quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dança de Guerra

É o que somos:

Enigmas para serem desvendados

Tolices que são feitas continuamente

Mesmo quando não queremos


Eis aqui os sonhos pelo ar

Mosquitos zumbindo atrapalhando

Nosso pobre e escasso sono


Sempre exageramos:

Nem percebemos que não livres

Acariciamos as nossas correntes

Até o que o inevitável chegue


Eis aqui o impossível amor

Ali está a paixão folha que secou

E que se incendeia veloz


Nossa maldade:

É como agarrar variados espinhos

Todos os soldados irão morrer dia desses

Juntos aos senhores da guerra


Por isso devemos entender

A alegria permanente e sã das crianças

E a sabedoria de todos os bichos...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Convite (Miniconto)

Vamos estrear uma novela non sense? Você finge que me ama e eu finjo que ainda acredito nisso... Estrearemos um novo bang-bang? Mesmo que você pareça mais com a girl do saloon e eu tenha mais cara de vilão de que de mocinho... Ou seria um melodrama daqueles latino-americanos? Daqueles que forçosamente nos fazem chorar mesmo sem motivo algum e sem sentido nenhum também... Ou você prefere dançar uma ciranda na praça comigo? Hoje é um dia de sol como outro qualquer e um coro de passarinhos pode nos acompanhar... Se quiser, venha me buscar, a hora que quiser, estarei aqui no mesmo lugar, no mesmo túmulo...

Por Um Frio

Blusas de lã de carneiro sintético

Castelo sem reboco da rua Paris

Disputa mundial por um nada

Minhas besteiras todas têm sentido


Ela queria se atirar da ponte

Mas acabou mesmo foi voando

Mesmo quando era solitária

Seus sonhos faziam um bando


Trememos quando for necessário

Nosso crime não tem pista alguma

Minha carteira de monstro atropela

Nossa sandice é a mais indicada


Pois ele rolou pela suja calçada

Se sujou com o óleo queimado

Gritou impropérios à granel

E quase que ficou foi pelado


Me mandam áudios que não ouço

Alguns se viciam em adrenalina

Toda normalidade não é normal

Assim como palavras deste lixo


A luz do lampião não está acesa

O fogo nunca mais se acenderá

Tenho ainda muito o que fazer

Mas mamãe eu quero é mamar


Glória à todos os que erraram

Um cigarro à mais que eu quero

Só quero azul se não tem azul

Febre só de cinquenta pra lá


O meu feijão foi pra geladeira

Menino é menino se for menino

Semana passada teste nuclear

Tem pouco pão e nenhum ensino


Fui tomar cerveja lá no inferno

Os tira-gostos eram as brasas

No nosso saleiro tem açúcar

Quero fazer a barba no facão


Gozei pensando em carícia morta

Estabeleço as regras disciplinares

Parei pra ver a banda que não passa

Ele usa luas ao invés de malabares


Vou morar num prédio assombrado

Vamos falar deste mesmo assunto

Comer foi feito pro ser o tempo todo

Muito prazer eu me chamo ninguém


Pegamos uns doces na encruzilhada

No pico da Neblina só terá mais sol

O soldado não foi mais na guerra

Morreu foi num domingo de futebol


Toda coisa é somente uma coisa

Quem tem filho careca é o rato

Coma um livro e leia uma cocada

A baiana do acarajé é do Paraná


Hoje Cíntia fez seu desaniversário

Que Deus a tenha em qualquer lugar

Eu posso dormir em qualquer mesa

Mas de preferência em uma de bar


Deliciosas pipocas assadas na lenha

O seu rabo parece mais um pandeiro

Compro sua alma se for bem barata

Um mero instante para um sequestro


Vá tomar café na lama do chiqueiro

Limpe o seu cu com papel reciclado

Nada foi feito pra poder dar certo

Até meu olho que já foi trocado


Blusas de lã de carneiro sintático

Castelo sem reboco da rua Chile

Disputa mundial por um nada

Minhas besteiras todas têm sentido...


(Extraído do livro "Insano" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Teimosa Filosofia

Se o nada é apenas um vento que passa

Para onde foi esse vento nada agora?

Se são os meus pés que estão cansados

Por que são minhas mãos que tremem?

A demora do choro sempre ficará conosco

Na dependência e alcance de qualquer dor...


Se a última moda é sempre mais bonita

Por que o tempo nos contradiz sempre?

Qual o amor que será sempre eterno

Se todos eles um dia estarão acabados?

Não existe sabedoria que seja maior

Do que aquela que a necessidade dita...


Nossas necessidades são meras ilusões

Ou nossas ilusões é que são necessidades?

Por que darmos de cara com a parede

Se no muro o estrago pode ser ainda maior?

Se me chamarem de palhaço será um elogio

Mesmo que isso seja ofensa pro palhaço...


A flecha vai em direção para acertar o alvo

Ou é o alvo que calcula a direção da flecha?

Por que a nossa modernidade envelheceu

Ou será que a velhice é que é a modernidade?

Sonhos são vontades que teimam não morrer

Mesmo quando entram num beco sem saída...


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Frio & Vazio (Um Medo Sem Sombras)

Trama tecida com espinhos tão malvados.

Sentir dor é apenas uma questão de sentir.

Os meus fantasmas estão todos assustados.

A parede da memória está prestes à cair.


Pois eu avisei, senhores, eu avisei!

Que a lei deste mundo é não ter lei...


Mercado de pulgas sem ter nem atração.

O trem que chega erra no seu horário.

A apatia é a nossa mais real comoção.

Batam logo palmas pra esse pobre otário.


Fiquei atentos, senhores, fiquem atentos!

Não vemos a poeira que vem com os ventos...


A mesma súplica que chega ser cansativa.

O problema não resolvido vira doença.

A alma é que morre mesmo com a carne viva.

Aquela antiga fé agora é minha indiferença.


É apenas existencial, senhores, existencial!

Quem sempre mandou no mundo foi o mal...


Vamos escolher um dos sete pecados capitais.

Aquele que pode lhe dar bem mais apreço.

Não sabemos se atrás da porta há algo mais.

Só sabemos que a morte conhece o endereço.


Pois eu avisei, senhores, eu avisei!

Que um dia irei embora, um dia irei...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sábado, 3 de janeiro de 2026

Um Enigma Chamado Renata (Miniconto)

Ela é um enigma, sempre será, tenho certeza disso. No começo, eu só via o lado bom dela, devia ser porque eu a amava. Um amor desses meio esquisito, sabe? Que não foi à primeira vista, foi amor tipo fruta, primeiro a flor, aí vai crescendo, crescendo, até que quando se vê já madurou e não tem mais jeito. Mas com o tempo, o lado ruim se mostrou e mostrou mesmo. E tipo a fruta que passa do ponto e apodrece. Quais as qualidades dela? Eu acho que tem um pouco de cada. E os defeitos? Ah, aí tem muito de todos eles. Dava pra escrever um livro sobre isso. Eu e a irmã dela achamos que ela seja uma psicopata. Não possui empatia por ninguém e nem por nada. Seria capaz de causar a morte de alguém e no dia seguinte estar se descabelando no enterro, quem não conhecesse a bisca ia ter até dó. Com certeza foi a pessoa que mais eu amei (tirando mamãe, é claro e o meu velho também), mas também a que eu mais odiei. A verdade é essa: amor e ódio comem no mesmo prato e bebem do mesmo copo. Por conta disso, acho que eu também sou outro...  

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ela Nunca Foi Nada (Miniconto)


 

Ela nunca foi nada. Nunca foi não. Muito mal foi registrada no cartório. Profissão? Nenhuma. Aprendeu alguns afazeres domésticos. Cozinha bem? Nem pensar. Já furtou alguma coisa? Muitas vezes... Tem moral?... O que é isso? Já apanhou na rua? Várias vezes, perdeu as contas. Tem algum vício? Acho que todos eles. Tem alguma beleza? Nem interior e nem exterior. Alguém lhe amou? Não, só foderam. Tem filhos? Não, teve vários abortos, uns espontâneos, outros provocados. Tem alguma religião? Só a cachaça... Gosta de alguma coisa? Nem mesmo gosta de si própria. Já tentou se matar? A sua vida já é a morte. Já passou vergonha? É o que mais faz. Gosta de banho? Leva semanas sem tomar nenhum, daí seu principal apelido – Iara Faz-Sujeira. Teve residência fixa? Já morou várias vezes na rua, noutras em casas abandonadas que ela e outros infelizes invadiram. Teve piolho? Ainda tem e chato também. Ficou doente alguma vez? Claro que sim, várias, isso é quase normal. Foi pelo menos ao médico? Não, nunca vai. Vota? Nunca tirou nem identidade. É mentirosa? Só é. Contribuiu para alguma coisa na sociedade? Nem pensar... E o que lá é? O que sempre foi, nunca foi nada...

Dança de Guerra

É o que somos: Enigmas para serem desvendados Tolices que são feitas continuamente Mesmo quando não queremos Eis aqui os sonhos pelo ar Mosq...