sexta-feira, 16 de abril de 2021

Efeméride Para O Nada

 

Esquecimento

Mais um igual à tantos outros

Tudo passa

Mesmo que pedras sejam gravadas

Transformação constante

Em tristes lápides apagadas

O tempo tem apetite insaciável

Nem o autor conhece plenamente

Qual sua obra

Flores murchas e água parada

Insetos mortos em suicidas mergulhos

Ecos de um abismo raso

Novidades mortas

Um simples estalar de dedos

O que comemos ontem?

Se comemos

Um vento bom acabou enjoando

Só o imprevisível pode ser previsto

A razão dá sonoras gargalhadas

E nossos ouvidos zunem

O que não queríamos chega até nós

Castelos são mais fáceis de derrubar

O segundo dia matou o primeiro

Com requintes de terna crueldade

O primeiro momento foi o único

A inspiração morreu

O dinheiro acabou

Algumas fotos causam calafrios

Por sua extrema e mórbida beleza

O niilismo saiu à francesa

Que a verdade não seja dita

Tudo converge ao mesmo ponto

E o ar agora se rarefaz

Talvez só os versos permaneçam

Mas nem isso

Podemos afirmar com certa certeza...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Um Carro Bate No Meio do Poema (Poema Inspirado Num Verso de João Vicente Ramalho)

Um carro bate no meio do poema...

Meu poema era a noite mais enorme

Que o próprio espaço poderia ter...

Era meu corpo transmutado máquina...

Afinal é o que agora somos...

Foi mais rápido do que a luz

Que talvez não houvesse...

Faróis abrindo que nem olhos de susto

Para se apagarem para sempre...

Sem todavia qualquer morte

Porque a tristeza pode ser bem pior...

Apesar de todo barulho

Tenho quase certeza que ninguém escutou...

O som dos pneus derrapando

O metal sendo amassado de repente

Tenho quase certeza que ninguém escutou...

Ninguém sabe que horas eram

A madrugada não possui relógio...

A hora do sono... A hora do diabo...

Nossos anjos estão de férias...

Um carro bate no meio do poema...

Talvez nada que eu fale seja verdade

Por estar desmaiado entre as ferragens...

Ecce Homo (Texto de C.A. para C.A.)

Amo com insistência minhas lembranças, não me importo que de vez em quando sangrem como feridas que mexemos sem necessidade alguma. Para isso serve meu ainda coração: sentir ou lembrar que sentiu.

Não me sinto o melhor de todos, não por modéstia, mas pela realidade dos poucos troféus que um dia posso ter colecionado. Engana-se quem se acha o campeão de todas as coisas, muitos ganhos são perdas e, nesse caso o vice-versa funciona com perfeição.

Estou sempre à um simples passo do abismo, mas isso não possui importância alguma. A felicidade é o maior risco de todos e mesmo quando parece que não estamos procurando-a, na verdade estamos, mesmo que isso seja a coisa mais louca possível, tal como quem brinca de dar cabeçadas na parede.

Divirto-me com minhas próprias mancadas que, na verdade são muitas, é o que cada ser humano faz o tempo todo. O segundo que nos atrasamos, pode ser a chance perdida; o tombo captado pode ser o maior viral de todos os tempos, rir é a única opção que possuímos.

Sonho com tamanha insistência, assim como quem está com as mãos desprotegidas e vai colher muitas rosas. Seu perfume compensa cada expectativa que se cumpriu ou não.

Tenho procurado por todos esses anos que consegui ficar por aqui, algum sentido para aqui estar. Só consegui uma fraca pista: talvez a procura seja o objeto e não achar ser apenas um mero detalhe, depois de tanto tempo, desperdiçado ou não, isso é que realmente importa.

Estar em silêncio total ou gritando pode ser a mesma coisa, não modificarei o mundo como queria, mas modificar um pouco quem eu sou pode ser muito. Eu ando na vida como numa planície de areia movediça, mas quem não anda?

Gostaria de escrever palavras mais bonitas, versos geniais, poemas que fazem sorrir, mas elas não seriam as minhas, Não tenho culpa se a tristeza chega até os meus olhos e até ela merece ser falada.

O sol aparece novamente, mais um dia está fadado a vir e morrer, assim como tudo que existe ou poderia existir. A grandiosidade e a mediocridade têm que dividir seu espaço sem reclamações de ambos os lados.

Não sei quando morrerei, na verdade ninguém sabe, se pensa que sabe, falta-lhe certeza absoluta, assim como tudo que há. Só sabemos que ela é pontual em cumprir sua agenda, isso desde o começo dos tempos...

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Pandemia

Pandemia

Pandemônio

Pai demônio

Viva o caos!

Viva os maus!


Uma fila interminável de pedintes

Uma sequência apática de ouvintes

Lógica torta filosofia morta...


Desprezados

Desprezos

Diz presos

Viva a fera!

Viva a quimera!


Uma fome insaciável de vagabundo

Uma logística de destruir o mundo

O que restou pouco se importou...


Pandemia

Pandemônio

Pan demônio

Fique quieta 

Saia da reta!...


(Extraído do livro "Palavras Modernas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

terça-feira, 6 de abril de 2021

Poesia Marginal 2 ou Todo Mundo

 

Todo mundo, porra nenhuma,

Sem diferença entre a pedra e a pluma,

Que sobreviva quem assim pode,

Quem ama transa, quem deseja - fode

Quem tem fome apenas engole,

Quem tem medo, corre, escapole


Todo mundo, quase tudo,

Vive bem mais quem for mudo,

Anda bem mais quem for cego,

O Eu já morreu, ficou o ego

Aquele que tem uma casa - mora,

Se não há roupa, é de bunda de fora


Todo mundo, mesma putada,

Cada ser humano vale o seu nada,

O seu nada guardado com carinho,

A rosa vale bem menos que o espinho,

O prato do dia é mais um prato vazio,

Até o fogo agora está sentindo frio


Todo mundo, toda malta,

A dignidade humana está em falta,

A maldade chegou e veio para ficar,

Quem veio me desmentir venha cá,

Está tudo acabado antes mesmo do fim,

O fim está quando a máscara cai,

Quando o amor deu tchau e se vai


Todo mundo, todo animal,

Pecado pequeno ou pecado capital,

Somos assim, sabendo ou sabendo não,

Qualquer negócio, esporte ou diversão,

Quem tem apenas um olho é o rei,

É a verdade: Eu só sei que nada sei...


Todo mundo, toda alcateia,

Queremos todas as palmas da plateia,

Também os likes que os dedos suportarem,

Todos os amores que não nos amarem,

Toda sutileza tem sempre um quê de rude

Assim como toda batalha termina em nude


Todo mundo, porra nenhuma,

Tentar viver antes que tudo se consuma,

Que reste de nós apenas o nosso nome,

A nossa decepção, a nossa derrota, a fome

E a morte virá em apenas em um segundo,

Acabando tudo, acabando todo mundo...

domingo, 4 de abril de 2021

Poesia Marginal 1

Não preciso ser bom, nem preciso ser mal,

Só preciso ficar bem à vontade,

Tomar banho na tempestade,

Dançar sob este temporal...


Não preciso me esconder, nem me exibir,

Só preciso ser aquilo que sou,

Pelos caminhos que eu vou,

Tanto faz chegar ou partir...


Não preciso ser largado, nem preciso ser formal,

Desde que fale o que quero,

Nada mais eu espero,

Acabou meu carnaval...


Não preciso ser o mocinho ou ser o vilão,

Posso ser qualquer um dos dois,

O que vem antes ou vem depois,

Qualquer uma estação...


Não preciso ser sussurro, nem preciso ser jornal,

Eu sou o passar de todos anos,

Todos acertos, todos enganos,

Nada que seja excepcional...


Não preciso ser a ofensa, nem ser a prece,

Nem o afago e nem a ferida,

Sou a morte, mas sou a vida,

O que definha ou cresce...


Não preciso ser o mundo, nem o quintal,

Sou luz da noite, sou luz do dia,

Apenas um pouquinho de poesia

Que chamam de marginal...

Um Meu Outro Silêncio

 

Ando...

E por onde andar

minha sombra me perseguirá...

Junto com ela minha dor

o culpado foi o meu amor...

Olho para o chão...

É aonde posso olhar

pois meu segredo ninguém verá...

Não quero ver as estrelas

não há mais porque vê-las...

A boca se cala...

Não há mais o que cantar

não há motivo não há...

Já se passou o tempo

e agora só há contratempo...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...