terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Aeternum 2

A paisagem vista da janela do apartamento.

Os livros na estante que nunca irei ler.

Os muitos detalhes que escapam das mãos.

O café que esfriou na cafeteira antiga.


Onde está o tempo?


Versos que nunca mais poderei escrever.

Um beijo que fugiu da boca pra nunca mais.

Meus olhos nunca puderam enxergar o longe.

Até o novo acaba se tornando antigo.


Onde está o tempo?


Manchetes que deixaram de acontecer.

Mentiras que acabaram sendo confirmadas.

Uma luz que se apagou sozinha no quarto.

A poeira e os insetos fizeram um pacto.


Onde está o tempo?


Talvez todo caminho não seja um caminho.

E as brincadeiras nunca tenham tido graça.

Eu lavo minhas mãos pela minha própria culpa.

Todo dia seguinte terá sua própria festa.


Onde está o tempo?


Os cabelos perderam a cor que possuíam.

Cada ruga irá me contar uma aventura triste.

Minha ternura acaba abraçando o mundo.

Acabei perdendo a chave da gaveta do medo.


Onde está o tempo?


Alguma coisa não me desce de garganta abaixo.

Talvez eu quisesse ficar mais um pouco por aqui.

Ainda existem muitas estrelas para poder contar.

E talvez eu encontre um novo par para dançar.


Onde está o tempo?

Carrego comigo todo aquele que preciso...

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Aeternum

Gim no copo. Pouco dinheiro.

Sonhos sempre nebulosos. Perigo.

Corra que a polícia não vem aí.

Os mortos nunca param de sorrir.

Cerveja na mesa. Um milagre.

Estamos todos aí. Ou talvez não.

Eu sou o mágico sem mágicas.

E a esperança que se desespera.

O bar sempre sujo. Sem piedade.

Não conheço essa rua. Perdido.

Rir é o nosso único e fatal remédio.

Aqui não existe nenhuma moeda.

Um nome entre as rosas. Margaridas.

Vamos então comemorar. O nada.

Um cão geme pela fria escuridão.

O leiloeiro acabou de bater o martelo.

Meus sapatos estão sujos. Nem tenho.

Queremos mais uma dose. Ou duas.

A flecha apontou direta em meu peito.

Meu coração tirou férias faz tempo.

Escuto as fogueiras clarearem. Minhas.

Cada pedaço vira o todo. Há milagres.

Até a mentira pode ser algo verdadeira.

E a fama é uma forma má de anonimato.

Não vou para lugar nenhum. Fico por aqui.

Meus pés estão mais cansados. Pobre deles.

A vida foi um doce que jogamos sempre fora.

Venha qualquer hora tomar café comigo...

É Que Todo Dia Acaba Quando Começa

É que todo dia acaba quando começa

Todo sorriso se desfaz depois de dado

Tudo fica atrasado quando se tem pressa

Tudo só começa depois de encerrado


Só tem perfume o que não tem cheiro

Toda planta terminará pela raiz

Só permanece o que for passageiro

Tudo que é triste um dia foi feliz


É que em todo carnaval teremos luto

Toda carícia é que vai nos machucar

Só o relativo é que pode ser absoluto

E a tempestade é uma cantiga de ninar


Não há problema nenhum de ter problema

Desde que ele seja por nós bem vindo

Tudo que nos apavora é fora do sistema

Aquilo que é hostil é sempre bem vindo


No final do sal é que vem o que é doce

A noite tem mais luzes do que se imagina

Toda a vida foi a morte quem nos trouxe

Tudo que estava programado é a sina


É que todo dia acaba quando começa

Todo sorriso se acaba antes do segundo

Tudo fica atrasado quando se tem pressa

Existe um final menos paro o fim do mundo...

Impiedade

Eu hoje acordei tipo acordando

Procurando restos de beijos sobre lençóis

Mas não encontrei mais nenhum...


Era um dia frio como qualquer verão

Desses que a gente tem medo de rir

No meio do todo nosso choro...


E quis ser famoso que nem novela

Mas a vida se parece com um depósito

Onde recordações são objetos quebrados...


Chamei seu nome mais uma vez

Mas o vento era surdo como uma janela

Que se fecha para tudo que nos é caro...


A mentira é como uma roupa nova

Que se quebra logo na primeira chuva

Enquanto tenho febre porque melhorei...


Todo poeta é mais um cão sem dono

Que nunca sabe se tem fome ou tem sede

E vigia as madrugadas com seus uivos...


A beleza dela era ilusória feito bondade

E os meus passos agora todos controlados

Por qualquer uma maldita rede social...


Talvez eu pense numa música tão famosa

Que enxerguei como uma ponta de cigarro

Que catei na rua em um dia mais vagabundo...


Todo sacrifício é uma aventura desnecessária

Porque o herói da trama está de folga

E o vilão aproveita para incendiar o circo...


Um livro velho ainda é apenas um livro

Mas com um sonho não acontece isso

Pois um sonho antigo acaba virando pesadelo...


E aquele beijo que você nunca me deu

Naquelas tardes tão bonitas que agora inexistem

É apenas a impiedade de quem me matou...

domingo, 18 de janeiro de 2026

Eu, Mais Um Idiota


Mais um na fila,

Mais um para a queda,

Mais um para o tombo...


Abuso das reticências,

Abuso das entrelinhas,

Abuso da inexistência,

É fim de mês...


Mais um no trote,

Mais um para o engano,

Mais um para o engodo...


Capriche no molho,

Capriche na ferida,

Capriche no deboche,

É fim da linha...


Mais um simples brinquedo,

Mais um pesadelo comum,

Mais uma susto normal...


Rasgue a fantasia,

Rasgue os céus,

Rasgue o verbo,

Até não poder mais...


Mais um tapa na cara,

Mais uma mão na bunda,

Mais uma desculpa inútil...


A peça com defeito,

A peça não-estreada,

A peça quebrada,

A máquina parou de vez...


Mais uma ideologia barata,

Mais um simples engabelo,

Mais uma vela acesa...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 17 de janeiro de 2026

Declarações

- Querida, você é mais linda do que um pterodátilo!

Falava um campista urbano com seus vários joanetes

Enquanto bebia um copo d'água com coliformes fecais...

(Isso é que dá estar na hora certa no lugar errado...)

- Sonhei com o número da minha cova e joguei no pato!

Eu desperdiço o tempo pelo dinheiro e até vice-versa

Enquanto faço excelentes colares de mamões maduros...

(Já guardou suas melecas para os dias vindouros?)

- A felicidade mora no boteco ali da nossa esquina!

Doravante só falaremos em um português hispânico

Enquanto ainda existir alguma gasolina no tanque...

(Ele se masturba apenas dez vezes diariamente...)

- Agora suco de pedra bem salgado é o mais fitness!

Em todos os abris carmesins andaremos só de joelhos

Enquanto desenhamos obscenidades nas paredes...

(Lança-perfume será servida no nosso café da manhã...)

- O tatu-bola se tornou um grande tatuador de elite!

Na natureza encontramos coisas bem mais naturais

Como toneladas de plástico emporcalhando mares...

(Existe uma tal de raça humana fazendo muita merda...)

- Meu jovem, essas cáries parecem mais o mapa-múndi!

E esse calo no canto esquerdo do meu pé esquerdo

Parece um martírio dos condenados de eternas galés...

(Nem um pão posso comprar quanto mais pagar o calista...)

- Um dia sentirei seu gozo escorrendo entre meus dedos!

Nunca duvide dos loucos e também dos que desesperam

Assim como dos ratos que têm que escapar dos gatos...

(Ainda existem vários copos que ainda terei que beber...)


(Extraído da obra "O Livro do Insólito e do Absurdo" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Minimalismos 5

O Ser


Sou aquilo que se pode ser

o Ser

e se não fosse o ser

não o seria...


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Divisão


Dividido como civil guerra

Mira no alvo e erra

Declara que ama e não ama

Só tem anônima fama...


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Solenitude


De hoje até um dia

Só matarei os mosquitos

Que ousarem 

Hora dessas me picarem...


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A Praia


Na saia da praia

desmaia...

Na baia da praia

é laia...

Na maia da praia

é paia...


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Mungango


Não manga de eu

Chega de marmota

O destino arrudeia tudo

Cabra pirangueiro...


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Brinquedo


Somos apenas brincadistas

(Ou seria brincadeiros?)

Que cirandeiam dia sim

E no adiante também

De lembranceios é a nossa

Mais preciosa bagagem...


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É O Acaso


É o acaso que faz

qualquer escolha

como alguém apressado

numa feira livre

daqui do bairro...

Aeternum 2

A paisagem vista da janela do apartamento. Os livros na estante que nunca irei ler. Os muitos detalhes que escapam das mãos. O café que esfr...