quinta-feira, 8 de outubro de 2009

jogos do sol


O sol brinca conosco
Em dias de chuva se esconde
Vai pra trás das nuvens
Vai pra onde? Vai pra onde?


Está sempre sorridente
Em dias quentes quer mais
Testemunhas de nossos crimes
Faz brilhar os metais


Brilha por cima dos berços
Também acompanha funerais
Visita todas as terras
Beija as ondas dos cais


Faz carícias naquela moça
Também percorre o corpo do rapaz
Viu muitos dias de guerra
Viu poucos dias de paz


Sobe ao alto dos morros
Reflete a cor dos murais
Ficou na porta dos olhos do cego
Onde não entrará jamais


Foi deus em muitos altares
Veio dançar com os mortais
Depois acendeu as bandeiras
Que brincam pelos quintais


O sol brinca conosco
Em dias de chuva se esconde
Vai pra trás das nuvens
Vai pra onde? Vai pra onde?

paisagem moderna com fonte cristalina

Resultado de imagem para chafariz antigo
eu vejo uma paisagem eterna
como uma luz nesta neblina
é uma paisagem moderna
com sua fonte bem cristalina
marchamos obedientes
por entre as gentes
informes
em nossos uniformes
galantes
em passos claudicantes
os arranha-céus nos olham
o choro dos céus não molham
por certo certos estamos
mas em que lugar chegamos?
somos seres humanos
demônios debaixo dos panos
fabricamos guerras e lixos
matamos terras e bichos
fazemos qualquer negócio
tristeza beleza e ócio
escravos de sôfrega busca
um pirilampo qualquer nos ofusca
sedentos retirantes
bebemos qualquer instante
quem é que não quer
ser aquilo que não é?
à todos nós interessa
chegarmos ao nada com pressa
quem não está interessado
em puxar a brasa pro seu lado?
use pra tudo o seu riso
mate se for preciso
eu vejo uma gravura eterna
como uma cruz de rotina
é uma paisagem moderna
com sua fonte cristalina
viver é um vício
sexo é o início
respirar com sacrifício
na beira de um precipício
morrer é mais uma viagem
nesta doce e podre paisagem...

A Dança dos Mortos


vamos dançar como dançam os mortos!
com os olhos tortos
como um cego olharia
com o olhar mais puro
tateando no escuro
sem pai sem mãe sem tia!

vamos dançar como dançam os mortos!

com naus sem portos
como um bobo partiria
com o coração partido
com a boca cheia de gemidos
sem coragem sem emoção sem covardia!

vamos dançar como dançam os mortos!

com os ossos tortos
como um coxo andaria
em direção ao estreito leito
do ataúde de seu próprio peito
sem dor sem mágoa sem alegria!

vamos dançar como dançam os mortos!

com risos indispostos
como um lobo uivaria
esperando sem saber o Quê
enquanto o nada continua à crescer
sem noite sem tarde sem dia!

vamos dançar como dançam nós!

com um grito sem voz!
com um grito sem voz!!!

Competição


tiro de meta
tiro da seta
tiro da reta

no frio os gatos se encolhem e dormem

no medo os homens se calam e correm
na vida os sonhos nascem e morrem

ri do amigo

ri do perigo
ri do castigo

no fogo os metais se aquecem e [fundem

no amor tristeza e alegria se [confundem
na fome as carnes se ferem e se [contundem

chega de trama

chega de drama
chega de lama

na fumaça os velhos dogmas se escoram

no bolso dos ricos é que os pobres moram
no rodar do tempo as carpideiras choram

filho da luta

filho da bruta
filho da puta

nas decepções os desejos se arrefecem

no tesão os nossos sexos crescem
na fila de espera todos envelhecem

vida de castro

vida de astro
vida de rastro

no estado em que as coisas se encontram

nos caminhos que as evidências apontam
nas brincadeiras malvadas que nos aprontam

tiro de meta

tiro da seta
tiro da reta
(Sepetiba, RJ, 20-06-1998)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Brincadeira de Gato e Rato


o gato convidou o rato.
vamos dançar cirandinha!
o sol atravessa o furo.
o passado já virou futuro.
a saudade virou doença.
o frio quebrou os ossos.
o vinho engoliu a vinha!

o gato conquistou o rato!

vamos dançar cirandinha!
a vida tropeça no escuro.
o hesitado se tornou seguro.
a irrealidade virou crença.
o rio levou os nossos.
o vindo engoliu o vinha!
(sepetiba, rj, 20-06-1998)

Imagem do Desengano


Hoje não sei
Amanhã não serei
A não ser
A imagem distraída
De uma fantasia quase vida
Que sonhou só em sê-lo
Sem medo do sétimo selo
Gato brincando com novelo...

Hoje não sei
Amanhã não terei
A não ser
A visagem retratada
De uma fantasia quase nada
Que sonhou só em tê-lo
Sem enredo de ótimo cabelo
Gato brincando com novelo...

Providências Tomadas

Resultado de imagem para acendendo a vela
Acender a vela
Fazer a prece
E o quebranto
Nem tanto
Olhar o mundo
Fechar os olhos
Comer jornal
E ser normal
Fazer fumaça
Contar os niqueis 
Ir no enterro
O novo erro
Chegar na praça
Correr de medo
Ficar os anéis
Ao invés
Catar cavaco
Dizer besteira
Como os loucos
Aos poucos
Lamber sabão
Queimar tuia
Ser um iogue
Ou um hot dog
Dançar maxixe
Tocar corneta
Não ter viagra 
É uma praga
Catar coquinho
Ser esquecido
Fumar cigarro
É um sarro
Ficar na boa
Entrar na fila
Ir no banheiro
Não ter dinheiro
Crer em tudo
Calçar sapatos
Lavar a mão
Morder o cão
Cortar o cabelo
Lixar a unha
Ser só mais um
Ou nenhum
Coçar o saco
Roer os ossos
Ouvir apelos
Ou pesadelos
Chora de tédio
Rir de saudade
Cheio de cana
O fim-de-semana
Beber uma coca
Comer um sanduba
Dar graças à Deus
Porque comeu
Entrar em campo
Marcar um gol
Correr pro abraço
Mais um fracasso
Ir no cinema
Ganhar uma paquera
Uma grande ideia
Lá na plateia
Acender a vela
Fazer a prece
Quebrar o encanto
E o quebranto
Nem tanto!

(Extraído do livro "Palavras Modernas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Carliniana CXXXIII ( O Grão Nosso de Cada Dia )

Cada dia um grão... Olha o trem chegando na estação! Vou no armarinho comprar uma estrela de papel Vou colocar as velhas asas pra poder entã...