domingo, 1 de fevereiro de 2026

Teatro da Velocidade

 

Tudo é veloz...

Ai de nós!


Numa velocidade sem precedentes

Que pensamos estar até doentes

Quase são e quase dementes

Solitários entre tantas gentes...


Tudo é veloz...

Quase atroz!


Não era fogo e era apenas fumaça

O que chega logo e logo passa

Um jogo apenas de vil trapaça

Que tonteia mais que cachaça...


Tudo é veloz...

Cala a voz!


Eu penso muito e perdi a razão

Sou mero escravo da televisão

Há quase nada nesta imensidão

Estar sozinho numa multidão...


Tudo é veloz...

Até o algoz!


A manhã já acontece mesmo fria

E a tristeza vem junto da alegria

Nada poderá nos conter na teimosia

De viver e morrer com sincronia...


Tudo é veloz...

Mesmo sem voz!...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Ainda

Ainda pensando no espetáculo 

que não aconteceu

Na vitória que acabei perdendo

Nos passos que acabei não dando

Na roseira que está morrendo...


Ainda penando neste cela

que foi a vida quem me deu

Na chance que virou fracasso

Num céu com falta de espaço

Num amor que nunca apareceu...


Grande promoção! Grande promoção!

Ria hoje e chore amanhã!

Tente uma tentativa vã

No leme neste barco avariado

Neste mar vil e malvado...


Ainda ontem falei com os mortos! Os mortos!

Com estes meus mesmos olhos tortos...

Me mostraram algumas antigas feridas

Todas elas estavam sepultadas 

E eu pensava que estavam esquecidas...


Ainda pensando no parque que não virá

ele me trazia muito da pouca alegria

Nas voltas que eu um dia dei

Na sua imensa roda-gigante

E quem sabe talvez um dia

Tudo volte como foi antes...


Ainda... Ainda... Ainda...


(Extraído do livro "Escola de Mortos" de autoria de Carlinhos de Almeida).

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O Choro da Hiena

Aqui nesse nosso mundo tudo chora até a hiena

Chora de tanto rir e de tristeza que dá até pena

Chora também o mais engraçado dos palhaços

Quando olha para trás e só enxerga fracassos

Choro eu quando nos meus olhos entra fumaça

Antes eu vi que a vida é mais que uma ameaça


Chora pai, chora mãe, avô, avó, o tio e a tia

Quem tem a vida plena e o que tem alma vazia

Tanto aquele que está no abrigo ou no temporal

Aquele que começou a partida ou está no final

O cara enchendo a cara e o que não bebe nada

O que foi aplaudido de pé e o que levou porrada


O que sabia de tudo ou o cara mais ignorante

O que viveu um século ou que viveu um instante

O que vive em paz e o que dorme sob bombardeiro

O que chora na internet ou que chora no banheiro

No sexo entre ele e ele e no sexo entre ela e ela

Naquela mansão bonita ou no barraco na favela


Aqui nesse nosso mundo tudo chora até a hiena

Chora quem está com raiva e quem está com pena...


(Extraído do livro "Pane Na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

domingo, 25 de janeiro de 2026

Memória

Material que desgasta

Mesmo que deixe cicatrizes

Brinquedo que some

Mesmo que faça falta...


(Desculpe-me a falta de palavras

é que meus dedos agora doem

e eles doem e muito...)


Saudade que consome

Mesmo que seja silêncio

Riso fora de hora e lugar

Mesmo quando há medo...


(Eu viajei e olha que foi ontem

só que ontem era uma eternidade

cheia de um grande vazio...)


Carnaval que passou

Mesmo quando sem cinzas

Namoro que não durou

Mesmo com tantos beijos...


(Eu vi as tranças do seus cabelos

e o encanto de castanhos olhos

e agora só existem rugas...)


Frio invasor do quarto

Mesmo com fechadas janelas

Madrugada que se consumirá

Numa malvada manhã...


(A minha comum decrepitude

usa seu inútil disfarce

e transforma tudo em memória...)


(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Era Talvez Um Palco

Era talvez um palco...

Ou melhor, uma arena...

Onde touros e toureiros

Acabavam se confundindo...

Queremos matar ou sobreviver

Ou nem sabemos...


Era talvez um palco...

Ou melhor, uma praça...

Onde meninos brincam

Ou dançam ciranda...

Meninos bons e meninos maus

Isso tanto faz...


Era talvez um palco...

Ou melhor, um picadeiro...

Onde alguém chora

Ou ri demais...

Somos clowns e plateia

Ao mesmo tempo...


Era talvez um palco...

Ou melhor, um grande nada...

Onde todos vivem

E também morrerão...

Todos mortais e imortais

Para a eternidade...


Era talvez um palco...


(Extraído do livro "O Espelho de Narciso" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Minimalismos 7


 Eu Quero


Quero o idioma de todas as plantas

A fala de todos os bichos

O suspiro de todos os poetas

E, sobretudo,

Os sonhos que não me largam

E os amores que não me deixam...


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Joy


O tempo passa

Sobretudo

Aquilo que só

Nós vimos

E mais ninguém

Loucura e

Riso

Talvez até amor...


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Encadeamento 


Cada segredo

Tem seu medo

Cada medo

Seu enredo

Tarde ou cedo...


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Aqui ou Ali


Não isto e nem aquilo

Mas aqui ou lá

(Ali para quem quiser)

Estão vendo aqueles passarins?

São meus sonhos fugitivos...


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Concreto


Tudo que podemos pegar parece concreto

mas na verdade não é,

o tempo acaba devorando...

Só o amor é concreto,

persiste em nossas almas...


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Indecisão


Dizem que sou indeciso!

Será que sou?

Ou não?...


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Final


Toda estrada vai...

Para onde chega?

Para seu final...

E depois?

Começa outra...

sábado, 24 de janeiro de 2026

Laranja da Festa

Quanto maior, menor!

Quanto mais sábio, mais tolo!

Quanto mais fundo, mais raso!

Quanto mais simples, complicado é!


Gente que não vale um peido!

Gente que não vale um guaraná!

Nem um caroço de manga chupado!

Nem uma coçada no meio dos bagos!


Quanto mais doce, salgado!

Quanto mais macio, feito pedra!

Quanto mais seguro, perigoso!

Quanto mais novo, envelhecido!


Gente que mal sabe cagar!

Gente que mal sabe mijar!

Num vale o prato de merda que come!

Nem vale o chão que cai duro!


Quanto mais culpado, inocente!

Quanto mais vivo, quase morto!

Quanto mais comedido, exagerado!

Quanto mais chuvoso, mais praia!


Gente que não sabe latir!

Gente que não sabe nem miar!

Que não fala nem o que pensa!

Se falasse só sairia besteira!


Quanto maior, pior!

Quanto mais sábio, mais dolo!

Quanto mais rápido, mais atraso!

Quanto mais simples, complicado é!...


(Extraído do livro "Pane na Casa das Máquinas" de autoria de Carlinhos de Almeida).

Teatro da Velocidade

  Tudo é veloz... Ai de nós! Numa velocidade sem precedentes Que pensamos estar até doentes Quase são e quase dementes Solitários entre tant...