domingo, 15 de março de 2015

Choro Moderno (Uma Reflexão)

Todos choram e nem sabem porquê
Quando muito choram pelas inovações
Pelas novas roupas das velhas estações
E um medo incontrolável de se viver...

Todos gritam e nem sabem quando parar

É a nossa nova teoria mais tecnológica
A mais nova e grave gafe escatológica
São os amuletos que teremos que cultuar...

Como animais vamos seguindo em bando

Alguém correu então iremos todos correr
Alguém assinou a sentença iremos escrever
E vamos repetindo o que estão falando...

São os carnavais que a nossa mídia inventa

São as promessas que já foram quebradas
São todos os meninos que choram por nada
Um novo Leviatã que veio e se alimenta...

É uma nova cor que antes nunca foi vista

O caixa eletrônico não faz mais o saque
Aquele  mágico não se chama mais Mandrake
E nós acabamos na capa de uma revista...

Ouçam-me se puderem meus caros senhores

Sempre pensamos que sabemos o que é vida
Mas nem sabemos onde nós temos a ferida
Somos os doentes e não somos os doutores...

E esse que vos fala já está pra lá de farto

De ser a diária vítima de mais um furto
Deixem-me sossegado antes do meu surto
Pois que já chorei na hora do meu parto...

Todos choram e nem sabem porquê

Quando muito choram pelas inovações
Pelas novas roupas das velhas estações
E um medo incontrolável de se viver...

sexta-feira, 13 de março de 2015

Impossíveis


São estrelas mais decadentes
Com todos os seus repentes
Que eu não consigo mais esquecer
São como os meus parentes
E uma boca cheia de dentes
Uma história feliz sem acontecer

É a fama o drama a crítica franca

É a sagrada rama a arma branca
O carro que eu não consigo frear
É o desespero de uma Florbela Spanca
É a mula que não mais manca
Minha conjugação do verbo amar

Vamos que vamos todos andando

Com pés ao invés meus pés sangrando
Vou beber e fumar e respirar até cair
Num dia rindo e no outro chorando
Sem carnavais vamos comemorando
Até que cansarmos e vamos dormir

Novas novíssimas teorias à disposição

Aqui todo freguês tem sempre razão
Tentamos e tentaremos até caprichar
Rimas previsíveis de um ex-coração
Vamos encerrar toda essa questão
E já não há mais o que falar...

Quem Saberia?


Do amor quem saberia?
Da dor que era mania?
Da cor que não viria?

Quem sabe aí das madrugadas em pranto?
E das caminhadas que dei na noite em vão?
Sem um gesto de carinho, nenhum acalanto
E os meus sonhos perdidos, caídos no chão...

Do amor quem saberia?

Da dor que me vicia?
Do sabor que não sentia?

Quem sabe de todos os planos que falharam?

Que caíram como as peças de um dominó?
Sem ter porque os desejos já falharam
E os problemas apenas deram um nó...

Do amor quem saberia?

Da dor que me afligia?
Do horror que não via?

Quem sabe aí dos meus jardins já mortos?

E outros mortos que apenas partiram?
Nunca mais os barcos voltaram aos portos
E os que mais amavam apenas sumiram...

Do amor quem saberia?

Da dor minha companhia?
Do ardor que me consumia...

domingo, 8 de março de 2015

Insaneana Brasileira Número 67 - Mãos e Mãos

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Sem onde colocar as mãos. E ficar mais do que embaraçado. São as raízes de uma árvore fora do chão. É um gosto fora de gosto que não sabemos de onde vem. Guerras solitárias. E discursos feitos para as paredes. Sim as coisas escutam todos os solitários e nada mais pode ser feito. Os carneiros que são na verdade alguns ursos. E alguns domingos das cestas de natal. É bem verdade há que se o diga que meus castelos se desabam em cada instante. E eu falo sobre coisas que conheço mas não queria nem saber. Fora de propósito fora de toda culpa fazemos o que não queremos. As flautas mágicas estão fora do tom. E as serpentes já retornaram ao Jardim do Éden. Nunca fui famoso mas as ruas me conhecem e muito bem. Cada grão de pó sabe meu nome. E cada súplica conhece meus dedos. As unhas estão sujas e os anéis baratos estão enferrujados mas ambos são bons contadores de histórias. Ainda há sangue sob a pele. E vários pontos de interrogação sobre o mundo lá de fora. Tudo é à prestação. Nem a morte escapa disto. Tudo tão lentamente mas como um trem-bala. Meu nome é inusitado. E as sensações me fazem cambalear sobrevivendo do desamor. Espero que as águas do lago clareiam logo. Era um sonho frequente de duas águas numa vista só. Por onde andamos? Nos perdemos de nós mesmos. Ninguém sabe nos informar coisa alguma. Mesmo que se queira boa-vontade é artigo de luxo. Mesmo que se implore piedade é coisa fora de moda. São inúmeros livros com páginas em branco de uma história bonita que não aconteceu. Sim sim. Rimos e muito. As piadas são sobre nós mesmos. O tombo que levamos foi memorável. Até que muitos outros aconteceram e ficaram na fila. Vamos abrir velhas portas que escondem novos segredos de estado. E as outras mãos da história nos justificarão pelo menos uma vez. Se não é muito que baste...

sexta-feira, 6 de março de 2015

Eis O Homem

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Eis o homem...
Aquele que pesadela calmamente
Saudável com seu corpo doente
Racional com sua cabeça demente
Que faz como bicho e é gente...

Eis o homem...

Um mestre na arte da artimanha
Que até sua alma ele barganha
Que vai sentindo uma dor estranha
Que até da morte ele também ganha...

Eis o homem...

Que hoje lamenta por ter nascido
Que anda com seu coração ferido
Com os quatro carrascos dos sentidos
Que lamenta até quando tem vencido...

Eis o homem...

Incapaz de fazer qualquer sacrífico
Que transforma tudo no seu vício
Que gosta de brincar de precipício
E torna o bem apenas em malefício...

Eis o homem...

Que ameaça e arreganha seus dentes
Que pensa e que desconhece a mente
Andando na vida como fosse indigente
Que faz como bicho e é gente...

Eis o homem...

Vendaval

O vendaval levanta folhas... E levanta as saudades que moram no peito de um sonhador qualquer... Eram dias passados contados como um rosário que arrebentou... Um vidro bonito que acabou de cair no chão...
O vendaval levanta folhas... Muitas delas... Iguais às da fogueirinha que o menino tinha prazer em acender... Era um tempo inocente e mau como muitos outros... Ainda bem que existe saudade e o tempo não volta atrás... A saudade transforma tudo em coisa boa...
O vendaval levanta folhas... Pode ser aviso de chuva ou não... Quando o céu escurece temos tanto medo... Mas quando se ilumina nosso coração salta de mais alegria... Mas tudo é complicado porque ambos moram no mesmo lugar... 
O vendaval levanta folhas... Sem mãos ele é habilidoso... Sem pés corre mais ligeiro... Sem olhos nos persegue o tempo todo... Sem boca nos profere maldições inocentes que fazem chorar... Sem poesia nos traz figuras mais bonitas... Está sempre reclamando suas dádivas...
O vendaval levanta folhas... Seja quente ou seja frio - pouco importa... É nossa sina atravessá-lo em total solidão... É a marca que possuímos gravada na alma... É um dia após o outro em imprevisível rotina... Cada pedaço de um quebra-cabeças que falta uma peça... Não sabemos de nada... 
O vendaval levanta folhas... Como pesadas pedras fossem... Atingindo todos os alvos possíveis... Modificando todas as paisagens... Emprestando todo o cinza e todo o marrom... Fala num idioma sem letras as mais ponderáveis coisas possíveis... E num chão de quadrados sem ângulos faz seu bailado...
O vendaval levanta folhas... E traz águas também... Muitas águas também... Foram as águas que vieram de longe... Para uma festa que não aconteceu... Para a vida que agoniza e não morre... Como é teimosa toda celebração... E como todos os paradigmas se completam em celestiais batalhas...
O vendaval levanta folhas... E elas vão dançando... E dançando...

terça-feira, 3 de março de 2015

Insaneana Brasileira Número 66 - Segundo A Estupidez e A Idiotice Humanas


Um chapéu é um chapéu. E todas as coisas são o que são. Heróis da pátria ou parasitas sociais. Tudo depende do vidro. E a boca é o maior dos males do homem. E os cárceres estão lotados de boas intenções. Sim. Sim. Claro. Objeções à parte nosso esquema funciona. Viver mais um ano. Viver mais um mês. Viver mais um dia. Viver mais uma hora. E morrer por um minuto. Um pisão no pé. É o cachorro na boca do osso. É mais um sanduíche com o nome complicado. Fora tudo que não conhecemos! Novidades sim... Moda sempre... Inúmeras coisas sem sentido guardadas em um quarto todo desarrumado. E poesias sem palavras. E mapas sem lugares. Nada sabemos. E os descansos na sombra são pornograficamente desumanos in extremis. Há muito perdemos o tino. E o estado perdeu suas rédeas. O galope só é bom quando se pode escolher. Escolher? Nunca e depois... Antes eu chorava por algum motivo. Hoje choro por motivo algum. E observo nas manhãs os fins de noite. Quem sabe quais as histórias que já me contaram e eu as esqueci? Foram malvados todos os meus amigos. E seu riso foi fora de propósito. Há maldade até no espinho. E vários pães já foram negados. Serpentes de plumas e cães andaluzes não me amedrontam mais. Foi sua culpa meu amor foi sua culpa. Construir o demônio que eu sou pedaço por pedacinho. E na tua boca havia um país onde nunca coloquei meus pés. E naquela trança eu via todas as noturnas fogueiras. Vamos chutar castelos de areia e entristecer os meninos. A nossa maldade é só solidão. E eu faço mil planos que já falharam. A morte no ninho. E mais aquilo que vier. Porque o coração dos homens é o que é. A pizza grande de dois sabores. E os pequenos festejos que passam desapercebidos. Cada idioma sem expressar quase nada. Há guerras e desavenças. De uma forma até que boa. Porque o capital vale bem mais. Bem mais que brigas sobre alguns princípios básicos. Higiene pessoal e sujeira social. Inventar é muito bom. Inventar é genial. Os mesmos bibelôs que jazerão no fundo de um esquecimento mais que comum. Só dura algum tempo. Ah! Compre aí caro cidadão. É pra me ajudar. Me ajude senhor à comprar novidades de outras pessoas. A fruta da estação que eu não gosto. E as roupas que me crucificam novamente. As futilidades são o que são. O mais novo e o mais velho. Deus e o Diabo brincando de pular amarelinha...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...