nisso agora ou talvez amanhã...

Meu vício amofina... Quase um estalo... Entre...

Algum dia será qualquer dia desses... Ou não...

Frutas espalhadas no CEASA... Quase comeremos...

I love Bangu... Suco de tomates idem... Mistério...

A usina explodiu... E os girassóis também até...

Ainda que eu falasse na língua das moscas...

Tudo tem utilidade... Até a inutilidade tem também...

Amargos bárbaros... Laranja sem China... Adeus...

Feitiçaria eletrônica... Suspeitos intestinos... 

Quase que eu morro amanhã e eu mesmo me sepulto...

Chope para as crianças... Maravilha sem voz...

Micareta de barro... Xaxado no samba... Naja pet...

Quem comeu morreu... Não tem importância...

Meus pés de sabão... Novidade quase nova...

Penicos na promoção... Cague um e coma três...

Ela faz um estrogonofe de pedra delicioso...

E assa maritacas rosas para o café da manhã...

Quem me conhece não me compra mesmo...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Carnaval de Ventos

Agora sim! Veio o não...

Quem me dera uma falha mecânica

Nesse meu coração...


E o vento rasgando tudo

Não deixando uma roupa no varal

Gritando e gritando mudo

Invadindo esse meu e nosso quintal...


Agora sim! Veio o não...

São séculos de fiel espera

Por essa minha paixão...


E o vento dançando balé

Trazendo o bem e trazendo o mal

Sem dizer ao menos que é

Dono de todo e qualquer temporal...


Agora sim! Veio o não...

Eu quase me peguei chorando

Era da mais pura emoção...


E o vento tremendo de frio

Mesmo assim dando um salto mortal

Mesmo que seja por um fio

Venha logo esse meu e nosso carnaval!


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

 

Solene

 


Para isso não se precisam de rimas

Basta que a flecha atravesse o ar

Mesmo que não contemos os segundos...


Para isso precisamos de mãos e pés

E ainda de algum fogo que seja aceso

Mesmo que não sintamos mais seu calor...


Para isso não se precisam de sinos

Dobrados ou não pouco nos importam

As chaves do carnaval abriram portas...


Para isso precisamos de sonhos alguns

Desejando que a noite vá embora de vez

Mesmo para a manhã com olhos fechados...


Para isso não se precisam de rezas

Uma grande profundidade de até águas

Acaba sendo apenas um só brinquedo...


Para isso precisamos de algum amor

Pode ser daqueles que saiam correndo

Usaremos nossas asas para persegui-lo...


Para isso não se precisam de espinhos

Nossa preferência é mesmo pelas rosas

Servem até aquelas que vivas já morreram...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

A Culpa É do Sol

A culpa é do sol?

É... É... É!


Nocaute perigoso

Onde sensações bailam sem noção

Entre alucionações tão lúcidas até

Moscam que não caem sem ter sopa...


A culpa é do sol?

É... É... É!


Espetáculo cancelado

Tentativa frustado de apenas mais um

Sem noção alguma de que é o adiante

Estrada abandonada de vis peregrinos...


A culpa é do sol?

É... É... É!


Desconhecida palavra

Que entra pela boca e desce na goela

Pedaço de vidro sem ter valor comercial

Mas que mesmo assim continua brilhando...


A culpa é do sol?

É... É... É!


Correntezas delirantes

Feitiços que não deram nenhum efeito

À não ser o brilho de todas as estrelas

Tão longe e perto dos nossos pobres olhes...


A culpa é do sol?

É... É... É!...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Direct

 


Destemíveis covardes sem bando

Faltou açúcar para o nosso café

Quanto menos mais doce...


Estudamos o que não se aprende

Os barões já estão todos mortos

O cal jogado aos poucos...


Dias nublados para sóis quentes

Toda a nossa estação não procede

Nem temporada de caça...


Eis que roubam esse nosso tempo

Com sandices importadas à granel

Podridão pelas ruas...


Nada mais quero que a própria vida

Mesmo que ela seja pertence da morte

Essa que nunca falha...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Talvez Fuga

Eu quero fugir sem motivo algum... Apenas fugir... Sem motivo algum... Fugir dos nossos pecados... Das nossas alegrias... Num idiona que só ...