domingo, 19 de abril de 2015

Quem Me Dera


Quem me dera ter mais que dois olhos
Pra ver mais de perto essas ruas desertas
E uma primavera quase como que infinita
Onde as flores estão quase todas abertas

Me dera também ter mais de mil vidas

Pra amar esse amor que eu nunca tenho
Saber agora mesmo qual é o meu destino
De qual inferno ou de qual céu venho

Me dera ter coragem suficiente de gritar

Expulsar do templo todos os mercadores
Não importar com o prato cheio ou vazio
Levar numa boa todas as minhas dores

Quem me dera respirar o ar lá de fora

Não ficar trancado nessa pequena cela
Esperar que mais de mil cometas caiam
Mas sem esperar o final desta novela

Me dera ter todo o carinho mais terno

Gestos de ternura mais que suficientes
Pode rir e rir sempre e sempre mais
Ser o mais feliz por entre todas gentes

Me dera ter mais que dois olhos

Pra ver mais de perto essas ruas desertas
E uma vida mais do que apenas infinita
Acabando com a outra vida - a incerta...

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Toda Tristeza

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Toda tristeza, todo mal, toda solidão
Todos esses meus versos mais vadios
São apenas os dias mais que frios
Que acabaram com o meu coração

Todo sonho, todo riso, toda decepção

Toda essa esperança que já morreu
Foi apenas um segundo que se perdeu
Um cristal que caiu da minha mão

Toda a festa acabada, a boca dizendo não

Todos os olhos que agora estão fechados
E eu nem posso olhar para os lados
Sem sentir de mim alguma compaixão

Todo jogo, toda rima, toda morta estação

Mas eu queria porque apenas queria
Apenas um sol aquecendo a manhã fria
Porque quase nunca era quente, era verão

Todo esquema, todo roubo, todo milhão

Todos os brinquedos espalhados na praça
Todos os nossos êxitos com a desgraça
E aquilo que matou toda a nossa razão

Todo verso, todo reverso, toda imensidão

Dos meus gritos espalhados nos corredores
Por onde andarão todos os meus amores
Ficaram espalhados por essa imensidão!!!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Insaneana Brasileira Número 71 - Papagaios Curiosos

Resultado de imagem para revoada de papagaios
Nos poleiros à luz do sol. O que houve? O que é? O que vai? Em repetições maneiras e sem propósito - papagaios. Presos pelo pé em risos fartos. Sementes de girassol e muita satisfação sem frutas. É o que somos. Dá o pé loro! Cante o hino do time. Use a roupa da moda. Em tuas plumagens um verde mais ou menos sem gosto algum. O costume entorta a boca. E as fumaças sobem solenemente pelos ares. Sim. Coloquem fogo no fumo e nas fogueiras. Todos eles sobem aos céus. Todos os espelhos numa imagem só. Vide bula. Vide a vida. Vide a vide. E tudo mais. Na banca dos camelôs e nas vitrines dos shoppings. Palavras estrangeiras adaptadas. E quaisquer signos que pintarem. Os metais enferrujaram e perderam seu brilho original. Não usamos mais as capas dos vampiros. Nem temos mais medo do escuro. Porque a claridade se tornou ainda mais cruel. Eu me envelheci aos poucos. Mas aos poucos aceleradamente como se fosse de uma vez só. Porque guardei muita coisa que o vento tentou arrancar de mim. Eu tenho medo das alturas. Mas os bandos no alto ainda brincam pelos galhos generosos. Não e não e não. Até eu mesmo mistifico aquilo que acredito e também aquilo que pensei acreditar. Sou um cético. E só acredito nas mentiras mais absurdas e improváveis. Basta aparecer na televisão ou em outro eco qualquer. Pulemos de cabeça dos abismos mais altos. Não tem importância alguma. É só a vida que vai de uma vez. É só o estampido da arma do caçador. É a armadilha que disparou antes do tempo. É o cálculo falho que falhou. Tudo se perdeu num breve instante de atraso. Olhe para a câmera e não pense em mais nada. Seja o que for repita as palavras. É com graça que de graça dançamos. Olhem as gaiolas. Como ardem nossos olhos de uma felicidade de papel. Acendeu-se o fósforo e tudo acabou. Nem poesia há de sobrar...

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Culpa Não Foi Minha

A culpa não foi minha...
A culpa foi do sonho que brincava
Uma brincadeira para todos meninos
Entre todas as nuvens lá do céu...
Eram nuvens que embalavam meu sono
Nuvens branquinhas mais que algodão...

A culpa não foi minha...
A culpa foi do vento que dançava
Com o frenesi do bobo da corte
Em arrancar risos com suas histórias...
Eram histórias de todas as folhas caídas
Folhas caídas num chão de cores...

A culpa não foi minha...
A culpa foi da tristeza que herdei
Do coração das carpideiras 
E de todos os meninos que não têm nada...
Eram tristezas sem nenhuma culpa
Como as calçadas agora esquecidas...

A culpa não foi minha...
A culpa foi dos homens maus que andavam
Nas fileiras mais certinhas avançando
Indo levar escuras nuvens em terras distantes...
Eram nuvens que faziam chover sem água
E as águas andavam bem depressa...

A culpa não foi minha...
A culpa foi dos desatinos que estavam altos
Numa coreografia cada vez mais mágica
Em que o universo era uma coisa só
Com vários sóis e várias estrelas vadias...
Eram os meus céus todos os que eu fiz
Mas que nunca voltarão jamais...

A culpa não foi minha...

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Avis Rara

Resultado de imagem para fênix São tantas as penas e apenas isso. Fênix encontrada na esquina bem baratinha. É o show e a comédia em piadas imprecisas tão mais fáceis de se ver. Eu olho pela janela e nem sei quantos dias já se passaram. Códigos secretos em velhas guerras. Não há nada. Nem podemos na verdade reclamar. Eu hoje sei coisas mais simples e por isso mais profundas ainda. Vamos chorar cada dia mais. Porque o tempo nos abandona em passos largos. E a vida se faz apesar de toda morte. Eu queria brinquedos novos. Mas os velhos enterneciam bem mais meu coração. Música boa tocando no velho rádio. E as cenas bonitas de teatro. Olhem com atenção. Os versos que só podem ser feitos dentro do peito. Os poemas que falam de claros enigmas que só podem ser falados com os olhos. E as lágrimas são cristais que quebrarão mais cedo ou mais tarde. Nunca fale demasiadamente sobre as alegrias. Elas costumam fugir quando proclamadas. E para onde elas vão não temos acesso algum. Eu abro as portas para que a luz entre por elas e faça os grãos de poeira brilharem novamente. Todas elas são mais antigas dos que as da percepção. Eu trago em mim vários destinos. Principalmente aqueles que não vivi e que gostaria ter vivido. Cada nome diferente que não tive. Cada hora que passou em branco. Cada minuto engolido num turbilhão de águas. Choveu algum dia e na verdade eu nem vi. Eu dormia um sono que eu não queria. Tentei por longos segundos ficar de olhos abertos dentro da minha própria escuridão. Mas não pude. Era muito peso em minhas pálpebras e tudo caiu. Caiu como uma folha que pesa e muito. Esperem por mim. Esperem um pouco. Não sei correr direito e tudo agora me dói como sempre doeu. Muros e árvores não me viram. Mas o meu coração estava lá em cima. Eram solenes as minhas febres e mais nada tenho à declarar. Vocês não me conhecem. Na verdade nunca me conheceram. De anjo só tive as asas. Mas nunca fui em dias de procissões. Aquelas procissões em dias de frio que eu sempre queria ver. São sinais ou são bombas que agora caem dos céus? Não sei e pouco importa quando o tempo já foi...

quarta-feira, 1 de abril de 2015

E Eu Nem Senti Mais



Já é tarde e bem tarde, meu amor. Não que existam cenas especiais para isto. Só entardece. E um bando de borboletas azuis despropositadas procuram qualquer caminho que leve ao jardim. É triste saber que a mágoa é mais eterna do que as cicatrizes que agora levo comigo. São tantas que de algumas delas esqueci. Mas por certo doeram. Doeram como nunca, meu amor. E depois de certo tempo as lágrimas estavam cansadas para rolarem. Ficaram lá mesmo onde nasceram, nos olhos. Estes mesmos olhos entortados pela luz do lampião em profundezas de tempo que não voltam jamais. Eu até queria que fosse, meu amor. A velha casa, o velho carro e as antigas incertezas já mortas e bem mortas. Um vento forte ainda passa por sobre os tetos e isso me traz um silêncio só comparado aos funerais dos sozinhos e aos dos brinquedos quebrados num canto qualquer. Lívidas estão as minhas faces e trêmulas as minhas mãos e os pés jazem imóveis numa pose digna de antigas pinturas. Tudo era certo e tudo era novo, meu amor. Todas as coisas iriam convergindo para o mesmo ponto e os versos eram tão bonitos. Os versos? Sim, esses vieram aos milhares e aos milhões como um riacho que canta o tempo todo e faz suas horas extras pelas noites sem sono. Até o medo da noite era bonito e o bacurau me fazia rir dos passos que apressei no meu quintal. O quintal? Ainda possui em si recordações mais mortas que cenas de guerra num jornal diário. Agora já é tarde, meu amor. As dores que saíram de teus sonhos já me mataram e nem todo dia é finados, my dear. E nem sempre o circo chegou na cidade. E nem as luzes do parque se acenderam nos dias de carnaval. E eu só sinto a mesma dor lasciva dos Pierrots em seu momento de odiosa tristeza querendo o fim da trama e nenhum aplauso. Colombina não é tão graciosa como antes e é um corpo a mais. Não pense, não fale, meu amor. Certas doses quando repetidas causam mais embriaguez do que se imagina. E certas bocas apenas viciam, mas não têm mais o gosto de antes. Um beijo é apenas mais uma das acrobacias que gosto de fazer. Não me toques, meu amor. Eu mesmo te toquei e nem senti mais...

Faça Um Poema


Faça um poema das coisas que te afligem
Faça um poema das coisas que não fazem bem
Um poema feito dos versos da tua vertigem
E das coisas que foram todas para mais além

Faça um poema de todos os sonhos abortados

Ou dos planos que acabaram não dando certo
Faça um poema com os jardins abandonados
Ou com o teu caminho no meio do deserto

Faça um poema dos teus risos mais dementes

Faça um poema da tua vontade louca de dançar
Dos teus sintomas os que forem mais doentes
Ou desta fumaça que ainda perdura pelo ar

Faça um poema da esperança mais vadia

Um poema com todos os castelos imaginários
Onde não haja noite e reine apenas o dia
Que todos os sorrisos sejam sempre e vários

Faça um poema mesmo que seja só isto

Um simples poema e apenas nada mais
De um contentamento nunca antes visto
Querendo sempre mais outros dias de paz...

Eu faço um poema...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...