terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Até Que Se Prove Ao Contrário

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Até que se prove ao contrário
sou apenas mais um otário
que te ama
que reclama
dessas coisas da vida
como dói a ferida
tão maldita
tão bonita

Até que se prove ao contrário
faz falta o meu numerário
pra poder fugir 
pra bem longe daqui
pra lá de Madagascar
peraí pera lá
não descanso
calma o leão é manso

Até que se prove ao contrário
ganhei no terceiro páreo
tão menina
e arlequina
não vale o que come
nem tem nome
vamos encher a cara
minha joia nada rara

Até que se prove ao contrário
sou apenas um operário
esmagado na engrenagem
vejam só sacanagem
engoliram minha poesia
quem falou quem diria
esqueça tudo isso
o sanhaço reboliço

Até que se prove ao contrário
sou apenas mais um otário
que te ama...

Xeque Mate

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Em todas as dores que minhas carnes sentiram
E em todas as velas dos barcos que partiram

Nome sempre lembrado
Meu certo errado
Nem olho pro lado

Somos loucos e nossas loucuras deliram
E até nossas flores de plástico se abriram

Meu sonho dourado
Castelo encantado
Bem morto e enterrado

Lá vêm os marimbondos que nossas mãos buliram
São como revólveres que sempre nos atiram

O enigma será decifrado
Demônio bem-comportado
A aposta o dado lançado

Talvez outras mentiras todos assim o prefiram
Pois muitos pelo caminho já o desistiram

Feito o acordo e assinado
Já é fato consumado
Quem dera ter errado

Acabou e as carpideiras não mais carpiram
E até os ídolos de pedra quase sorriram

Nome sempre lembrado
Meu certo errado
O rei está derrubado...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

UrbanIdade Número 2 ou Sol Barato

Um sol barato nos alumia aqui e agora. Quase como os casos mais incríveis que os finados folhetins o podiam dizer. Está tudo acabado. Velhas coisas fazendo muita falta. Não me incomodo mais. Nem nas horas que a maior tristeza passa por aqui para dar um "oi" e ir para outras paragens. 
O lixo já faz parte de nossa paisagem. E os ares? São os mesmos em sinais de franca depressão. Realmente, meu filho, acabou tudo que termina. Eu já frequentava os salões antes mesmo deles serem construídos. Tudo agora é apenas novidades. As engrenagens enferrujam ou são os meus dedos...
Vai? Há mais drogas do que se possa pensar. Umas de tarja preta, outras proibidas e outras de franco acesso. Essas são as mais perigosas. Quando se vê, esticou o pernil. Aí só que os sinos dobrem. É Mia um romance interrompido. Puro mau gosto. Brincadeiras à parte, os coveiros precisam beber.
Ao ligarmos o aparelho, um medo nos bate. Será o tão esperado final? Até a piedade nos dá pesadelos e alguns bons homens possuem um sorriso malvado no canto da boca. A emenda não ficou pior que o soneto. Não há mais soneto algum e os poetas estão com preguiça. Nada é mais genial do que aquilo que esvazia nossos bolsos.
Não entenderam? Que bom... Assim pelo menos não lhes afligirá pensar coisa alguma. Pensar dói e como dói. Falem com os filósofos ou com os generais da banda. Uma descrença mais incrível que a outra. Os preconceitos são hábeis na arte de se travestir. Cabeças e machados são a mais perfeita combinação.
Onde tem uma fila por aí? Sinto falta do cansaço e da inutilidade dos dias. Há de tudo nos catálogos das grandes lojas de departamento. O menino bonito aponta a pistola em direção à sua própria cabeça e atira. Mesmo que sobreviva, agora a morte possui alguns novos truques em sua cartola. Viver morto é pior ainda...
Acabei de fazer meu testamento. Deixo meus versos tortos para quem os desejar. Com uma única condição: nunca mais chore em público. A piedade anda fora de moda. Minhas paixões podem ficar com quem está cansado demais de rir sem motivo algum. Muitos agora só conseguem rir desta maneira. Os amores, não posso deixar com ninguém, me desculpe. Esses entranharam na minha alma antiquada e descerão ao túmulo comigo...
Um sol barato nos alumia aqui e agora. Eu até gostaria de fugir de sua presença. Mas me apaixono rápido demais, até das coisas feias que andam por aí...

Tola Ciência

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Riu da piada que não entendeu
Curtiu a música que não escutou
Não sabe ler o que ele escreveu
Nunca amou aquela que amou

Assim é o tolo e assim o será
Quem de sua tolice pode duvidar?...

Andou por caminhos que desconhece
Caiu em suas próprias armadilhas
Ofendeu a divindade com sua prece
Seus atalhos aumentam em milhas

Assim é o tolo e assim o será
Mesmo sem cair há de se machucar...

Deu opinião naquilo que não entende
É escravo de suas próprias ilusões
As lições da vida nunca ele aprende
Teve medo das próprias conspirações

Assim é o tolo e assim o será
Com seu final triste de se observar...

Comeu aquilo que lhe envenena
Se intoxicou e nem se respeita
Só teve piedade para fazer cena
A morte vem sem deixar suspeita

Assim é o tolo e assim o será
Sua presença dá mau cheiro ao ar...

Concordou com o que se concorda
Verdade ou mentira isso pouco importa
Vai ser enforcado e fabricou a corda
É imortal e tem apenas a alma morta

Assim é o tolo e assim o será
Grandes tolices é o que pode executar...

domingo, 6 de janeiro de 2019

Poema do Talvez

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Talvez no meio desse lixo
eu encontre uma flor
ou no meio do desespero
eu encontre um amor

No meio dessa angústia
a esperança renasça
e como num milagre
o milagre assim se faça

Talvez no meio desse choro
o riso então apareça
e no meio de tantos pesadelos
meu sonho enfim cresça

No meio dessa mentira
a verdade dê seu grito
e no meio dos escombros
um algo bem mais bonito

Talvez no meio dos metais
eu encontre um coração
e para todos meus pecados
surja do nada a compaixão

No meio do que foi embora
um algo que não se perdeu
e no meio da multidão
ainda lá estarei eu...

UrbanIdade Número 1 ou Triste Passeio

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Passo em meio à sujeira incontinente
Como deveria e não deveria ser
Meio bicho e também meio que gente
No difícil ofício de me esconder

Desvio-me dos eventuais escombros
De meu tempo, tentativa desastrosa
Indiferente à maldade dou de ombros
E, de certa forma, minha maldade goza

A culpa foi minha, mas não sou culpado
Contraditório é o nosso infeliz veredito
Humano sou e, humanamente errado

Vou levando em mim o dito por não dito
Até o dia que seja enfim morto e acordado
E tenha assim um sonho mais bonito

sábado, 5 de janeiro de 2019

A Tempestade

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Não era noite. Se fosse, talvez isso valesse de explicação para o céu que agora entristecia como o semblante de um viúvo que maldiz a morte que ainda não lhe chegou. Sim, muitas vezes o pesadelo alheio pode ser nosso sonho...
Nem tão-pouco madrugada. Antes fosse, com sua chuva de tantas estrelas, com seu festival de luzes todas acesas e tantos bichos que enfeitam tudo com seu mistério e seu mais discreto silêncio. Não posso negar, não teria medo se o sono comigo estivesse...
Também tarde não era. As tardes tem um quê de muita saudade, como nos tempos passados quando o carro antigo e negro rodava por também antigas ruas. Eu gostava de ver as gotas que escorriam no vidro em dias quase feios e a zanga do mar em outros tantos. Minh'alma morreu e eu nem vi?
Era manhã e quando vi já havia acontecido. Como um quadro surreal o tempo fechou suas portas e a esperança fechou suas janelas. O vento rodopiou em várias pragas proferidas ao acaso, antigos sortilégios renasceram de seus jazigos  O menino estarrecido abriu seus olhos e cerrou as mãos. As nuvens escuras são nossos inimigos...
Qual uma banda mal ensaiada, trovões reclamavam da vida e coriscos exibiam seus flautins reluzentes. Que comece o espetáculo, assim deve ser, assim o será. Que as folhas mortas ressuscitem em sua triste dança, o cheiro de terra alcance nossas narinas, que os pequenos calhaus sigam seu caminho desnorteados... 
A tempestade está assim formada. Não há como evitar, não há como fugir. Com ela as tristezas virão em bando, com ela a esperança há de uma hora partir. Não tenham medo, eu já o tive um dia e agora sei que isso de pouco ou nada adianta. Olhemos o abismo com certa coragem, mesmo que a coragem não seja a nossa. 
Eis a tempestade! Não mais lá fora, mas aqui dentro de mim...

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...