sábado, 22 de maio de 2021

Barturê No Berdiar

 


Não me importo em ser o último desde que seja o primeiro. As suas feições me fazem tremer ao mesmo tempo que rio, como um rio que nem se cansa e nem para. Esqueceram as vírgulas lá trás e eu como um autômato bato palmas para minhas próprias misérias. Vesti uma armadura de seda e papelão suficientemente forte para os meus desamores, sejam eles quais forem. Sofrer pode até ter alguma vantagem nesse itinerário de labirinto.

Eu sou aquele que faz discursos numa língua morta para que todos entendam que o silêncio pode valer algumas moedas. A minha nudez constante acaba me causando náuseas e até aquilo que me esqueci com sofreguidão. Sua terra é muito fria, acenda-me uma fogueira e eu entrarei nela, será minha cama pelas noites em que aqui ficar. Eu não me importo de desenhar novos símbolos pelas cavernas de meus inconfessáveis desejos. Está tudo quase perdido e consumado.

O pássaro fugiu da gaiola, mas acabou voltando. De manducará pra lá toda a sina é lilás, mas sem repetições. Desde quando o pintor se feriu com excessivas cores que nenhuma água parou em terras. Descubra isso e até ganhará um doce. Ai, meu caramba! Não há mais coquinhos e nem extremas-unções para os vivos. O meu computador enlouqueceu de confissões e desejos inconfessáveis. Não há mais pão, só não. Tanto berro, quanto encerro.

De Pirituba pra cá é chão muito. Nem uma broa sobrou pra contar história. Pabulagem pura e acabou tudo. Sou do tempo que centavo era centavo. E as caixas grandes de madeira funcionavam depois de muita calma do freguês. Manoel já foi embora e Fernando foi junto, até nunca mais. Peço todos os dias que a genética tenha funcionado. De mim vou só mesmo, está muito é bom.

A quenga bebeu cachaça toda e nem tonteou. Foi isso? Ria que nem muíé do catiço e quase trepou na mesa e deu discurso e apontou dedo nas fuças de quem tivesse pigarro. Esteira pronta, ninguém quer deitar, sai todo mundo de fino sem fazer barulho no sapato. É assim que se vai e fica no mesmo lugar. 

Respiro com dificuldade mais de metro, é só sair alguma redondilha que o verso cai de maduro. Nem quero mais saber de saber nada. Os fuxicos todos acabaram-se e na mesa acabou a loura. Nem pé, só pó e assim caminha o caminho. Minha cabeça dói que nem Judas, mas mesmo assim nem ganhei. Ventana nunca foi ventania, ventarola, muito menos. 

No barturê, no Berdiar fiz até o que não podia...


(Texto extraído da obra "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida). 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Alguns Poemetos Sem Nome Número 101

 

A própria poeira se cansou

baixou na estrada

nem sei para onde vou

talvez para o nada

Não sei, não sabe, nunca sabemos

a vida é um livro que escrevemos

se lidos seremos é uma outra história...


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a mosca caiu no sal

o sal acertou na mosca

palavras e ideias brincam de roda

sobre a minha pobre cabeça

não há fatos verídicos

apenas mentiras mais fracas

evitar nossos sonhos

é o mesmo que prender o ar

acordamos pela manhã

como se todo mundo se chamasse Lázaro


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Tirei a cartola da cabeça

para começar à fazer mágicas

Descobri dia desses

que para ser rude desnecessito

de palavras tão amargas

O pombo que de lá saiu

era cinza como muitos são

Sempre se está em algum lugar

mesmo quando se chama nenhum

o nada acaba não existindo

As palmas lá da plateia

levei-as comigo com cuidado

Não tenho certeza

de quando ganharei outras

antes que o meu relógio pare...


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Vejo um filme sem trilha sonora

que faltam cores em suas tristes cenas

estou sentado numa velha poltrona empoeirada

e nem sei quando o filme começou ou terminará

presto atenção porque paguei caro pela entrada

alguns segundos e as cenas serão esquecidas

meu coração acaba se acelerando

todas as vidas são filmes velhos bem parecidos


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Não acredite em minhas boas intenções

eu mesmo acabo não acreditando

Eu fiz de uma lata de leite um cofre

onde guardo minhas saudades

Queria gastar cada moeda de recordação

para ter sorrisos que não tenho mais

Mas a avareza do tempo acaba me proibindo

e então me contento com seu barulho na lata


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Minha fraqueza acaba sendo forte

meus pesadelos acabam me divertindo

Encontrei a chave! Encontrei a chave!

Não tropeçarei mais pelas madrugadas

e nem correrei sem destino em escuras vielas

Se não posso evitar o inevitável

pelo menos dancemos juntos uma vez


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Tudo é quase igual, quase igual...

Godzilla surgindo na baía de Tóquio

ou uma joaninha com andando numa folha

são quase bem parecidos...

Tudo é quase igual, quase igual...

Troca-se apenas uma simples letra

e o caminha irá para o lado oposto

e o que gritava agora está calado...

Tudo é quase igual, quase igual...

Num jogo de bolinhas de gude

o Absoluto se diverte antes dos milagres...


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Penso-me bastante

antes que a morosidade da fila

vire alguma pressa

toda a embriaguez que não tive

agora me dói até demais

aqueles que foram antes

jogam dados com alguma paciência


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segunda-feira, 17 de maio de 2021

Quase Tango

 

Quase tango, quase espanto,

sem ter nada além do espaço

Uma história quando muito,

é a mistura de brisa e cansaço...

Quase pena, quase um luto,

perdeu a guerra, veio fracasso,

Tudo é simples enredo triste,

enredo que eu mesmo traço...

Não há mais gato e nem linha,

esse novelo eu mesmo embaraço

Mas foi tudo ou quase nada,

em cada dia eu morro e renasço...

Triste gosto, quase um veneno,

sou passarinho caindo no laço,

Me dói tudo ou quase tudo,

tome cuidado, nem mais um passo...

Quase um estilo, quase sono,

já fumei tudo, quase um maço,

Se te amei, eu não mais sei,

foi apenas um erro crasso...

Quase música, quase festa,

terno e rude tal qual o aço,

Façam silêncio, fechem a boca,

ouço passos lá no terraço...

Quase tango, quase espanto,

sem ter nada além do espaço

Uma história quando muito,

é a mistura de brisa e cansaço...

sábado, 15 de maio de 2021

De Estrelas e De Sol

 


Pontos distantes

quais meus sonhos

e meus olhos

que mesmo assim veem...

Eu queria estar o mais perto possível

de algum lugar que seja mais longe

de todas as tristezas que existem por aqui...

Pontos azuis

de variadas cores

que brincam 

sempre de mais infinitos...

Afastado de uma solidão não desejada

com milhões de lindas companheiras

que brincam de se esconder do dia...

Ponto sozinho

reinado mais triste

sobre o que passa

que me acalanta chorando...

Mesmo no luto de escuras nuvens

eis que a vida vence e sempre

até que não possa ter mais o sol...

Pontos meus

todos eles meus amores

perdidos por muitos lugares

até que eu os encontre de vez...

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Alguns Poemetos Sem Nome Número 101

Pobre relógio 

mais entediado do que eu

Tic-tac tic-tac

Olhando os dias que morrem

passivamente

Testemunha de todos os crimes

Boca quase calada

Não pode falar ou gritar

só repetindo feito louco:

Tic-tac tic-tac...


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 Nada e nem ninguém conhece o vento

Mesmo achando que sabe, não sabe

Nada e nem ninguém o detém

Os moinhos de Quixote que o digam

Nada e nem ninguém namora o vento

É ele que fala todas as juras de amor

Nada e nem ninguém assusta o vento

Ele nas madrugadas acorda os mortos...


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Não consigo evitar de ser rude

Um dia a ternura feriu-me

Até que perdesse meu fôlego


Nada impede que eu chore

Choro por cada sonho morto

Repousando no ataúde do peito


Impossível não mais lembrar

Dum tal arremedo de felicidade

Que enganou o menino um dia...


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Café em várias doses

Manhãs sem algum medo

(A noite passada já basta)...


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Guardei os menores versos

para a tristeza que veio

Não houve convite

mas assim mesmo ela chegou

Sente-se logo, tristeza

temos muito que conversar...


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Um inseto insiste em volta da lâmpada...

Morrerá ou virará a própria luz?

A flor insiste de colorir ao seu dia...

Até quando a morte não confiscará sua cor?

As nuvens brincam como fossem crianças...

Até que se cansem e caiam nos chãos?

Um apaixonado escreve suas cartas...

Serão lidas ou serão jogadas fora?

Um inseto insiste em volta da lâmpada...

Será que esse inseto será eu mesmo?...


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Um teto sem telhas

Onde a água escorre.

Um chão sem paredes

Ali o vento invade.

Uma porta sem chave

Entre quem quiser.

Uma janela sem encanto

Não mais o que ver.

A vida é simples casa

que o tempo desabou.


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Aves sem nome disputam lugar

Com flores inconfessas...

Onde está o jardim?

No chão ou no céu?

Eu nunca fui sábio

Para decifrar enigmas

E nem bravo o bastante

Para enfrentar eu mesmo.

Esperar a luz se acender

Ou o sol se apagar é parecido.

As águas que passam por aqui

Ainda andam em outros lugares...


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Paulinho Dançando Na Frente do Nada

 

Tá bom demais. Sedas rasgadas que nunca existiram. São festas muitas com a desgraça humana toda em pedacinhos. Nunca uma espiral foi tão precisa em seus golpes sem mãos. É quase um poema todo esse nom sense. Abismos sem cor, mas totalmente coloridos. Dá gosto não ver. E quando meus pesadelos me atacam, saem correndo pois sou vem pior que eles. Eu sou a queimadura da água que esfriou e a carícia de um fogo quase eterno. Muitas teorias foram feitas à meu respeito, mas nem uma delas me explicou por um simples segundo. Não sei onde ando, esqueci de perguntar aos meus pés. Porra, sô! A madrugada passou por aqui e esqueci de assediá-la. Enquanto os gatos dormem seu predador sono, os ratos rezam solenes por mais um tantinho. Minha elegância de andrajos comove o mundo, mas todos estão ocupados em suas redes sociais. Coloquei flores para todos os meus mortos, alguns deles até sorriram. Em nuvens cinzas escrevi um testamento que só pode ser lido pelos cegos. Não sei de mais nada tem quase meio século, a razão virou-me as costas na hora do gol. Não é para entender, o ator já agradeceu as palmas antes de cair de lá de cima. Alto de altas alturas. Nem os pombos se preocuparam com as mandigas que fizeram. O brilho das velas acesas atraem gregos e profanos. Quase assim e quase não. Por um triz que o veneno não entrou em minhas veias. O mundo é uma laranja que caiu do pé antes de ficar madura. Letras e gostos não fazem rir mais. Passou de moda, sim, senhor. Aqui faz muito frio quando não faz calor. E os bárbaros querem nos massacrar com suas flores. O carro está enguiçado, mas anda, quebra um galho danado para a metafísica mais importante. O beijo não houve e o que eu queria é o que eu menos tive. A fila anda, anda, anda, mas acabo não chegando minha derradeira vez. Nem sei o que poderia ser, só sei que me encharco as águas de todos os turvos brejos e saio sem perigo algum. É uma grande farsa que as letras arquitetaram para que ninguém percebesse as armadilhas do contrato. Os filósofos engoliram em seco, não há mais esfinges perguntando amenidades. Eu sei tudo, especialmente, o que nunca tive noção alguma. Poderia ter sido melhor ou pior. Dependendo do senso de humor de quando o destino chegou por aqui. O mapa se rasgou com o vento e caiu n'água. Juro por Nossa Senhora que era mentira e eu que menti mesmo. Não sou bom e nem sou mau, ser ridículo pode ser uma sina ou uma arte, um tiro certeiro ou uma sorte inusitada. Fiquem em silêncio absoluto que eu quero dançar...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 11 de maio de 2021

Uma de Tédio

Tédio drama

ninguém me ama 

ninguém ninguém...


Os metais substituíram as margaridas

os ruídos se apossaram dos sons

Sou como o cão lambendo suas feridas

já foram embora todos os sonhos bons...


Farsa trama

ninguém me chama

ninguém ninguém...


Os passarinhos não mais voam

estão cansados de tanto voar

E os meus pecados me amaldiçoam

não se importando com o meu penar


Água lama

ninguém telegrama

ninguém ninguém...


Todos os malvados riem de mim

sua maldade os acompanha

Todo começo tem sempre um fim

é apenas uma banal façanha


Valete dama

ninguém proclama

ninguém ninguém...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...