domingo, 13 de junho de 2021

Briga de Gato

moralistas esmeraldas cinzas

expulsas do coro de anjos

faraós condenados à terem 

suas almas pelo resto da vida

(e muitas mágoas também)

eu uso meus andrajos mais ricos

escondendo minha humana condição

a apatia matou mais que a morte

e há muitos mortos confundidos

(mortos nunca sonham)

sou o mais abstrato dos concretos

e preparo maçãs envenenadas

como um novo conceito edipiano

que estará na moda ontem

(todas elas chegam atrasadas)

as moedas são muito relativas

podem servir de abismo

como podem ser um redentor

que acabou vindo sem cruz

(todos os carrascos oram)

todos os dias acabam sendo meus

sobretudo aqueles que não queria

a borracha para apagar o destino 

não vem no nosso material escolar

(e falta sempre no mercado)

pombos verdes vão caminhando

enquanto fazem seus chutes a gol

experimentando velhas receitas

o almoço já está servido

(mas nossa fome não acaba)

a briga de gato está no fim

houve um terremoto lá em cima

as paredes quase ruíram

mas todos agora se salvaram

(algumas flores são de vidro)...


(Extraído da obra "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Era Só Isso Que Eu Esperava

 

Camaleões

quase que leões

em seu certeiro golpe

sem ter nenhum galope...

As pontas queimam no cinzeiro

e os cigarros morrem por inteiro...

Delírios é o que temos

e nossos fantasmas fazemos...

O incauto

acaba falando alto

revelando seu segredo

alguns tolos não possuem medo...

Eu me teimo

e me queimo

num só pacote 

sem que ninguém note...

Estão em todos os planos

um inferno só com humanos...

Humanos quase o são

nem sim e todo o não...

Dromedários

compõem os cenários

de uma tristeza absoluta

onde ninguém me escuta...

Tome um gole

ninguém mais escapole

da corda no pescoço

do velho ou do moço...

É pimenta

no meio da venta

e entre morangos

e alguns tangos

não sei se prefiro

ou me retiro...

A saudade

é maldade

que fazem comigo

desde um tempo antigo...

Sou um tolo

e foi sem dolo

um amor mais malvado

que tem me maltratado...

Ilusão desfeita

sob suspeita

acabou o afã

e o enterro é amanhã...

Era só isso que eu esperava,

um choro que não se acabava...

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Fatídico

Tristes imagens aí estão,

meu coração ficou surdo

aos meus apelos...

As caras pintadas nada disfarçam,

as mesmas coisas se repetem...

Pode ser insistência minha 

falar mais da tristeza...

Mas o que não é?

Flores talvez tragam alguma esperança,

mas acabam morrendo também...

Nossa vontade é apenas um disfarce,

temos contratos que não assinamos,

são metas que não cumprimos

e deixamos nossa vergonha de lado...

É tão difícil entender 

ao nosso próprio entendimento,

ainda mais quando o amor entra de sola...

Sou mais antigo que o mundo,

mais novo que qualquer novidade

e trago comigo toda a sabedoria

que os imbecis pensam ter...

Roubaram a minha máscara 

e o espelho agora me tortura,

como um filho-da-puta qualquer...

Mande logo, mais um trago,

bata com força o copo na mesa,

talvez eu acabe acordando,

passe um pouco desta bebedeira

de pensar que ainda estou vivo...

Soltos

Soltos, soltos. Os meus sonhos tão tristonhos. Os balões dos corações. As ideias sem plateias. As  calmas sem almas. As esperanças sem cobranças. Os amores sem dores. As conversas mais diversas. Estou sozinho porque perdi o ninho. Soltos, soltos...

Soltos, soltos... 

Como será minh 'alma em breve,

em uma a terra pesada ou leve,

nem importa se não exista,

a morte é sempre prevista...

Soltos, soltos. Os pesadelos arrepiam meus cabelos. As farsas são minhas comparsas. Sentindo tudo fico mudo. Pego a aflição na mão. Ninguém repara na minha cara. Eu fui no céu buscar meu anel. Eu fui no mar buscar teu olhar. E fui lá embaixo ver o que mais acho. Soltos, soltos...

Soltos, soltos...

Nem que se acabe o carnaval,

será eterno esse meu quintal,

não tem dia e nem tem hora,

mesmo sabendo que vou embora...

Soltos, soltos. As meninas estão nas esquinas. A sobrevida não é vida. O poder nos faz sofrer. Cada laço é um fracasso. Nem sempre ver me faz crer. Não existe mais emoção no coração. Com tudo perto fiz um deserto. Está tudo errado mesmo acertado. Soltos, soltos...

Soltos, soltos...

Para mim eu sou um estranho,

toda saudade não tem tamanho,

agarrei na tábua e não me salvei,

perdido nessa selva sem lei...

Soltos, soltos. Faço meus malabarismos em abismos. Não são nossos os nossos ossos. Peguei um trem para o além. Não mais dormi porque amanheci. Cada veneno é tão pequeno. Não pare não essa nossa canção. O concreto é bem mais discreto. Acendi a fogueira de outra maneira. Soltos, soltos...

Soltos, soltos...

Versos são o que me restou,

de tudo aquilo que não prestou,

eu até tentei, mas foi em vão,

agora vou pela escuridão...

Soltos, soltos,

como pássaros agora engaiolados...

domingo, 6 de junho de 2021

Quando Não Chegar Janeiro

Quando não chegar janeiro,

Quando não mais chegar...

De nada me adiantou suportar as outras estações, 

Ver as folhas mortas caindo no chão,

Sentir o frio do inverno fazer doer meus ossos,

Como a mãe que teve um aborto espontâneo...


Quando não chegar janeiro,

Quando não chegar...

Todos esses rostos guardados em minha mente

Só servirão para maior tortura,

Cada um deles será uma história boa e morta,

Ingredientes para criar o monstro da saudade...


Quando não chegar janeiro,

Quando não chegar...

Fevereiro também não dará suas caras,

Não haverão as mais sujas fantasias,

Não comemorarei mais um aniversário

Daquela infâmia que só soube me torturar...


Quando não chegar janeiro,

Quando não chegar...

E março me trouxer sutis tristezas

Dos dias que não comemorei o bastante,

Todo enfeitado de margaridas e outras flores

E quase estarei sufocado num oceano vazio...


Quando não chegar janeiro,

Quando não chegar...

E até os outros meses ficarem confundidos,

O tempo então não mais a mim pertencer,

Estarei em outras terras existentes ou não,

Procurando afinal uns outros dias mais...


Quando não chegar janeiro,

Quando não mais chegar...

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Mesma Coisa

 

Mesma coisa, humanos que somos...

A vida? É apenas um respirar...

Os mesmos pecados, mesmos erros,

Sem por, nem tirar...

Somos todos iguais, todos nós...

Temos a mesmas idiotias...

A mesma tristeza e suas lágrimas,

O riso com suas alegrias...

Não adianta tentarmos correr,

A mesma santidade, o mesmo tesão,

A morte que sempre chega,

Sem abrir nenhuma exceção...

Quando somos os alvos,

São abertas as mesmas feridas...

Tudo vem, tudo acaba passando,

Em inevitáveis partidas...

As mesmas bocas, fechadas ou não,

As mesmas línguas, os mesmos dentes...

Compromissos que não fizemos,

Nos trazem as mesmas correntes...

A mesma espera, quanta demora,

Isso nos provoca a impaciência...

A criança se torna adulta,

Foi-se embora a inocência...

A mesma cova, apenas chão,

Depois de um dia tudo apodrece...

Quando chega o perigo,

Não só o covarde estremece...

Morreu a flor, esvaziou o jardim,

A folha caiu e está morta...

Quem come ou tem fome,

É quase sempre o que importa...

Mesma coisa, mesmo mortal,

Prepare a bagagem para partir...

Se for ainda muito cedo

Pelo menos para se divertir...

O mesmo Deus e o mesmo Diabo,

Sendo descrente ou tendo fé...

Uma pedra é apenas pedra,

É apenas o que ela é...

Diferentes tribos, terras , povos,

Tão iguais em sua desigualdade...

Apenas sonhamos, nunca temos,

O que chamam de felicidade...

Nem somos certos, nem somos errados,

Somos o tempo passando...

O que veio, o que vai embora,

A mesma coisa que estou sonhando...

terça-feira, 1 de junho de 2021

Outra Lua

 

Não me importo,

muitas são as surpresas,

o bem e o mal acabam se confundindo,

no meu coração ainda há vagas...

Esqueci as lições de casa,

a sobrevivência se desespera

e enquanto seus gritos ecoam,

todos os apáticos dormem...

Trocaria minha eternidade

por um momento de esperança,

sentindo que o amor

não me feriu feito um espinho...

Eu sou igual a mim,

as dores me ensinaram

que até espelhos podem mentir

e a brincadeira sempre começa...

Fogo e água matam igualmente,

todos os tesões são iguais,

estômagos sempre doem,

o tempo dança sobre os caixões...

A estética dispensa detalhes,

a beleza não é imune à tristeza,

tudo acaba morrendo um dia

imerso na mais fria solidão...

Chamem depressa os lobos,

preciso uivar junto à eles,

depois corremos na madrugada

procurando nossas presas...

Voem seres da escuridão,

toda pressa é muito pouca,

vamos ganhando a altura

até não podermos mais...

Não me importo,

muitas são as desilusões,

todo sono será acordado,

poderão acabar os pesadelos...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...