aquele sorriso que você não me deu
naquela praça que nunca existiu...
sonoridades que só o silêncio pode dar
num mar parado com todas ondas que há...
um grande poema sem ter verso algum
escrito num muro que não existe mais...
um grande beijo que eu não pude roubar
numa boca que nunca esteve por aqui...
é que eu nunca sei aquilo que quero
como se fosse uma ereção involuntária...
o colorido mais que súbito e imaginado
na velha televisão que era preto-e-branco...
a inusitada notícia de que nada aconteceu
neste último minuto que o mundo girou...
aquele doce que era o mais azedo deles
dentro da boca sem uma saliva alguma...
a mentira mais verdadeira que existiu
proferida pelo meu filho que não nasceu...
a violência que acabei nunca praticando
e que me deixou com inúmeras cicatrizes...
hoje só querem pratos mais enganosos
de um otimismo barato e sem gosto algum...
ficarem de joelhos em preces tão inúteis
até que as suas carnes comecem a doer...
o meu cão agora está roendo um osso
que fala mais do que qualquer um epitáfio...
aconteceu tudo aquilo que não deveria
num ineditismo totalmente programado...
é que eu nunca sei aquilo que quero
como numa cena pornográfica mais inocente...
(Extraído do livro "Farol de Nulidades" de autoria de Carlinhos de Almeida).

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