sexta-feira, 12 de março de 2021

Para Mim Bastava Ser Um Poema


A lápide caída

O epitáfio apagado

O falso sorriso do modelo

Perante a câmera fotográfica

E todos artifícios

Para tentativas inúteis 

Poderem dar certo

Toda lógica morre

Por uma procura insana

Todos reclamam 

Pelas palmas invisíveis

De um público sem adjetivos

O alvo errado

O tiro inexistente

O novo é apenas o velho

Que ainda não chegou lá

Toda matéria espera

Enquanto a alma se aflige

Com o que não tem

Farsa grande farsa

Mil vezes somente farsa

Achar que os sonhos

Nunca nos ferem

Morte grande morte

Mil vezes somente morte

A vida sem nos ferirmos

Porque ferimos

Se pudesse escolher 

Algum outro destino

Viraria um poema

Palavras não sentem dor

Apenas fazem doer

Palavras não se machucam

Apenas machucam

Ou também curam

Nunca morrem nunca

Mas ressuscitam sempre

De qualquer uma boca

Ou apenas flutuam

Em quaisquer ares por aí

O rio correndo 

A água caindo

Numa suavidade rude

De quem não para

Um brinde para todos

Qualquer riso serve

Não há nenhum porém

Na lápide caída

No epitáfio apagado...

quinta-feira, 11 de março de 2021

Assim Seja

 

Esperar em cada dia

Mais a vida se escoando

Feito uma vasilha furada

Novos se tornando velhos

Velhos se tornando nada

Assim seja...


Perder todo seu sono

Vagando pela noite escura

A lâmpada está apagada

Os mosquitos zumbindo

A nova manhã desejada

Assim seja...


O nosso estômago vazio

Os dentes quase todos caídos

Toda beleza já está enfeada

Essa história já é conhecida

A farsa já está encenada

Assim seja...


Vamos ficar de cabeça baixa

Rezar contritos nossas ilusões

Vergonha da roupa esfarrapada

Ficamos esperando a alegria

A carta já está marcada

Assim seja...


É hora de nos embriagarmos

Até que embotem nossos sentidos

E a mente fique só atordoada

Vamos rir sem motivo algum

Da forma mais desesperada

Assim seja...


É cordeiro comendo cordeiro

Numa simples inversão natural

A arma agora está disparada

O vinho se transformou em água

A maravilha foi desprezada

Assim seja...


Assim seja...


(Extraído do livro "Só Malditos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Um Ar Pesado


Um ar pesado...

Onde andorinhas se escondem

Até de pedras não atiradas...

E os sonhos dormem em cavernas

Para que os soldados

Não possam vê-los...

Calçadas cheias e corações vazios...

De quantos trapos precisaremos

Para não esconder mais nossa nudez?

Os senhores da vida se desentendem

Enquanto a morte bate cartão de ponto...

Uns constroem castelos

enquanto outros os derrubam

O que faço eu?

Em meu canto solitário

Tento balbuciar algumas verdades

Mas a verdade é o mais amargo dos remédios...

Há tantos rumores por aí...

Novos pesadelos serão lançados no mercado

E com grande aceitação do público...

Esqueçam de uma vez o velho

Tantos erros como acertos...

É o novo caos e o quinto naipe...

É a inversão completa

De qualquer esperança 

Que um dia existiu...

O veneno já está pronto

Vamos servi-lo no café da manhã...

As ilusões preparadas

Para poder então nos engolir

Da melhor forma possível...

A munição não acabou

Na verdade ela nunca existiu...

Uma nova frenesi

Nos obriga em dançar

Até a mais completa exaustão...

O mascate veio nos vender

A nossa mais falsa redenção...

Um ar pesado...

Onde os pombos comem

As migalhas de nossa tristeza...

quarta-feira, 10 de março de 2021

Não Há Mais

Não há mais urubus na primavera

 E nem cigarras por falar nisso

As promoções acabam hoje

E qualquer uma das poéticas morreu

Somos tudo que funciona às avessas

E a execração não foi para o condenado

Não há mais girassóis girando

E a bela voz acabou se calando

Na hora que a canção suplicava

Os barulhos do dia agora são banais

Mesmo as bombas que caem sobre meninos

Ou estampidos tirando qualquer vida

Não há mais necessidade de óculos

Porque cegos já vêm de fábrica

Os nossos sentidos estão falidos

A teimosia anda sumida do mercado

E todos os idiotas de plantão

Vão trabalhar até nas suas folgas

Não há moeda sem três lados

Nesse tão intricado labirinto

Onde vencedores e vencidos

Irão acabar no mesmo lugar

Não são muito poucas as vezes

Que socos doem menos que beijos

Não há mais rapazes latino-americanos

Fazendo protestos quase inúteis

E se hoje se esconder é questão tática

Viver uma brincadeira de mau-gosto

Em que anjos e demônios se uniram

E participam do mesmo banquete

Não há mais lógica na própria lógica

Quando a questão é apenas outra

Quem poderá respirar agora sossegado

Quando os venenos bailam pelo ar?

Todas as filas servem para ensinar

Como se comportar na última delas

Não há mais reticências para se pôr

Não há mais um leve desespero

Todos eles acabaram ganhando peso

Numa estética que faz até o ar rir

Porque a dicotomia vive falhando

A sujeira não está debaixo do tapete

Porque os miseráveis não possuem um

Não há mais como proibir o proibir

Quando até velhos ídolos se quebraram

O barro de Adão acabou apodrecendo

E as costelas são servidas no jantar

Faço votos que encontrem algum lugar

Onde tudo isso tenha uma resposta

Não há mais porque me alongar

O cansaço chega o tempo todo

E afinal de contas sempre perdemos

Mesmo antes da corrida começar

E alguém posso levantar o dedo 

E dizer que não há mais nada...

domingo, 7 de março de 2021

Eu Me Faço Alguma Coisa

Faço que me faço quase alguma coisa. Eu sou o ontem com cara de hoje querendo ser amanhã. Não me puxe os cabelos que eu viro gente e aí caba sendo bem pior. Ocasiões escondidas de pura solidão e muita alegria. Tudo passa e até as dores dormem. Eu apontei o dedo pro alto pedindo mais uma e o garçom nem me viu. Eu queria aquela revista e completar meu álbum de figurinhas. Acordei com a tarde já caindo e quase caí de susto. A poeira ainda cega meus olhos e isto pode ser apenas um lugar-comum. Eu apenas pensei nuvens e a chuva reclamou seu lugar. A minha garganta foi atravessada por milhares de palavras que não disse. Os estalidos no silêncio me trazem tanto medo. Panos estampados e riscos coloridos de um sei lá o quê. São certos temperos necessários senão perigosos. A luz do lampião entortou meus olhos e o azul foi procurar seu céu. Cada riso tem seu alto preço. As areias queimavam sob meus pés. E o estar lá agora não tem mais significado algum. Talvez eu fique louco qualquer hora dessas e me anime de contar mentiras que facilmente enganarão o detector. Ou se eu mesmo preferir me jogo lá das pedras do alto e vou embora de uma vez por nenhuma. Não acenda mais a fogueira. Os meus reclamos são antigos e inevitáveis. Fizemos casinhas de lençóis e quase cometemos um quase-crime. Toda eternidade termina. Ou pelo menos nos dá as costas e sai caminhando. Eu tenho quase certeza de tal disparato. Respeito todas as regras que não precise cumprir. O comprimento da vida nem sempre é o mesmo. O mais certo pode ser o mais desastroso. Escapamos de uma armadilha por conta e risco de uma outra. Tragédias não possuem pátria e percorrem o mundo mais do que trágicas novidades. Foi engraçado que eu não achei tanta graça assim. A regra de ouro agora é outra. Não acerte dando a resposta errada. O gás acabou como um filho que morreu. A geladeira está vazia como qualquer alma. O caminho errado faltou nas prateleiras. Espero o sinal abrir para atravessar a rua. Eu fiz um trato com o risco e hei de cumpri-lo até o fim. Feito à mão algumas figuras de fumaça. Mais triste de que um palhaço. E nem eu mesmo notei esse importante detalhe. A urgência acabou ficando com preguiça e não saiu mais de casa para seu passeio diário. Esqueci de acender as estrelas e os pirilampos ajudaram-me a consertar tal equívoco. Estudo algum meio de não me destruir com falsa vontade. Toda história acaba sendo outra. Confetes e serpentinas são espalhados pelo vento de tolas convenções. Quero amar o suficiente até que o infinito se acabe...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).  

sábado, 6 de março de 2021

Eu Mesmo Aponto O Dedo

Eu mesmo aponto o dedo

Não é mais necessário

Que o cursor aponte a seta para mim

Em direção ao meu peito

Para poder me matar

Meus erros são meus mesmos

Eu os trato com grande carinho

Porque foram bons professores

Meu choro não foi uma mentira

Apenas mais inevitável

Foi ter que me sentir humano

Nem pior e nem melhor

Apenas mais um entre muitos

Talvez futura lápide

Que fale somente o essencial

Quase um cachorro vadio

Continuo faminto mas há sintomas

De uma já moribunda alegria

Tudo passa nestes tempos

Até alguns substantivos inevitáveis

Quantos dedos não importam

É só pura questão de ter vontade

Toda tolice acaba desaparecendo

E a piada dos maus perde a graça

Ainda não esfriou o suficiente

Mas mesmo assim eu me abrigo

Sob a espessa coberta indeterminada

Das minhas próprias ilusões

Imagino o óbvio que grita de dor

Não cheguem muito perto

Até a dor pode ser contagiosa

Eu ainda continuo sendo carregado

No mesmo ventre de sempre

Dentro da mesma escuridão e água

Viver não é castigo nem é dádiva

É apenas uma circunstância

Que pode chamar atenção ou não

Eu sou a minha assombração

E sempre capricho no arrastar

De minhas eternas correntes

Não há mais insetos para lâmpadas

Me cubro de farrapos evidentes

Sejam eles de que classe for

Não diga que eu não presto

Disso tenho a mais absoluta certeza

Já vi isso em muitos muros

E até em paredes de banheiros

Seria até bom se batessem palmas

Quando esta farsa terminasse...

Malandriância

Virei manchete de jornal e nem tinha percebido isso. Só quando o povo me saudou como quem vê mais um fantasma. Nada mais, nada menos, eu sou o que era e mesmo assim não foi. Você acaba de ganhar uma embalagem vazia de sabonete. 

Tutu, tatá, somos inocentes como nossos dentes, nossa cara lavada na frente do espelho e nosso olho vermelho. Meu bigode colorido de nicotina, não desatina, é assim sim, não tem mais flor no meu jardim, me dê um soco, tem dó de mim.

Escapei por um triz de ser mais um número, pedir perdão pode ser pedir demais. Sou apenas mais um retrato que a internet mostra com uma careta. Está tudo tão bem, principalmente quando não está nem um pouco.

Sou uma fera, não me espera, engoli o verão, agora será a primavera. Não se espante, fiz um implante, um coração quase gigante. Que esse coração seja necessário. Não me importo, eu te suporte, pode me chamar de otário. Otário, otário e meio, há tanto bonito que acabou ficando feio.

Chuto a bola, sou rei do gol-contra. Um Pelé ás avessas, quase um Garrincha. A disputa por um pão velho já quase que começou. Caprichemos nos nossos uniformes que deixam a buda de fora. O que não tem remédio é o irremediável. Aumentem as fileiras aí.

Eu queria ser quase como um Chico, mas não sei contar as estrelas, só conto até cinco. A outra mão segura a madeira que me salvou, estou no meio do oceano e nem sei onde vou. Vou sempre em frente, o nosso tempo é um demente, é conhecido, nem é parente. Não creio em nada, sou um doente.

Me xingaram, mas eu não sei revidar. Os ratos já dançam seu tango com requintes de frevo. É tanta confusão que eu não se infarto ou derrameio, qualquer novidade não foi inventada. Não houve espinha na garganta porque faltou o peixe.

Mundo malvado, quase tarado, errei de porta, tava enganado. A lâmpada queimou, chamei um anão pra trocar. Até a nosso mentira é fácil de se enganar. Nem todo o descanso é de papo pro ar. Salve-se quem puder. Acreditar que se crê não é questão de fé. É de molejo, não sei se saio, não sei se vejo, chega pra cá, me dá um beijo.

Não tenho boné, mas mesmo assim já vou embora...

 

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...