terça-feira, 30 de março de 2021

Sem Poema Dessa Vez

 

Chega! Às vezes o próprio cansaço 

acaba superando a minha dor 

e encosto a cabeça no travesseiro

e acabo dormindo...

Agora, nesse exato momento,

tranco a porta do meu quarto

para que ela não possa entrar...

Fique aí do lado de fora, fantasia,

se tiveres um pouco de paciência,

coisa que eu não tenho mais...

Os sonhos estão espalhados

pelo resto da casa,

pode ficar brincando com eles...

Use-os como brinquedos novos

que ainda não saíram da embalagem...

Amor, não adianta tentar entrar,

a minha janela está fechada,

eu a fechei exatamente com medo

de que esperança viesse me tirar o sossego...

Chega! São várias noites insones

lembrando inutilmente de histórias bonitas

que nunca mais voltarão...

São várias dores que incomodam

e nem sei mais porque acontecem...

Apenas as cicatrizes continuam

servindo de enigmas que não sei decifrar...

O poeta está sem poema dessa vez...

Deixa eu descansar um pouco,

só um pouquinho mesmo,

acompanhado da triste amiga solidão...

Alguns Poemetos Sem Nome Número 98

 

Gota d'água, 

simples mágoa,

escorrendo pela parede

Pensamento,

tal lamento,

tecendo igual rede,

Eu que choro,

eu te imploro,

mata a minha sede,

O esforço,

o alvoroço, 

a fruta estava verde...


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Tudo cansa, até a esperança...

Já dizia o poeta em franco desespero, não podendo mais desenhar nas nuvens. Algumas desabaram (choveu muito), outras foram convidadas pelo vento à seguirem outros caminhos. Acaba ninguém ficando, mesmo quando parece que ficou. Eu que teimoso sou quero inventar nos melodias, mas faltam versos, ou ainda, alguns gestos que comovam até a mim mesmo. Vento frio, largue-me de vez à deriva como um barco de papel que o menino colocou numa correnteza sem olhar para trás...

Tudo cansa, até a esperança...


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Tio Zico na subida do morro

(dia quente de fim de ano)

colocava o embrulho pesado

no chão asfaltado daquela época

e com os dois dedos na boca

dava aquele assovio enorme

(tão alto rompendo o silêncio

que algumas tardes são)

Corríamos muito e muito!

Ao encontro daquela alegria

de coisas inéditas

para aumentar nosso natal...


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Eu me confundo com nomes, datas e rostos, isso acaba sendo até normal. A alma se monta não só de lembranças, mas também de esquecimentos. Uma grande pintura assim o é. A nossa alma é essa pintura, o vida forneceu as tintas, o destino nos pintou, a morte é o crítico de arte. Cabe a nós a moldura que é usada. E eu me confundo com nomes, datas e rostos...


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Aqui nesse terreno baldio

tinha o casarão da dona Adélia

E hoje são existem fragmentos

de um chão desbotado de azul

(morreram todos,

inclusive a casa)...

Ali naquelas ruínas antigas

funcionava a escola de minha infância

A vegetação toma conta de tudo

igual num filme de terror

(cessaram os passos,

o silêncio tomou conta)...

Só aqui mesmo

junto à minha pessoa estou

E mesmo quando nada existir

estarei vivo mesmo sob a morte

(pobre imortalidade

quase tão triste)...


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Quanto mais chove, mais eu seco por dentro. Esqueço dos milagres que um dia já presenciei. Há fogueiras de lixo feitas em esquinas de lugares pobres. E a ilusão que uma cerveja barata até pode nos dar. Eu sou como a fumaça que sobe com duras penas para um céu que nem ao menos tenho alguma certeza. De muitos poetas sobraram as palavras e os ossos. É bem mais que se possa exigir. Alguns só sobraram enigmáticos números ou até bem menos do que isso. Não queria relembrar de absolutamente nada. Principalmente dos machucados de lá e de cá. Talvez um dia eu enlouqueça de vez e fique dando discursos vãos para uma plateia vazia, sem vaias e nem aplausos. Quanto mais chove, mais eu seco por dentro...


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Natimorto

nasci morto

O sonho o sonho

Dispensadas as vírgulas 

e os acordos

Toda tentativa de perfeição

beira ao absurdo

mas não o supera

em magnificência

Primavera

Prima vera

O acordar o acordar

Dispensadas as formalidades

e os acenos

Todo acordo foi quebrado

e os votos de felicidades

mais um simples deboche...


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Aquários ou gaiolas - escolha. Entre o que não gosta de comer ou passar fome. Quer fabricar suas correntes ou prefere as já compradas prontas? Não se engane, a felicidade não está nem no que você tem e nem no que deixa de ter. Pobreza e riqueza são dois aspectos da mesma ilusão. Um vírus acaba com alguns dias ou vários anos. As circunstâncias vivem nos sinais fazendo malabarismos em troca de um trocado. Seus dentes novos e careados não deixam de se mostrar em sorrisos sem motivo. Amar pode ser entrar num labirinto e morrer lá dentro. Céus ou infernos - escolha logo...


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segunda-feira, 29 de março de 2021

Estrangeiro Daqui Mesmo

 Só preciso sonhar

O encanto de tudo cessou...

O fundo musical alegre acabou

E o silêncio pode ser uma resposta...

Lamento muito por essa cidade

Onde em latas de lixo e seus restos

São campos de batalhas

De muitos meninos pobres...

Ainda quero respirar

Pois a morte ainda não me fez 

A sua infalível visita...

Eu não irei apressar nada

Pois a ante sala da morte é a vida...

Eu me escondo nessa velha casa

Onde a maior ruína 

Ainda é a própria solidão...

Tenho mais dó dentro de mim

Pelos milhares que morrem agora

Do que da minha própria pobreza...

Eu não tive tantas histórias bonitas

Para serem guardadas e contadas

Mas outros podem ter tido e perderam...

Não vou para cais nenhum

Tenho a mais absoluta certeza

Que nenhum barco me espera

E mesmo que fizesse a inesperada viagem

Não haveria noutro cais em outro país

Ninguém à minha espera...

Eu passaria desapercebido

Como acontece por aqui também...

Os violões arrebentaram suas cordas

E os tambores agora cessaram...

Os contadores de histórias antigas

Desconhecem qualquer feito meu...

Eu sou apenas mais um saltimbanco

De alguma trupe que se acabou

Ou um trapezista que errou o pulo

E acabou adentrando no abismo...

Só preciso sonhar

O encanto de tudo cessou...

Sou apenas estrangeiro daqui mesmo...

domingo, 28 de março de 2021

Nova Esfinge Destes Velhos Tempos


Devora-me ou te decifro

numa rotina cega sem tempo de pensar

sons muitos e mais até alguns

nesse meu quase medo de voar

Esgana-me até o nosso final

todas as formas são formas de matar

eu quero o meu cortejo pelas ruas

em que só eu possa me deitar

Não faço mais questão de nada

já se passou o tempo que podia desejar

meu desejo já se cansou sem sucesso

agora não há mais tempo de descansar

Fareja-me sua cadela sarnenta

qualquer lugar é comigo qualquer lugar

pode ser lá no alto do Everest

ou nas Marianas no fundo do mar

Minha geladeira cheia de vazios

as pontas de cigarros no chão sem eu limpar

eu só queria de volta o que já tive

e o que o destino malvado veio me tirar

As mãos me tremem por meus vícios

como o bebum pela primeira do dia

É mais um filho sem pai procurando DNA

é mais uma casa no beco procurando alegria

na promoção da semana litrões mais baratos

a maconha que o parsa lhe trouxe de boa

É só um deboche pelas coisas que não vai 

que nunca entenderá nem em mais mil anos

pois o vazio da alma supera todos os outros

os idiotas geralmente nunca têm medo

Devora-me ou eu te decifro

acabo de vez com essa marra toda...


(Extraído da obra "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 24 de março de 2021

Impossible

 

Eu ainda posso escutar "Roam" do b - 52s

enquanto bebo o café frio do que sobrou

destas minhas sombrias manhãs de muito sol...

Coloco todas as reticências possíveis

como quem anseia por mais um cigarro...

Sim e não e talvez tudo ao mesmo tempo...

Um soco na cara da velha gramática

e um adeus sem gestos e ir por aí...

Esqueci minhas asas num banco de jardim

e agora talvez seja tarde demais...

A sorte nunca foi lançada por não existir...

Faço um looping de sons como quem delira...

O que eu tenho? 

Talvez alguma maldição que me satisfaça

aos poucos como quem agoniza...

Não esperava nenhum começo

e certamente nunca saberei como foi o fim...

Muitos são os lances 

como num jogo de xadrez ou pular amarelinha...

O meu carrasco ri de forma contínua

mas mesmo assim não me fará mais chorar...

Alguns sonhos são apenas flashs

de um lapso da memória fraquejando...

Apenas algumas pérolas e ventos

alguns poucos e outros até demais...

Queria que aqueles teus olhos

me olhassem na escuridão do quarto

e palavras comum possuíssem outro sentido...

O risco não é quase nada

pois amanheço louco todas as manhãs

querendo quebrar todos os vidros

e uivei para a lua que já passou...

"Legal Tender" também lembra outras eras

em que desconhecer certo ou errado

era a lei mais comum de todas...

Meus óculos agora possuem armações

que estão meio tortas

e vejo uma partida breve ou não...

Gostaria de beijar a tua boca

mesmo que fosse o maior de todos os erros...


(Extraído do livro "Insano de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 23 de março de 2021

Poema Para Ser Lido de Madrugada

 

Eu vejo barreiras no incompreensível de mim mesmo

talvez como um cínico ou como um tolo

A questão das letras acabam embaralhando

em minha mente mais do que confusa

Confesso que bebi demasiadamente da vida

até que me viesse a vontade de vomitar...


Esqueceram o sol por aqui

e o coloquei no bolso

e distraidamente o roubei...


Todo um silêncio constrangedor

acabou fazendo da minha festa

mais um luxo tão barato...


Caí de cabeça num abismo quase que interminável

e sobreviver agora é como numa tragédia grega

churrasco grego servido em minhas ruas muitas delas

onde perambulava sem destino muito algum

antes que eu aprendesse que as tempestades

acabam se sucedendo por outras bem piores...


Eu não sei falar sem xingar

e mesmo com todo esforço

eu nunca serei um bom menino...


Posso então confessar um amor 

mas não estou acostumado com ele

que me parece um bicho estranho...


Vão se formando antigas ruínas em minhas retinas

e todas as minhas divagações acabam na verdade

uma verdade que fere mais que meu demônio familiar

não é mais hora para ter algum lamento tolo

está formado um grande círculo sem feiticeiras

em um novo Sabah que o domingo trouxe...


A ciranda já está formada

mas não aguento tantos giros

e minha cabeça então tonteia...


Já corre alta esse madrugada

e eu agora faço desenhos na fumaça

como se o cigarro fosse um giz...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Eu Tô É Bom

Bom até demais. Bebendo um pouco do sol que sobrou de ontem, esquecendo de algumas mazelas? Dessas que fazem todo bicho humano se esgoelar até chamar a atenção. Prestem atenção nas palavras, não troquem os ii pelos aa, nem meu senhor, nem minha senhora. 

Nada é mais constante do que a constância, fora qualquer um desses, poucos mais de antes. Nem me importo com as cinzas que dão, borralho aposentado desde que eu não me entendo mais por gente. Cada um no seu cada outro, a curiosidade salvou o gato.

Rapé, né, Beto? Pena que você cantou pra descer antes da gente tomar mais um, um mel ou aquela da promoção e quase tanto colesterol que matava qualquer pagão. Ninguém toma mais conta das mudas e eu omiti certas tristezas que ela nem merecia.

Estamos aí mesmo, é só me procurar em qualquer canto desse mundo de meu Cão. Toda história acaba tendo sua história, puxa a linha do casaco e acaba nu em ou sem pelo algum. Sem pelo e sem apelo. Pode rir até cair murcho como fruta que madurou demais. Tudo é um exagero, exageradamente exagerado, Cazuza nem me alcança.

Todo normal se transforma quando se bate palma, aí faltam até cabeças de cangaceiro para exibição em porta de igreja. Nove vezes fora, nove. Não me roube mais no troco que a vida já fez demais isso. Meu ano caiu no chão em várias milagres que a ciência dispensa. Eu sou um caso á pensar. É muito disse-me-disse para uma vulgaridade travestida.

Eu estou malacostumado e não carrego malas desde muito. Talvez eu estivesse na caravela e nem me notaram. Ri primeiro e isso é comparável à uma tragédia grega com alguns requintes baianos que nem Jorge fazia ideia. Já fui muita gente, menos o que eu fui. Algumas vezes sobram nomes, em outras nem isso. Vamos errar na gramática de propósito.

O morto se levantou e foi beber uma no boteco da frente do cemitério. Pediu solene como um paxá: - Me bota aí uma das que me matou e uma gelada! E bote na conta do Perceu, se ele não pagar, nem eu... E dali em diante os livros entraram em duvida se contavam mais algum coisa, era um história bem longa.

Só unhas, barba e rugas crescem com a regularidade da fome e isso pode ser escrito e comprovado. Falta nada, há latas suficientes pro nosso baticum. Eu não sou Bandeira, mas também tive um morro do Sabão.  Tenho até mais que isso! Velhas fantasias que esbanjavam até algum brilho.

Faces ruborizadas de um passarinho não-identificado em algum lugar algum. Alguns meninos correram numa carreira só com asas, anjos quem sabe. Nenhum telhado é suficiente para tanta curiosidade, nem há estilingues suficientes para tantos tiros assim.

Não tenho medo das redes, tenho é medo dos tombos, de um silêncio bem comportado de algumas ideias que se entrelaçam até não poder mais e acabam em águas meio que escuras e paradas. Ainda há belezas não-identificadas em cada pedaço de estrada, mesmo com tocaias de qualquer tamanho que se faça.

Eu fiz até alguns versos, mas me perdi entre eles como num labirinto e até acabei gostando e fiz deles uma morada insólita e inovadora. Não mais sairei da solitude de ideias que não podem ser atacadas e, por isso mesmo, muito menos destruídas por qualquer vento, por mais forte que ele seja ou não.

Faça chuva ou não faça sol, é a mesma coisa e não podemos escapulir do que exatamente há, isso não tem dúvida algum e não adianta recorrer disso. Há grandes mentiras que se escondem por detrás de pequenas verdades e isso passa desapercebido de todos nós, os grandes asnos.

Hoje eu tô é bom, me traga logo uma cana...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...