Pois eu sou o filho do passado
Que só acontecerá hoje...
Mastigo alguns cacos de vidro
Com a veemência de quem
Tatuou a fome em sua pele...
Ela era tão linda antes das rugas...
Agora o jornal amarelou de vez...
De que me adiantam as chaves
Se não existem mais portas?
Vou comprar uma corrente na esquina e já volto...
Permite-me uma observação?
Nunca guarde sorrisos para depois...
A fumaça nunca se prende em garrafas...
Por que os cães vivem tão pouco?
Isso é lógico! Não precisa nem perguntar...
Por que somos tão miseráveis?
Isso é basico! Qualquer resposta é excesso...
Esse barulho silencioso
Acaba ferindo meus pobres ouvidos...
Só roubarei beijos se forem emprestados...
Qualquer hora dessas voarei sem asas...
Ou será melhor usar pelo menos um par?
Todas as frutas acabam gostando do chão...
Ali em frente ao mar
Existem mesas de cimento gastas
Para o nosso maior desconsolo...
Só os que puderam envelhecer
É que pagaram o preço da vida...
Eu aceno distraidamente
Como quem pede notícias vãs...
Acordei quase agora
Do sono profundo que não tive!
Masco chicletes imaginários
Que quase não me fazem falta...
Cada minuto é uma lâmpada queimada...
Estamos festejando o fim do mundo
Já faz é muito tempo!
Quer me conhecer realmente?
Me dê de presente outro terninho azul...
Ou aquele cocar de tantos carnavais...
Pois eu sou o filho do passado
Que só acontecerá hoje...
(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

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