sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Não Há Segredos (Desesperadamente Sem Desespero)

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Não há mais segredos
e o tempo passa como números
numa caixa registradora...
Fingimos um certo encanto
poque a etiqueta manda
e estamos aqui à cumprir ordens...
Os pássaros estão cansados
e agora certos galhos
estão servindo como fast-foods...
As guerras continuam por aí
e estamos mais ou menos irritados
porque sabemos tudo de antemão...
Eu até gostaria de novas coisas
mas assim como todo mundo
a vida usa de velhas correntes...
Não que eu esteja desenganado
porque até o nosso desengano
acaba faltando na lista de compras...
Todo carrasco entrega seu pescoço
à um outro carrasco que o substituiu
pois hoje era o seu dia de folga...
Podem apagar essas luzes coloridas
os começos dependem dos finais
e nós nem reparamos nessa morbidez...
Um dia fui um menino tímido
hoje continuo sendo um velho tímido
mas acabei aprendendo à gritar...
O meu cinzeiro cumpre bem o seu papel
tenho mais marcas na alma do que na pele
e essa maldita teimosia de viver não me larga...
Em algumas vezes acabo pensando
que parece que não sou esquecido nem lembrado
será que me enganei e nunca existi?.,,

Vento do Sol

já aprendi que quase todos os amarelos
são laranjas um pouco mais discretos
e assim vão se sucedendo tudo que há
as fatalidades são sugestões do cardápio
e abismos são locais como quaisquer outros
briguei por certas expressões a vida inteira
e hoje vejo como as letras brincaram comigo
quanto mais embriagado mais lúcido baby
não tenho compromisso algum até às quatro
já olhei em todos estes meus bolsos
e o medo deve ter se perdido pelo caminho
cada poema que faço é assistir um parto
em que dolorosamente rio de pura aflição
há muito apertei o botão do controle remoto
e acabaram-se todos os dilemas de meu tempo
nada mais me resta senão o que nos restou
demorei mas aprendi o idioma dos meus olhos
e neste ponto não precisei de mais nada
se for para jogar futebol chamarei a morte
a vida é muito perna-de-pau e exigente demais
quer tudo muito perfeito e eu sou ruim de tiro
estou dispensando de agora em diante
toda piedade que me faz crescer às avessas
sei que fracassos podem até ser vitórias
quando alguma coisa sobrou neste front
a madrugada inteira fiquei insone e dormi agora
é tarde demais para os passos que deu retrocederem
mas novas festas ainda são e serão bem vindas
eu gosto muito de falar de coisas que não entendo
as que eu entendo estão todas já arrumadas na gaveta
e não quero ter dois trabalhos ao invés de um só
basta! estou cansado demais desse cansaço
e o ar que me cerca é curioso demais para tal
e suas perguntas produzem um tédio que dispenso
é fato consumado que os poetas e os bandoleiros
nestes tempos de chumbo que sempre se anunciam
ainda olham para o mais adiante com certa paixão
cuidado! ter cuidado demais é errar no sal
as batucadas ainda podem varar noite adentro
e podemos ter saudades até do que nunca tivemos
as mesas não foram somente feitas para comer
deitam-se nelas até os que um dia oprimiram
o balanço da rede é inevitável segundo as leis da física
o destino é um camelô cheio de algumas novidades
vamos brincar de antagonismos que nos afligem
e acabamos esquecendo toda a nossa fala
é que algumas vezes me esqueço que sou humano
e é nessas raras vezes que consigo ser feliz
pegarei todos os meus vícios e lhes darei uma medalha
minhas virtudes ficam no sofá da sala vendo novela
eu queria haicais como borboletas em bando
mas os metais ainda sabem confundir muito bem
é fascinante o encanto de certas estampas antigas
atravessar as paredes já virou um lugar-comum
e até a tua beleza ficou um pouco sem graça
quando coloco as reticências o menino até chora...

(Extraído o livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Rápida Eternidade

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Rápida eternidade,
passageira, fugaz,
esconde todas as cartas,
só mostra - o ás

Instante congelado,
não há o mais,
passa sempre apressado
nem olha atrás

Festa que começa,
foi tudo, bem mais
vários nascimentos,
alguns funerais

Não dá tempo de pensar,
há sempre temporais,
todas os enigmas,
adivinhe-me se for capaz

É tudo inédito,
não esperamos jamais,
fomos pegos de surpresa,
jantar com os canibais

Agonia verdadeira,
esperamos demais,
até o tempo espera,
traga logo meus sais

Rápida eternidade,
passageira, fugaz,
esconde todos os fatos,
só mostra o que traz...

Carta Para As Duas Belas

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Desculpe-me, minha cara, sei que reclamas a minha presença desde o meu primeiro despertar. Sei que o nosso encontro é inevitável, poderá acontecer qualquer hora dessas, mas por ora, não.
Posso estar errado, como da maioria das vezes minha acontece, mas é o que acho. Ainda existem alguns sóis em algumas manhãs que mirarei. Quero ainda escutar aquela canção sem nome e sem letra que me lembras de muitas coisas que quase esqueci. Algumas chuvas também me surpreenderão enquanto vou pelo caminho.
Não importa, se chorarei mais algumas vezes, isso consta do script da grande peça que tenho minha participação. Ainda preciso viver mais algum amor talvez e se ele não existir, pelo menos alguns suspiros ofertarei ao silêncio das paredes do meu quarto.
Sei que o tempo me consome, não sou mais o mesmo, no meu rosto as rugas chegam e aquele meu sorriso se vai. Não tem importância alguma, aprendi o maior segredo de todos - rir. Rio agora das ilusões que um dia quis, rio do impossível que acompanhou certos sonhos. 
Muitos amores que eu queria, já foram; muitos que amei, também seguiram por aí. Alguns pelo mundo, outros foram contigo. Por que então pressa? Um dia encontrarei á todos e nesse dia seremos felizes.
Não coloque essa máscara, não adianta fingir. Sei que ambas são belas, apesar de tantos medos. 
No meio da noite já sei procurar as estrelas, é tudo tão certo e tão simples como quem navega usando suas cartas. Há muitos portos ainda e eu ainda procuro o meu.
Ainda faltam alguns passos de minha dança, fogueiras que ainda serão acesas, histórias que não foram contadas quero ainda algum carnaval para poder usar a minha fantasia.
O dia a dia é meu inimigo, o tédio tenta envenenar minhas veias, eu tenho um coração ferido pelas dores do mundo, sei que às vezes faltam-me ternura e compaixão, paciência e piedade, mas sou isso que todos podem ver. 
Eu sou a dicotomia frequente de bem e mal, em meu ser o anjo usa suas asas para pairar entre as nuvens e o demônio rasteja em seu abismo com suas pesadas correntes. Aqui em meu peito estão juntos o enigma e a resposta, a doença e a cura; assim como em minha mente convivem juntos o sonho e o pesadelo.
Prometo que se ganhar vários anos, mais alguns meses, ou semanas, ou apenas um dia, tudo será usado da mesma forma. Não pretendo fazer castelos que rasguem os céus, os ventos do correr do tempo transformam pedras em cartas e elas sempre caem. Não me importa fazer grandes feitos, a memória dos homens é muito curta, não é meu objetivo ficar guardado em páginas empoeiradas em velhas e indiferentes prateleiras. Pretendo fazer outra coisa - apenas viver.
Existem coisas que por serem simples, passam desapercebidas da maioria, mas são elas que possuem real valor. O sorriso que darei para a criança que passa na rua e foi retribuído será tão eterno quanto o brilho das estrelas. O bom dia que dei para a pessoa de aparência triste e mau-humorada em alguma coisa mudará o curso da história. Olá, pequenas flores sem nome, seu trabalho em colorir o mundo e diminuir a tristeza está sendo bem executado, meus parabéns! Ainda não tinha reparado, mas que canção bonita, vocês, senhores passarinhos, cantam todos os dias sem se cansar. O cão de rua abanou-me a cauda e, reparando bem. ele consegue ser muito simpático. 
Desculpe-me se algumas vezes te chamei, minha cara, no fundo eu sei que não existe nem inimizade e nem adversidade entre nós, a tua tarefa é mal compreendida pelas histórias que sempre nos contaram por aí. Hoje compreendo que tudo tem sua hora e és muito ocupada e pontual em teu serviço. 
Na verdade, não és o acabar das festas e nem sequer o apagar das fogueiras. Não és o fim do amor, mas o verdadeiro perpetuar deste. És a prova maior da grandeza do Criador, toda vez que o ovo se quebra e a semente se transforma, todas as vezes que o fogo sacrifica os metais e o diamante sofre ao ser lapidado. Toda dor incomoda, mas passa, ou pelo menos se ameniza; todo sofrimento machuca, mas ensina.
Desculpe-me se pensei em algum instante em te incomodar, alguns outros assim o fizeram (e não irei julgá-los por isso), mas eu não. Tentarei ser como a pedra sob a chuva, esperarei a vinda de um outro novo sol. Ainda, por onde andarás, escutarás minhas queixas, minhas muitas queixas, mas não ligue, não se importe, não atenda meus pedidos, serão apenas meu modo louco de reclamar mais por hábito do que por necessidade, sou assim mesmo. Afinal, isso faz parte de nós, eternos sonhadores que somos.
Outra bela, fiel companheira, aqui estou, não repare na lágrima que escorre agora em meu rosto, é assim mesmo...

(Para Beth Albuquerque, com todo o carinho do mundo).

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Vento Sagrado

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Vento que entra pelas narinas. São sinas. Esquinas. Em meus passos mais desencontrados. São certos. Errados. Eu não sei mais quem mesmo sou. Sou pai. Sou filho. Avô. Acerto. Errou. Onde ando tem perigo. Nem ligo. O abrigo. É o céu. Um véu. Um léu. Olha que eu faço escarcéu. Dedéu. Uma guerra de travesseiros. São bons. Maneiros. Não faço até muita questão. Tenha dó e tenha compaixão. Que nada. Que não. Sou apenas mais um safado. Um tonto. Embriagado. Quem me dera ter acertado. Nessa tal loteria. É noite. É dia. Por favor. Me volta Maria. Não tenho. Engenho. Mais nenhuma alegria.
Vento que escorre no rosto. Que gosto. Desgosto. Acabei arranjando um sanhaço. Bufão. Palhaço. Pode sobrar até algum traço. Ferido. Perdido no espaço. Estela. Estrela. Tão bela. É triste não tê-la. Perdê-la. Novela. Não vê-la. Não me dê mais um tiro. Me firo. Socorro! Chama logo essa enfermeira. Madeira. Maneira. Eu não passo de uma caveira. Cadeira. Esteira. Eu não passo de página virada. Sem sorte. Nem morte. Nem nada. Escorre água pela parede. É um verde. É a sede. Não veja. Vede. Nu pela cidade. Não venha. Falta tudo. Falta até a idade. Sou mais velho que as montanhas. Deixe em paz. Bem mais. As minhas próprias entranhas.
Vento que fala aos ouvidos. Abelhas. Centelhas. Zumbido em meus ouvidos. Parentes. Serpentes. Fica o sorriso e vão-se os dentes. Acho que estamos dementes. Tão iguais e tão diferentes. Não ouse e nem tente. Coloque nos teus cabelos um permanente. Nem sou. Nem gente. Mas o problema é que sou imortal. Geral. Onde é que está meu mingau? É fita. Bonita. Maldita. Atrás de conversa vem o engano. Um dia ainda viro ser humano. Sem pano. Sem dano. Meu mano. Vê se adivinha o que eu trago. Um trago. Um rasgo. Sou novo gangster lá de Chicago. Feliz. Tempo vago. 
Vento que traz cisco nos olhos. Que faz a lágrima rolar. Tenho não tenho. No cenho. Mais o que chorar. Morreu. O meu. O seu. O nosso verbo amar. E a musa. Escusa. Com seios fora da blusa. Me tenta. Aguenta. O rio que vai pro mar. Estamos. Gritamos. Escutem o meu cantar. Não importa. Se é morta. Que pode até ressuscitar. É fêmea. A blasfêmia. A pele é de jaguar. Em rima. Em cima. Se formou um bafafá. Laranja. Estranja. É o que agora há. Mendigo. Perigo. Um pingo. A goteira há de pingar.
Vento que arrepia a alma. Sem calma. Eu quero agora correr. O tempo. Contratempo. Ainda quero viver. Não é mole. Mais um gole. Toque o fole. Me escapole Tudo que já vivi. Aqui. E Dali. Segura na minha mão. É queixume. É ciúme. Mas faço até questão. Largue a arma. Segue o Karma. Uma vida. Outra vida. Fala vida. Tão querida. Me jogo no precipício. Foi assim. Ai de mim. Teimar virou um vício. As madeixas. Várias queixas. Várias deixa. Não me deixa. Falo nada. Vou na estrada. Subo a escada. Minha fada. Mais danada. Sabe nada. Que eu sempre quis. Um tango lá em Paris. 
Vento sagrado. Tudo acabou. Está parado...

(Para o jovem poeta Júlio Morikawa Filho, mais um poema).

Vamos Matar O Poema?

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Eis o nosso grande plano
Cortar o poema em pedaços
Ou julgá-lo sem defesa
Culpá-lo de nossos fracassos

Apontar o dedo em sua cara
Mostrar todo nosso asco
Torturá-lo de várias maneiras
Depois entregá-lo ao carrasco

Contar várias mentiras
Falar de atrocidades que não fez
Dizer que ele não presta
E que já virou um burguês

Tirar todo o seu interesse
Fazê-lo ser esquecido aos poucos
Mostrar todos seus perigos
Interná-lo num asilo de loucos

Vamos então vilipendiá-lo
Cortar sua carne de navalha
Dar vários tiros no peito
Tombá-lo no campo de batalha

Vamos profanar sua musa
Acabar de vez a inocência
Fazê-lo perder as contas
Esgotar sua paciência

Vamos matar logo o poema?
Vamos encerrar esse assunto
Mas vou logo avisando
Se ele morrer eu vou junto...

domingo, 2 de dezembro de 2018

Eu Sou, Eu Sim, Eu Não, Mais Uma Vez

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Mais uma vez no palco da vida. Vida mal planejada, mal encenada, mal aplaudida, mas vivida. Em gestos aflitos sem nenhuma compaixão. Somos o que somos, humanos sem dúvida, escolhendo palavras absurdamente piedosas para a nossa falta de compaixão. Eis o que fazemos - tentamos explicar o inexplicável e reparar o irreparável, réu e juiz ao mesmo tempo.
Mais uma vez na mira da morte. Com medos inconfessáveis à nós mesmos, contamos cada segundo que passa de forma instintiva. A nossa vela pode apagar, nosso castelo de cartas desmoronar e para isso basta um sopro, basta um gestou, bastam simples palavras. Rei morto, rei posto. O fatalismo da lógica nos oferece uma coragem por vezes insana.
Mais uma vez nas mãos do tempo. As raízes cresceram, estão firmes, mas acabam secando. Tudo passa, quase nada importa, só os sonhos se escondem nas entranhas da alma e ali sobrevivem. O desejo é o papel pega-moscas e a teimosia é a cola. O café esfriou, mas é o que temos. A realidade não é nossa inimiga, houve um grande engano. Ela só quer nos livrar das decepções, as ilusões são venenos mortais, são inimigas dos verdadeiros sonhos.
Mais uma vez por entre as sombras. Procurando motivos pra partir ou ficar. Nada possui uma explicação possível, mas assim é e assim o será sempre. O mistério é o tempero de tudo o que há, evidência e enigma comem no mesmo prato, bem no mesmo copo e dormem na mesma cama. Isso não é problema algum, só os tolos insistem nisso.
Mais uma vez junto aos fantasmas do passado. Cada vez mais a loucura não tem me visitado, isso é deveras preocupante. Sem ela os meus pés adormecem, os meus braços doem e o sono do conformismo acaba fechando meus pobres olhos. O maior perigo que podemos correr é achar que não corremos perigo algum.
Mais uma vez entre os perigos, sejam eles incomuns ou cotidianos, sejam eles os que o invento ou aqueles que são como a maré que sobe. O choro é inevitável, dispensando adjetivos e superlativos para sua presença. 
O vento sopra agora, pode ser bom ou não...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...