domingo, 18 de outubro de 2026

Divagações

E o futuro é um passado que tem pressa.

Colocarei meus óculos para enxergar menos.

Minhas perguntas acabam se cansando.

Viver é morrer com uma forma mais enganosa.

Política é uma faca sem ter gume nenhum.

O louva-a-deus não sabe fazer algum louvor.

Toda vez que eu escuto Frida eu me calo.

A falácia tem um problema sério de gagueira.

Só vou me matar quando a segunda for quinta.

Antes do gosto chegar na boca vem aos olhos.

A burguesia sempre precisa de desodorante.

Só existe uma palavra perfeita e será essa.

Toda doença é como se fosse auto-punitiva.

Era tanto doce que até minha boca amargou.

Quero pés flutuantes para minha embriaguez.

Nem sempre a luz é apagada com um sopro.

O dinheiro envelhece dentro de qualquer bolso.

A realidade dos sonhos é composta de ilusão.

Para os cemitérios não existem explicações.

Mordi minha língua e não senti nenhum gosto.

Não existem risos para piadas sem graça.

Só teremos uma pneumonia de vez em quando.

O mundo foi feito em seis dias e no sétimo baile.

Aqui só se come quem tiver escrito o seu nome.

Hoje estou terrivelmente suave como uma pedra.

Para o verme passear dispensa-se a lua cheia.

Nunca iremos esquecer deste nosso esquecimento.

Hoje faltou tinta para escurecermos a meia-noite.

O cadáver desfilará na avenida todos as manhãs.

Quanto mais eu gargalho acabo ficando mais sério.

Minha fragilidade tem a aparência de uma teia.

E o passado é um futuro que estava sendo enganado...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

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