terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Quase Concreto

 

Quase concreto

Abstrato só

Quase objeto

Minha mente um nó

 

A menina se vendendo por cocaína

A miséria morando na próxima esquina

 

Quase abjeto

Tenha pena e dó

Quase secreto

Sou apenas só

 

O garoto vendendo bala no sinal

O louco fora de época pulando carnaval...

 

Quase indiscreto

Como todo mundo é

Guardei o afeto

Destruí minha fé

 

O velho abandonado na calçada

A cidade grande não tem pena de nada...

 

Quase quieto

Morto sempre em pé

Curvo quase reto

Esperei muito até

 

Todas as paredes vão desabando

Enquanto meus olhos vão se fechando...


(Extraído do livro "Palavras Modernas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Um Poema Sem Maldade

 

Arma na mão 

e um mundo mais perigoso lá fora

feito de maiúsculas incontáveis

A velha contradição

acabou de lubrificar

todas as suas velhas engrenagens

Milhares são

de meninos perdidos em seus

efêmeros pontos de vista

Eu choro até quando durmo

e esses soluços que escutam

são doces pesadelos

A morbidez entranha-se

pelas minhas carnes

e acaba me dando sustos

Gostaria de tapar meus ouvidos

e retirar as cores

a vida é agora filme antigo

Decerto a morte

(companheira inseparável da vida)

faz todas as lições de casa

Cenas e cenas e cenas

sua velocidade inatingível 

apenas me confunde mais

Eu queria gritar

mas não sei se devo

e minha mudez é quase santidade

Dou um tiro sem munição

e ar é meu aliado

para estranhas canções

Não sei nada mamãe

não sei mais nada

aliás nunca soube

Minha inocência é milenar

e sua poeira é venenosa

como toda mesmo é

Me esqueci desculpem

a minha sentença

no bolso da outra calça

Rosas agora dão medo

e os cravos talvez sim

mas talvez não

Juro minha inocência

até que o tempo

escorra pelas paredes

Estou aflito 

como qualquer mortal

ainda mais que não morrerei

Não enfeitei a casa

para que ocorresse a festa

e tudo virou um funeral

Não pude evitar

de que a rudeza

me invadisse feito tsunami

Foi quase nada e nada

do que sobrou do jardim antigo

onde tudo já existiu

Me deixem pelo menos 

a memória de tudo 

e não apaguem meus arquivos

Proibidas cenas

um café à mais

e o cigarro que quase não acendi

Não temos agora

isso é uma ilusão

só o ontem e o amanhã estão aqui

O destino é uma piada

que o comediante 

não queria contar e contou

O palhaço fez piruetas

mas acabou falhando

e caiu pelo chão

A musa espirrou

na hora errada

e nem tinha lenço

Uma vez por semana

me visto de preto

para lembrar-me vivo

Toda filosofia caducou

envergonhada ficou

diante de um prato de comida

Toda reza calou-se

diante da morbidez

de uma fé inútil

Nem mesmo velas acesas

adiantam alguma coisa

perante nossa escuridão

Aniquilo-me totalmente

um dia sim um dia não

de acordo com o freguês

Escondo-me frequentemente

atrás de invisíveis portas

que minha mente constrói

Os gatos são anjos de bigode

que esperam com paciência

nossos frequentes tombos

Não existe mais razão

para consertarmos

os brinquedos quebrados

A casa toda desarrumada

os tênis jogados num canto

a cama de solteiro pra dois

Os desafios do tédio

como uma goteira

que teima em continuar

Não compro mais jornais

não coleciono mais domingos

e apenas posso chorar 

Não esqueça o like

deixe ali a bike

terremotos também passam

Tudo estremece agora

muito além das possibilidades

de uma fantasia maliciosa

Nomes comuns

não são tão comuns

dependendo de onde

Quero reinventar

brinquedos antigos

e antigas cirandas também

Rebecas e Manuéis

ainda andam na corda bamba

e se assustam sem susto

O velho rádio ressuscitou 

traz notícias impossíveis

não há mais sangue no chão

Eu não sou um novo Cristo

mas não me pendurarei

em qualquer uma árvore

Um cigarro no portão

e as intermináveis celas

compondo a paisagem

Toda cor agora é negra

sob os olhos da miséria

que tudo domina

Arma na mão 

e um mundo mais perigoso aqui dentro

letras minúsculas de um contrato sujo...

Alguns Poemetos Sem Nome Número 96

Enigmas sem esfinge
olhos mais que fechados
Uma mosca executa uma sinfonia
num ar igualmente morto
Quantas lágrimas ainda chorarei?
Esqueci a alegria por aí
e alguém deve tê-la encontrado...
Por favor, me devolva!
É a única que tenho,
me falta como comprar outra...

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- Tá, eu prometo!
- eu-menino falou com a cara
mais cínica do mundo...
Passados tantos anos,
não consigo por mais que tente
deixar de engolir todos os sóis que aparecem
como um girassol
que não pára de crescer...

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Morte-alma
não-morte-corpo
Viver morrendo por aí
eu já vi o bem-te-vi
Andei por terras
com e sem guerras
Águas no alto e no chão
com e sem coração
Chorar virou arte
um pedaço não é parte
Morte-alma
não morte-corpo
Tudo no mesmo lugar...

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A irrealidade das telas
das mentiras que contam
sem saber qual a cor do pano
muitos que já foram
que o digam
Tudo com seu preço
é tão barato comprar gentes
Escrever caminhos
que sigam aos abismos
prefiram virar para a parede
e dormir...

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Não é pássaro
é um drone
Não é uma estrela
é um LED
Não é tempestade
são vários lasers
Não é choro
é apenas ensaio
de uma peça mal-ensaiada

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Estou cansado
de esperar a chuva que não vem
o pequeno jardim ressequido
olha tristemente para mim...

Estou descrente
de qualquer fé existente
enquanto insisto em pedir
algo que não virá...

Por isso
vamos debochar sempre
enquanto pudermos
nem jantar eu quis...

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Um arco de corda tesa
e o disparo preparado
Um amor impossível
pela soma dos fatores
Uma indecisão periga
no beira do abismo
Matar-se sem morrer
é muito e muito fácil
Deixemos que tudo seja
como não deveria ser

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Palavras que conheço
palavras que desconheço
umas demais 
outras demenos
invento o que necessário for
Gostos que provei
gostos que não provei
uns muito bons
outros nem tanto
tudo parecido com as marés
Deixem-me por aí
andando com minha sombra...

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Uma Valeriana

 

Na casa de mãe Joana, Joana não mora

e sabemos isso quando o tempo passa.

Eu não sei mais nada porque tudo esqueci...

Sem sombra de dúvida - a dúvida

palitará os dentes com meus ossos.

Eu vivo evitando mirar nos espelhos...

Continuam minhas loucuras - todas elas

como um grande bloco que desfila.

Ser insano tem lá as suas vantagens...

Se existe felicidade - eu desconheço

seu gosto é estranho para minha boca.

Eu me entorpeço cada vez mais...

Há muitos rios por aí - morrem todos

e são sepultados no mesmo lugar.

Talvez de fogo me torne água um dia...

A lâmina brilhou no escuro - como pirilampo

e o vazio faz até o medo ir embora.

Toda tempestade traz seus clarões...

Nem sempre beleza e tesão deitam juntos - acontece

assim é feito nosso quadro de absurdos.

Minha reza pode ser uma ofensa ao sagrado...

Eu sinto o aroma do perigo - em muitos cantos

minha selva tem edifícios e muito asfalto.

Não sei se sou o carrasco ou o condenado...

Quero quebrar todas as regras - pisei em ovos

e mesmo assim juro a minha inocência.

O cinismo não precisa de nenhum ensaio...

Eu tenho todos os nomes - e nenhum deles

sou o anonimato mais público que existe.

Uso todos os vernáculos possíveis de vulgaridade...

Quase tudo nem notamos - são formigas no chão

e pisamos na cabeça de todas as oportunidades.

A felicidade muitas vezes o lixeiro levou...

Casa de ferreiro - o espeto é espeto

e sabemos isso quando o tempo passa.

Eu não sei mais nada porque tudo esqueci...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).


Pequeno Poema para O Dia 15 de Fevereiro

 

É assim...

A impossibilidade brinca comigo

como uma criança malvada...

Não sei mais nada

só tenho esses meus versos...

Brindemos...

A vida vazia sem sentido...

A distância do tempo

é como o rio da morte...

A morte que respira

e dança pensando não ser...

Eu ando e a tristeza é 

a minha sombra...

A solidão duma rua suja

é a minha pior companhia...

Gostaria de achar minhas asas

e voar para longe de vez...

Não olhar mais tua cara...

Esquecer meu próprio nome...

Mais uma alma morta

entre tantas que andam por aí...

É assim...

Não de outro jeito, meu amor...

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Sobre Veneno

 


Teimo com o impossível

e por mais que capriche

minhas tentativas são vãs...

Nada do que faça

muda o correnteza do destino

e por isso só me lamento...

Não sei mais o que faço

e acabo me perdendo

entre milhares de desconhecidos...

As intenções foram as melhores

mas todos os planos

todos eles acabaram morrendo...

Sinto um gosto diferente

na dose de sonho que tento engolir

e desconheço o que isso é...

Acabo brigando com as nuvens

e talvez me arrependa depois

não foi sua culpa minhas ilusões...

Estou mais frio que o lá fora

e não posso culpar ninguém

que não seja eu mesmo...

Na frente de uma grande tela

construí um santuário

para todas as minhas decepções...

Os meus versos viraram-me as costas

porque a esmaguei a fantasia

com as minhas próprias mãos...

Faça um ritual

para falar com os mortos

através do meu celular...

Hoje está chovendo

e nos outros dias também

mesmo quando parece ter sol...

A minha poesia se esconde

com timidez pelos cantos

e talvez morra junto de mim...

Tenho visto tantos fracassos

que acabam dando certo

e rir disso de nada adianta...

Minha mente faz perguntas

que alma tenta ignorar

por estar tão cansada...

Escondo-me onde consigo

de algum amor fatídico

que possa chegar atrasado...

Só não consigo escapar

da menina de cabelos verdes

de veneno nos lábios...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Pequena Reticência

Diferenças marcantes que marcam a nossa pele. Profetas itinerantes com desgraças tão familiares. Eu não vi o meu próprio nariz. Enchi minhas mãos do pó do minha própria memória e o joguei ao vento...

E entre rosas poderosas e cravos escravos minha via-crucis acontece por todas as manhãs...

Os rios feitos de gilete feitos na puta. Sonhos inalcançáveis de um lanche na esquina. Eu desconheço agora quem sou. Engoli num só trago a minha sensatez para que não me ferisse mais...

E eu sinto alguns dentes faltarem na minha boca como quem relembra seus mortos...

O pontapé inicial na decisão de um campeonato de futilidades. Mentirosos de plantão ditam para os alunos. O cheiro da droga inunda o ar como mais um lugar-comum...

Já me cansei de clichês que acontecem em todos os filmes exibidos no meio das tardes cheias de tédio...

Tenho um coração tão malvado como qualquer outro. Os tarados pela ilusão masturbam-se discretamente para o mundo. Eu me tornei a fumaça que sai de desconsoladas chaminés...

A bosta é o tesouro dos besouros e o nojo a medida de nossos próprios limites...

Nunca custou tanto nada ser apenas nada como tantos outros. Quantos mosquitos serão necessários para um massacre? Na barra da noite eu fiz feito uma saia...

Uma comédia grotesca e famosa acaba falando de porra nenhuma e rimos...

Agradeço minha miséria todos os dias até isso se tornar um vício. Berrei até ficar afônico com canções que não sabia a letra. O desejo é mais que uma piada de muito mau-gosto...

Ser enganado é um sedativo igual à qualquer outro e acaba fazendo efeito...

A necessidade faz as maiores transformações e estabelece as condições ideais. Temperei minhas impressões em solene arqueologia. Até o final não esperei coisa alguma...

Para todo final há um começo e essa monotonia do inusitado irá aos poucos nos consumindo...

Não foi por minha opção que atravesso todas estas selvas fazendo amizade com todas as feras. Convido pontuais leões para jantar. Todos os opostos são pura aparência...

O mendigo pede todas as sentenças do mundo para que a imortalidade prevaleça...

Toda paixão é uma piada que quase não foi contada e mesmo assim provocou riso. As emoções são paradas de um ônibus que perdeu seu percurso. O sinal de perigo já foi dado há muito tempo...

Acabei de abrir portas e janelas mas o sol teima em não entrar...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...